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Edição 328

O mito da liberdade sem limites 

Nossa época tem de redescobrir uma lição: antes de governar uma família, uma comunidade ou um país, o homem precisa aprender a governar a si mesmo

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Na cultura ocidental contemporânea, a desconfiança em relação à autoridade se intensificou, levando a uma análise crítica de instituições como família, escola e religião, muitas vezes vistas como opressivas. Essa mudança, embora tenha contribuído para a denúncia de abusos, também gerou um ambiente onde a simples existência de autoridade é questionada, resultando em dificuldades na convivência e aumento da ansiedade.

Na cultura ocidental contemporânea, tornou-se comum atribuir praticamente todos os conflitos humanos a estruturas externas de poder. A família, a escola, a religião, a polícia, os governos e até mesmo a linguagem passaram a ser analisados, muitas vezes, sob a perspectiva da opressão. A pergunta deixou de ser se determinada autoridade era legítima ou ilegítima. Em muitos ambientes culturais, passou a ser simplesmente se ela deveria existir.

Basta acompanhar o debate público por alguns dias para perceber o fenômeno. Pais que impõem limites aos filhos são frequentemente acusados de autoritarismo. Professores que exigem disciplina precisam justificar por que o fazem. Policiais são julgados antes mesmo da conclusão de investigações. Líderes religiosos veem ensinamentos transmitidos ao longo de séculos serem tratados como formas de opressão. Em comum, todos esses casos carregam uma mesma pergunta silenciosa: o que aconteceu com a nossa relação com autoridade legítima?

Nas últimas décadas, até mesmo a linguagem passou a ser analisada, muitas vezes, a partir da lógica da dominação. A mudança trouxe contribuições importantes ao denunciar abusos reais e recordar que nenhuma autoridade deve estar acima da lei ou da dignidade humana. Aos poucos, porém, essa desconfiança deixou de distinguir autoridades legítimas de formas arbitrárias de poder. Em muitos ambientes culturais, a simples existência de uma autoridade passou a despertar suspeitas.

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Essa transformação produziu consequências que vão muito além da política. Ela alterou a maneira como passamos a compreender a própria experiência humana. A ideia de limite, que durante séculos foi considerada parte natural da formação do caráter, passou a ser vista como um obstáculo à realização individual. Quanto menos barreiras existissem entre o desejo e sua satisfação, imaginava-se, mais livre seria o ser humano.

A promessa parecia sedutora. A realidade, porém, revelou um resultado bastante diferente. Vivemos em uma época que oferece níveis inéditos de liberdade de escolha, de expressão, de acesso à informação e de autonomia individual. Ao mesmo tempo, ansiedade, insegurança, solidão e dificuldades de convivência ocupam um espaço cada vez maior na vida contemporânea. Não se trata de estabelecer uma relação simplista de causa e efeito entre esses fenômenos, mas é difícil ignorar que eles surgem justamente em uma cultura que passou a tratar qualquer forma de autoridade com crescente desconfiança.

Talvez isso aconteça porque existe uma característica da natureza humana que nenhuma transformação cultural conseguiu eliminar. Todo ser humano inicia a vida acreditando, ainda que inconscientemente, que o mundo existe para atender aos seus desejos. Um bebê não compreende a existência do outro nem distingue suas vontades das exigências da realidade. O amadurecimento consiste justamente em descobrir, pouco a pouco, que o universo não gira ao redor de nossas preferências. Aprendemos que existem regras que não criamos, consequências que não controlamos e limites que independem daquilo que gostaríamos que fosse verdadeiro.

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Esse aprendizado nunca foi simples nem particularmente agradável. Ele exige disciplina, autocontrole e, sobretudo, a capacidade de ouvir um “não”. Muito antes de representar uma forma de dominação, ela constitui um instrumento de formação. 

Essa percepção aparece de diferentes maneiras na psicologia, na filosofia e na tradição religiosa. O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, afirmava que a liberdade, por si só, jamais seria suficiente para sustentar uma vida plenamente humana. Ela precisava caminhar ao lado da responsabilidade. Não por acaso, Frankl costumava dizer que, se na costa leste dos Estados Unidos se ergue a Estátua da Liberdade, talvez fosse necessário construir, na costa oeste, uma Estátua da Responsabilidade. A imagem era simples, mas carregava uma verdade profunda: a verdadeira maturidade não nasce da eliminação de todos os limites, mas da capacidade de escolher conscientemente as responsabilidades que estamos dispostos a assumir. 

É exatamente nesse ponto que a autoridade exerce sua função mais importante. Muito antes de representar uma forma de dominação, ela constitui um instrumento de formação. Pais estabelecem limites porque enxergam perigos que seus filhos ainda não conseguem perceber. Professores corrigem porque ensinar pressupõe reconhecer que existe algo que ainda precisa ser aprendido. Juízes aplicam a lei porque nenhuma sociedade permanece livre quando cada indivíduo decide quais normas pretende obedecer. Em todos esses casos, a autoridade existe para orientar, proteger e preparar pessoas capazes de viver em liberdade.

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A tradição ocidental compreendeu essa distinção durante séculos. A Magna Carta não eliminou a autoridade do rei; submeteu-a à lei. A separação dos poderes concebida por Montesquieu não procurou abolir o governo, mas impedir que ele concentrasse funções incompatíveis com uma sociedade livre. Os fundadores da República americana também jamais imaginaram uma comunidade sem autoridades. O que construíram foi um sistema no qual diferentes instituições limitavam umas às outras, reduzindo a possibilidade de abuso. 

Nas últimas décadas, entretanto, essa distinção parece ter perdido espaço no debate público. A experiência traumática dos regimes totalitários do século 20 deixou uma marca compreensível na cultura ocidental. A vigilância contra o abuso do poder tornou-se uma necessidade moral. O problema surgiu quando essa vigilância começou a se transformar em suspeita permanente contra qualquer forma de autoridade, independentemente de sua natureza ou de seus limites. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, cresce a expectativa de que o Estado intervenha em um número cada vez maior de aspectos da vida cotidiana.

Esse paradoxo merece atenção. Quando as autoridades mais próximas perdem legitimidade, dificilmente o vazio permanece vazio. Outros poderes acabam ocupando esse espaço. Comunidades fortes, famílias presentes e instituições intermediárias sempre funcionaram como importantes barreiras contra a concentração excessiva do poder político. Quando essas estruturas se enfraquecem, o indivíduo passa a depender cada vez mais de instituições distantes para resolver conflitos que antes eram administrados em níveis muito mais próximos da vida cotidiana.

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Talvez seja essa uma das grandes ironias do nosso tempo. Em nome da emancipação do indivíduo, fragilizamos justamente as relações humanas que tradicionalmente ofereciam pertencimento, orientação e responsabilidade compartilhada. Quanto mais nos convencemos de que toda autoridade representa uma ameaça à liberdade, mais isolados nos tornamos diante de estruturas impessoais que dificilmente conhecem nossa história, nossas circunstâncias ou nossas necessidades concretas.

Existe ainda um aspecto psicológico frequentemente ignorado nessa discussão. A liberdade nunca significou ausência de limites. Significou a possibilidade de agir conscientemente dentro das condições que a realidade impõe. Nenhum ser humano escolhe onde nascer, quais leis da natureza governam seu corpo ou de que maneira o tempo transforma sua existência. A maturidade consiste justamente em reconhecer esses limites e aprender a agir de forma responsável dentro deles. Quando passamos a acreditar que qualquer restrição representa uma injustiça, acabamos transformando a própria realidade em adversária.

Talvez seja por isso que tantas pessoas experimentem uma sensação permanente de frustração. Uma cultura que promete autonomia absoluta inevitavelmente entra em conflito com um mundo que continua funcionando segundo regras que independem da vontade humana. Nenhuma sociedade consegue abolir a responsabilidade, eliminar as consequências das escolhas ou transformar desejos em fatos apenas porque considera essas limitações desagradáveis.

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As grandes civilizações compreenderam essa verdade muito antes de ela se tornar objeto de estudos em psicologia ou filosofia política. Educar sempre significou muito mais do que transmitir conhecimento. Significou formar o caráter para que homens e mulheres fossem capazes de conviver com a liberdade sem destruir as condições que tornam essa mesma liberdade possível. Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida em sociedade e, ao mesmo tempo, uma das menos valorizadas na cultura contemporânea.

No fim das contas, a autoridade legítima nunca teve como objetivo produzir submissão, mas preparar pessoas capazes de exercer a própria liberdade com responsabilidade. Civilizações não entram em crise apenas quando surgem governantes autoritários. Elas também se fragilizam quando deixam de formar indivíduos capazes de reconhecer que nenhuma liberdade sobrevive por muito tempo se cada desejo passa a ser tratado como um direito absoluto.

Talvez a grande pergunta do nosso tempo já não seja quem exerce autoridade sobre nós. Talvez seja outra: ainda somos capazes de exercer autoridade sobre nós mesmos? Ao longo de mais de dois mil anos, Aristóteles, os filósofos estóicos, a tradição cristã, Viktor Frankl, Edmund Burke e Roger Scruton chegaram, por caminhos diferentes, a uma conclusão semelhante: a liberdade nunca significou ausência de limites. Ela sempre exigiu autogoverno. Antes de governar uma família, uma comunidade ou um país, o homem precisa aprender a governar a si mesmo. Talvez seja justamente essa a lição que a nossa época mais precise redescobrir.

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2 comentários
  1. Manoel Ribeiro Soares Neto
    Manoel Ribeiro Soares Neto

    Excelente artigo, deveria ser lido por todos, inclusive nossos lideres!

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