Casada com um homem que foi prefeito quatro vezes, Emilia Menon Nunes da Silva detestava ser chamada de primeira-dama. “Quem gosta desses fricotes é gente metida a besta”, resumia a filha de um imigrante austríaco e de uma italiana do Vêneto. Ela preferia ser Biloca, apelido que surgiu na infância, atravessou a adolescência e foi atualizado com um “Dona” quando a jovem professora primária começou a lecionar no Grupo Escolar Domingues da Silva. No dia em que minha mãe morreu, foi de Dona Biloca que a cidade inteira se despediu.
Com o tempo, ela ficou menos intolerante com os que insistiam em promovê-la a primeira-dama. Mas continuou achando ridícula a estrangeirice. “Mulher de prefeito não tem voto nem mandato. É muito esquisito ocupar um cargo público que não existe sem ter disputado nenhuma eleição. Ninguém vota ou deixa de votar em mim. Quem ganha ou perde é meu marido.”

Dona Biloca raramente acompanhava o prefeito em cerimônias oficiais, mantinha distância de comícios e subiu num palanque uma única vez (para garantir que o filho Tato Nunes, que também seria prefeito, sempre fora um bom menino). “Não gosto dessas brigalhadas de campanha eleitoral, acho uma bobagem ficar trocando ofensas”, repetia. “Tenho dezenas de alunos e cinco filhos. Não sobra tempo para essa confusão que termina quando acaba a campanha.”
Só no dia da apuração Dona Biloca assumia o comando de uma operação altamente relevante: cabia-lhe impedir que a temperatura ambiente alcançasse altitudes siderais na sala atulhada de interessados na contagem dos votos. A cada meia hora, ela reaparecia na porta da sala de visitas, vinda do quarto no meio do corredor, com uma bandeja repleta de comprimidos que era esvaziada em poucos minutos. Doses cavalares de Lexotan impediam baixas na multidão que ouvia o noticiário do rádio com o coração na boca.
Só dispensava tranquilizantes o marido, que confundiu a certidão de nascimento com um convite para alguma festa sem prazo para acabar. Adail Nunes da Silva atravessou a vida sorrindo, discursando, contando casos, dançando, cantarolando e comemorando triunfos nas urnas aos beijos e abraços com velhos parceiros ou eleitores anônimos. Quem se intrigava com os temperamentos contrastantes do casal ouvia a explicação de Dona Biloca: “Nunca fui de muita esfregação”. Perguntei à minha mãe, mais de uma vez, por que meu pai resolvera estrear na política já como candidato a prefeito, com apenas 30 anos e enfrentando os líderes dos dois grupos que duelavam desde o fim da República Velha. A resposta nunca mudou: “Ele sempre foi muito exibido”.
Ela tinha 12 anos quando perdeu o pai, administrador de uma fazenda de café. O filho mais velho herdou o cargo, mas o salário foi reduzido à metade. A queda brusca na renda familiar seria uma cicatriz na alma de Dona Biloca. Ela não conseguia ocultar a inquietação quando o fim dos quatro anos de mandato do prefeito anunciava o começo de outro quadriênio sem contribuições financeiras do marido. Ele retomava o trabalho de advogado, mas um político visceral não cobra honorários de eleitores. O pagamento vem em forma de voto.
Então descobri que a mulher avessa a esfregações se derretia em demonstrações explícitas de ternura ao conviver com pequenos desvalidos. Enquanto ensinava, ela contemplava com cafunés que os filhos desconheciam alguma vítima da pobreza crônica. No meu primeiro dia como aluno, soube que nada levaria para comer na hora do recreio. “Você tomou café agora e vai almoçar quando voltar”, disse Dona Biloca. “Os meninos da roça só vão comer no almoço, isso se houver comida suficiente.” Naquele tempo, não existia merenda escolar. Ficou exultante com a invenção das sandálias havaianas. “Crianças pobres andam descalças porque não têm dinheiro para comprar sapatos”, disse. “Essa sandália vai impedir o contato humilhante da sola do pé com a terra.”
Confrontada com manobras políticas que a inquietavam, limitava-se a evocar velhas verdades. Uma de suas frases favoritas: quanto mais se agacha, mais se mostra o traseiro. Quando o marido contou que uma mudança na direção dos ventos o obrigaria a apoiar o adversário histórico, Dona Biloca retrucou com uma curta aula de sensatez. “Pense bem no que vai dizer a quem brigou com o vizinho por não querer conversa com alguém capaz de votar num candidato que diz coisas terríveis sobre você”, aconselhou. “Políticos brigam ou ficam amigos como se fosse a coisa mais normal do mundo. O povo não é assim.”

Viúva, continuou reincidindo na única ilegalidade que se permitia, inaugurada no primeiro mandato do marido. Aos sábados, sempre perto das 10 horas da noite, meu pai estava fora, fazendo campanha em algum ponto da cidade ou na sessão de cinema. Então, alguma mulher visivelmente pobre aparecia no portão de casa para contar a mesma história e apresentar a mesma reivindicação. O filho, que sempre foi um menino de ouro, dera ultimamente de andar em má companhia, beber além da conta e meter-se em pancadarias. Acabara de saber que, na tarde daquele sábado, o rapaz fora preso por arruaça. Seguia-se o pedido: “A senhora pode dar um jeito de soltar meu filho?”.
Dona Biloca instalava a mãe aflita numa cadeira na varanda, cruzava a sala de visitas, estacionava no canto da sala de jantar, empunhava o telefone de parede e ligava para a delegacia. Um soldado atendia, ela pedia para falar com o delegado, que nunca estava lá. Minha mãe repetia ao soldado a história que acabara de ouvir e reivindicava a soltura do detento. O soldado ponderava que não podia fazer aquilo sem a autorização do chefe e ouvia a mentira piedosa: “Diga ao doutor que conheço o rapaz. Ele foi meu aluno”.
Dez minutos depois, aparecia no portão um jovem mal vestido, mas exibindo a euforia de quem ganhou sozinho na Mega-Sena acumulada. Mãe e filho se enlaçavam demoradamente, e abraçados sumiam na noite dizendo “Deus lhe pague, Dona Biloca”, que entrava em casa sem pressa, ligava de novo para a delegacia, dizia ao soldado “Deus lhe pague, moço”, antes de voltar à sala para sentar-se na poltrona em que se acomodava quando a campainha soou. Consumado o pequeno abuso de poder, ela exibia o sorriso travesso de quem cometera o mais perdoável dos pecados.
Por que escrever sobre essas figuras se tantos horrores presentes imploram por espaços no noticiário? Porque é preciso lembrar que há menos de 40 anos o país não perdera de todo a vergonha na cara. É possível recriar um país em que um prefeito comovia os filhos por legar-lhes apenas um cheque especial no vermelho. Naquele Brasil, uma professora casada com o prefeito via no título de primeira-dama a contrafação caipira de uma coroa feita sob medida para rainhas idiotas.
Parece mentira, repito, mas conheci um país que revidaria com uma vaia de assustar o Maracanã a discurseira cretina do presidente analfabeto, e internaria num curso de reeducação de adultas imbecis a primeira-dama cujo séquito inclui faraonas, ploblemas e pírulas. Fora o resto.
Leia também “A toga e a lama”
Te mandei um livro no qual marquei as páginas que acho q te interessariam- um estudo linguistico sobre as palavras que indicam opiniao/ apreciaçao do locutor. Piderao ajudar nas análises.
Belas lembranças Augusto. Deus te abençoe pelo que tu és, o que te torna capaz de fazer o que fazes- estás na liderança de um grupo que elevou o nivel moral e intelectual da midia . Parabens. Abraços
Espetacular!!!!!!
Que diferença gigante: uma simplesmente era quem era. A outra frequentou o presídio em busca de um título para ser quem é – uma esbanjadora do dinheiro público. Deslumbrada com o falso poder.
Parabéns pela sua mamãe linda e inteligente caríssimo Augusto Nunes. Você espelha tudo de bom que sua família integra lhe proporcionou.Obrigada por tanta bravura.
Primoroso, mestre Augusto.
Top. Topíssimo!!
O que era pra ser um texto sobre a falta de vergonha virou uma das mais belas e emocionantes declaraçoes de amor a uma mãe, mais emocionante ainda pela singeleza de igualá-la a milhoes de outras mães espalhadas pelo, como gosta de dizer o filho da D. Biloca, o Brasil que presta!
Belo texto.
Amei ❤️.
Augusto Nunes é realmente um Mestre. Texto cheio de amor, carinho e respeito pela mãe. Uma homenagem linda.
Simplesmente BRILHANTE
O precioso texto nos faz lembrar de como éramos felizes e não sabíamos!
Bela história e excelente artigo.
Quem sai aos seus não degenera
.Ótimo texto
.Tempo bom o de nossos pais, que tinham bom senso, ética e nobreza. E tinham vergonha na cara.
Prezado Augusto Nunes,
Seus “causos” de vida no interior do Brasil, são uma agradabilíssima recordação daqueles assemelhados que vivenciei pela proximidade de nossa idade!
Muito igual caro mestre, acrescentando que tive o privilégio de desfrutar do convívio com meu saudoso avô -véio Juca!- fazendeiro de café em nossa cidade.
Homem de muitas posses e respeitado pelo caráter reto, ensinou-me através de parábolas muitas lições que conservo assiduamente… Tento transmitir uma delas de concisão límpida:
“ Dia de finados em cidade do interior todos ao cemitério portando flores e velas após a missa na matriz em visita ao túmulo da família. Eu moleque de calça curta começando a ler “A Eva viu a uva” da cartilha escolar, deliciava-me em soletrar inscrições ou avisos que surgiam em meu universo de criança… De mão dada com meu vô dirigíamos à visita ziguezagueando pelas lápides em direção aos nossos antepassados… Pequenas paradas para que eu lesse algumas das inscrições, surge uma a qual o ‘véio Juca’ a mim quase sussurrando proferindo ensina: Aí está descansando um grande homem, generoso e reto com seus semelhantes, principalmente com os mais humildes e desassistidos da sorte. Que Deus o tenha!
Procure garoto agir desta forma ao longo de sua vida, aqui eu agora o alegrei pelo testemunho, sem que ele possa me retribuir no gesto de memória. Pior seria até se em silêncio eu nada a você dissesse e pensasse:
‘aí está os ossos de um grande filho da puta’ !
Caminhemos portanto grande jornalista, para quando estivermos na horizontal no descanso eterno, sejamos lembrados pelo testemunho elevado do caráter de um nome. Coisa em desuso e fora de moda na atualidade.
Lindo sua narrativa em relação a Dona Biloca. Mas uma coisa ela não poderia negar, era linda e usava inteligência e perspicácia.
Mestre Augusto, que texto emocionante.
Por mais Donas Bilocas. Sábia
Esse país terminou Augusto
Esse é um artigo lapidar. É de extrema importância nos perguntarmos que caminhos trilhados nos fizeram abandonar a simplicidade e a moralidade. Como chegamos a essa época em que a vulgaridade se exibe de mãos dadas com o deslumbramento e o desperdício de dinheiro público sem qualquer pudor, indiferente à degradação dos costumes e à banalização da miséria?
Augusto os tempos mudaram, a dona biloca hoje vai para os paises do mundo todo soltar as crianças da fome e exibe com muito orgulho o símbolo de primeira dama que gasta 1,6 bilhão com cartão corporativo
Adorei seu artigo. Parabéns! Se, por alguma desgraça, tivermos um repeteco desse desgoverno, Esbanja será uma das primeiras turistas ao futuro hotel na Lua, com despesas pagas com nosso dinheiro, caso o Pais não quebre irreparavelmente antes. Nada da dignissima Dona Biloca em nossa primeira “dama”.
Eu conheci a dona Biloca.Fui muitas vezes na casa dela ,junto com o Alê, um dos seus netos. Sempre estava na sala , junto com suas irmãs, e sempre nos recebia com toda gentileza. Certa vez , fomos ao quintal da casa e um senhor estava trepado no pé de jabuticaba… era o Dr. Adail , já idoso ,mas parecendo um menino. Uma família espetacular e que faz parte de minha memória afetiva.
Eu conheci a dona Biloca.Fui muitas vezes na casa dela ,junto com o Alê, um dos seus netos. Sempre estava na sala , junto com suas irmãs, e sempre nos recebia com toda gentileza. Certa vez , fomos ao quintal da casa e um senhor estava trepado no pé de jabuticaba… era o Dr. Adail , já idoso ,mas parecendo um menino. Uma família espetacular e que faz parte de minha memória afetiva.
Augusto voce foi brilhante , fez lembrar a minha mae uma sabia com suas frases certeiras. Faz 40 anos que partiu para o plano espiritual mas me recordo e repito suas frases ate hoje.
Mestre Augusto Nunes que texto espetacular e emocionante. Hoje temos uma deslumbrada e um ex presidiário.
Augusto a sua mãe era uma senhora muito especial e simpática . Este aspecto q vc traz à tona é o q mais me preocupa. O país, a nação perdeu completamente suas referências morais. As pessoas não têm referências boas de como se comportar, boa parte das famílias são incompletas , sem pais ou sem mães muitas delas . Os políticos e o q eles mostram é o q o povo é instado a seguir, e aí … a vaca vai pro brejo. Triste!
🤎
Ela é inesquecível. Hoje, ficou ainda mais presente.
Belo e emocionante artigo, Augusto Nunes! Um privilégio ser filho de uma mãe e um pai como os seus. Você não é um grande jornalista por acaso. Parabéns!
Comovente Augusto. Que não percamos a esperança. Rezemos para que muitas “Bilocas” aflorem após o fim desses anos horríveis que, praticamente, exterminaram os valores morais de um povo. Os erros de português da esbanja cafona, representam o mínimo; há muitas coisas cabeludas, relacionadas a essa coisa, que um dia irão aflorar. Mas, quando esse dia chegar, ela estará bem longe daqui, aproveitando os milhões, já guardados no exterior.
Parabéns Augusto, como se diz “um exemplo vale mais do que mil palavras”, principalmente quando são dos pais.👏🏼👏🏼👏🏼
Beleza de texto, beleza de mãe e pai, beleza de filho. Que família!!!! Parabéns. Emocionante.
Manoel RIBEIRO
EXCELENTE CRÔNICA, PARABÉNS.
Augusto, sou sua leitora desde seus tempos de Zero Hora. Esta sua cronica e FANTÁSTICA.
Que esplêndida homenagem a sua mãe Augusto Nunes.Essa é uma mulher raiz em princípios e conduta. Privilégio tê-la em sua vida.Grande abraço .
Grande Augusto Nunes!🫶❤️