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Reunião da Comissão Especial da Câmara sobre o Fim da Escala 6x1 para votar o relatório final da proposta de emenda à Constituição (PEC 221/2019) que reduz a jornada de trabalho a 36 horas semanais em 10 anos | Foto: Lula Marques/Agência Brasil
Edição 324

A ilusão do atalho

Não há melhora da qualificação, da infraestrutura, do ambiente jurídico, da concorrência, mas acredita-se que uma canetada vai tornar todo mundo mais rico

“Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las”, disse Thomas Sowell. O grande pensador americano dedicou sua vida a expor falácias econômicas, mas, infelizmente, muitos se recusam a compreender a realidade como ela é. Preferem acreditar em mentiras, em ilusões, e isso é um prato cheio para políticos populistas. O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho aprovados na Câmara ilustram bem isso.

Do ponto de vista político, a esquerda preparou uma armadilha em ano eleitoral, e boa parte da oposição se viu numa sinuca de bico e acabou votando junto com o PT, para não ser acusada de “inimiga do trabalhador”. Do ponto de vista econômico, porém, essas mudanças representam uma ameaça concreta ao próprio trabalhador, além da perda da liberdade de escolha.

O Partido Novo, que votou contra as mudanças, publicou uma justificativa bastante razoável para sua postura: “O Novo é favorável ao fim da escala 6×1 para todo trabalhador que não deseja trabalhar nesse regime. O que o governo Lula e o centrão fizeram foi proibir a escala 6×1 — mesmo para quem quer trabalhar mais dias na semana. A proibição da escala 6×1 não resolve o problema das nossas leis trabalhistas defasadas. Também não resolve a pobreza e ainda aumenta o preço de tudo. Mas Lula e o centrão não estão preocupados com isso. Querem enganar as pessoas, de olho nas eleições em outubro”.

Reunião da Comissão Especial da Câmara sobre o fim da Escala 6×1 | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A explicação do partido toca ainda num ponto importante: “Milhares de brasileiros vão para o exterior em busca de oportunidades melhores de trabalho. Nenhum destes países tem leis trabalhistas como a CLT. O Novo propõe copiar o que dá certo: liberdade e flexibilidade.” Nos Estados Unidos, o trabalhador não goza das “conquistas trabalhistas” existentes no Brasil. Sequer há férias remuneradas, muito menos 13º salário, vale-alimentação ou vale-transporte. Não obstante, o trabalhador americano faz, na média, cinco a seis vezes mais dinheiro do que o brasileiro.

O segredo está na produtividade, assim como no dinamismo do mercado de trabalho, com mais competição entre as empresas. Se a qualidade de vida do trabalhador dependesse de canetada do Estado, não haveria mais pobres no mundo! Ironicamente, há mais pobreza justamente onde existe mais controle estatal, mais “benesses” decretadas pelo governo com apoio de sindicatos. 

A proposta de Erika Hilton sequer teve estudo de impacto econômico. É pura demagogia! E a esquerda fez o que sempre faz: buscou monopolizar as boas intenções. Quem não fosse favorável aos meios propostos só poderia ser contra os fins, ou seja, dar maior qualidade de vida aos trabalhadores. Mas isso é balela, uma falácia argumentativa de quem prefere fugir da realidade e viver de discursos. 

Se bastasse “vontade política” para resolver os problemas, o governo poderia logo decretar um salário mínimo de R$ 5 mil, para garantir uma vida digna a todos. Na prática, porém, até economistas petistas entendem que isso geraria somente mais desemprego e informalidade, um problema enorme no Brasil. Reduzir na marra a quantidade de horas trabalhadas sem mexer no salário produz o mesmo efeito. É uma ilusão que parte da premissa marxista de que o patrão é um explorador e o trabalhador necessita da proteção estatal. 

Em suma, os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas mesmíssimas condições existentes, que ajudam a manter a produtividade do trabalhador em patamar reduzido. Não há melhora da qualificação, da infraestrutura, do ambiente jurídico, da concorrência, mas acredita-se que uma canetada vai tornar todo mundo mais rico da noite para o dia.

Ilustração: Shutterstock

Há quem pense que pode substituir a leitura séria e dedicada por livrinhos de resumos dos pensamentos filosóficos, achando que, assim, terá absorvido de fato o estoque de conhecimento existente no mundo. Há quem acredite que basta tomar anabolizante para ficar forte, dispensando o treino muscular intenso. Existem aqueles que juram que uma canetinha emagrecedora resolve tudo, sem a necessidade de uma reeducação alimentar. Enfim, muitos buscam desesperadamente um atalho, ignorando seus efeitos colaterais, as consequências de longo prazo, a realidade. 

Mas a realidade sempre se impõe. O Brasil não tem um enorme problema de miséria e informalidade, além da dependência de milhões de pessoas das esmolas estatais, por acaso. Isso é obra de décadas de medidas populistas, fruto de uma mentalidade que clama por vantagens estatais. Ver a esquerda e a “direita” unidas em prol de mais uma medida populista nos remete ao sombrio diagnóstico de Roberto Campos: o Brasil não corre o menor risco de dar certo! 

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2 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Gostei muito do artigo, sobretudo as analogiasna busca do caminho facil para conseguir os objetivos. As pssoas não querem mais se esforçar, se capacitar, comer direito. Querem o caminho fácil

  2. Eduardo Salles De Carvalho
    Eduardo Salles De Carvalho

    Não vou ler até você me desbloquear no X (@eduscarv).
    Nunca te agredi, mas fiz perguntas que poderiam ser classificadas como desconfortáveis.
    Até jornalistas de esquerda têm mais coragem que você.
    NUNCA fui bloqueado por nenhum deles, apesar de estar sempre fazendo estas perguntas desconfortáveis.

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