publicidade
Wesley e Joesley Batista | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 324

A embaixada dos Batista

Numa trajetória que vai do interior de Goiás à capital dos EUA, os irmãos Joesley e Wesley construíram uma rede de influência que opera onde o Itamaraty não chega

Em 1953, quando abriu as portas de seu açougue em Anápolis, Goiás, José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, abatia cinco cabeças de gado por dia. Quatro anos depois, em 1957, o destino da família Batista cruzava pela primeira vez com Brasília. Atraído pelo movimento gerado pela construção da nova capital federal, o açougue se mudou para o canteiro de obras. O que o então jovem natural de Alfenas, Minas Gerais, não imaginava é que a “Casa de Carnes Mineira”, mais tarde renomeada “Friboi”, se tornaria, sete décadas depois, a maior produtora de proteína animal do planeta e um dos grupos empresariais com maior capacidade de influência política no continente.

Com receita líquida de US$ 86 bilhões em 2025, a JBS (antiga Friboi) faz parte da J&F. Além da proteína animal, o grupo avançou para áreas como energia, setor financeiro e bens de consumo em um único ecossistema corporativo — da Flora (higiene e cosméticos) ao Banco Original e o PicPay. Essa estrutura possibilitou aos dois herdeiros mais conhecidos de Zé Mineiro, Joesley e Wesley Batista, integrarem a lista dos maiores financiadores de campanhas políticas do país. Recentemente, tornaram-se também os operadores de uma estrutura informal de influência entre Brasília e Washington. A “Embaixada dos Batista”.

Em 2014, a JBS virou a maior financiadora de campanhas no Brasil e gastou R$ 391 milhões ao apoiar a vitória de 164 deputados federais, seis governadores e a chapa Dilma/Temer. O “reservatório de boa vontade” tinha um objetivo declarado pelos próprios executivos: que os políticos “não atrapalhassem” os negócios do grupo. Em 2017, os irmãos Batista confessaram ter subornado quase 2 mil políticos brasileiros, o que resultou numa multa de mais de R$ 10 bilhões.

Desde o início do terceiro governo Lula, Joesley Batista passou a atuar como interlocutor frequente entre Brasília e Washington. Enquanto Brasil e Estados Unidos enfrentavam tensão em torno das tarifas impostas por Donald Trump, era o dono da JBS quem transitava pelos bastidores. Em pelo menos três episódios documentados, Joesley operou como interlocutor informal entre os dois governos: intermediou o encontro para discutir o tarifaço, articulou nos bastidores a revogação da sanção da Lei Global Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e, segundo a agência Reuters, foi peça central na articulação da reunião de Trump e Lula em 7 de maio em Washington. No último trimestre, a JBS gastou cerca de US$ 860 mil — R$ 4,2 milhões — em estrutura de influência nos Estados Unidos, com quatro firmas de lobby atuando simultaneamente. Os contratos foram registrados nos formulários federais de lobby entregues ao Senado norte-americano.

Joesley Batista é um dos sócios da JBS | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Joesley Batista, dono da JBS | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que conduziu a política externa brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e manteve acesso direto à cúpula do governo Trump, avalia que o recurso a intermediários privados revela uma mudança de paradigma. “Durante a minha gestão, tínhamos acesso direto ao presidente norte-americano”, afirmou. “Não precisávamos de intermediários porque tínhamos uma visão estratégica e sabíamos construir aquilo que é vital no relacionamento, a confiança, e sempre prestando conta de tudo à opinião pública.”

Por dentro da embaixada

Desde que a Pilgrim’s Pride — subsidiária da JBS — desembolsou US$ 5 milhões para a posse de Trump, valor superior à soma das contribuições de Apple, Amazon, Meta e Google, a empresa montou uma estrutura permanente de influência em Washington. A base é interna. Karla Thieman, responsável pelas relações governamentais da JBS nos Estados Unidos, foi chefe de gabinete do Departamento de Agricultura norte-americano e integrou a equipe sênior do Comitê de Agricultura, Nutrição e Florestas do Senado.

A empresa contratou a Squire Patton Boggs por US$ 140 mil no primeiro trimestre de 2026, conforme documentos obtidos por Oeste. Os lobistas escalados para a conta da JBS têm trajetória comum: todos passaram pelo núcleo republicano do Congresso norte-americano na última década. Thomas Andrews foi assessor legislativo no gabinete de John Boehner, ex-presidente da Câmara dos Representantes, e entre 2018 e 2021 atuou como assessor presidencial para assuntos legislativos no governo Trump. David Schnittger foi vice-chefe de gabinete de Boehner por quase dez anos. David Stewart, seu diretor político. Para o campo democrata, a Squire escalou Caren Street, ex-assessora do senador Harry Reid — ex-líder da maioria no Senado — e ex-diretora executiva do Congressional Black Caucus (grupo político formado por membros afro-americanos do Congresso dos Estados Unidos).

Pilgrim’s Pride, subsidiária da JBS | Foto: Reprodução/Pilgrim’s Pride

A contratação de ex-servidores para esse tipo de função é legal nos Estados Unidos — e comum. “Ex-servidores conhecem o funcionamento do Estado, a linguagem regulatória e o processo decisório”, explica Beatriz Nóbrega, consultora política e especialista em relações governamentais. “Mas é uma prática sensível.” A legislação norte-americana prevê regras de quarentena e restrições pós-emprego público, especialmente quando o ex-agente tenta influenciar a antiga agência ou representa interesses estrangeiros dentro de certos prazos. “O problema não é a experiência pública anterior”, diz Nóbrega. “É garantir que o trabalho de defesa de interesses seja feito com integridade.”

A Keys Group LLC, contratada por US$ 126 mil, atuou em imigração e força de trabalho junto ao USCIS (Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos). A dependência de mão de obra imigrante virou uma preocupação operacional para frigoríficos do grupo. Parte desses trabalhadores atua com Temporary Protected Status — visto temporário concedido a cidadãos de países em crise, sem garantia de permanência. Com o governo Trump intensificando operações de fiscalização em frigoríficos e endurecendo o USCIS, manter canal aberto nesta agência tornou-se prioridade operacional para a empresa. A Miller Strategies LLC recebeu US$ 90 mil para pautas de sustentabilidade, trabalho e comércio. O contrato tinha como eixo o Conselho Econômico Nacional da Casa Branca — o NEC, responsável pela coordenação da política econômica do presidente norte-americano antes que as propostas avançassem para o Congresso.

O preço do acesso

Para Jean Castro, presidente da Abrig, associação que representa profissionais de relações governamentais no Brasil, o gasto da JBS está dentro do padrão de mercado para empresas do seu porte. Escritórios de primeiro nível em Washington, segundo ele, cobram entre US$ 80 mil e US$ 100 mil por mês para um pacote completo de serviços, que além do lobby, incluem também atuação na mídia e participações em eventos. Questionado sobre se essa estrutura foi o que permitiu que Joesley Batista ligasse diretamente para Donald Trump durante o encontro com Lula, Castro não confirmou, nem negou. Disse que a maior referência de um bom trabalho de lobby é quando o poder público passa a chamar o setor para ser ouvido — e que construir essa reputação “nunca vai ser ruim”.

Nos Estados Unidos, ao menos parte desse movimento é rastreável — a lei obriga o registro público dos contratos. No Brasil, não. “A opacidade brasileira impede que a sociedade diferencie com clareza o que é defesa legítima de interesses do que pode ser influência indevida”, afirma Beatriz Nóbrega. Ela alerta que mesmo o modelo norte-americano tem limites: “Ele ilumina uma parte do sistema de defesa de interesses, mas também criou zonas sombrias significativas” — o chamado shadow lobbying, em que parte da influência opera abaixo da linha formal de registro.

Estado paralelo

Para Ernesto Araújo, o que está em jogo vai além da diplomacia. “No Brasil, existe uma espécie de Estado paralelo dentro do Estado”, disse o ex-ministro. “A estrutura de poder real do país não corresponde àquela que está na Constituição. O lobby de Joesley sendo usado no lugar do Itamaraty é um dos elementos desse Estado paralelo.” Para ele, a falta de transparência levanta perguntas que permanecem sem resposta. “O que foi negociado com o governo Trump? O que foi oferecido e em detrimento de quem? O que foi obtido e em benefício de quem?” Na prática, é uma estrutura paralela de interlocução entre Brasília e Washington.

irmãos batista
Os irmãos Wesley e Joesley Batista | Foto: Reprodução/Twitter/X

Leia também “Joesley, o oligarca brasileiro”

Leia mais sobre:

4 comentários
  1. Raimundo Nonato Moraes Costa
    Raimundo Nonato Moraes Costa

    Parabéns Yasmin pelo excelente trabalho.

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Parabéns pelo brilhante artigo Yasmin Alencar.Nossos leitores foram blindados com a real história dos irmãos Batista.Obrigada pelo trabalho.

    1. Teresa Guzzo
      Teresa Guzzo

      Errata:os leitores da Revista Oeste foram brindados com a real história dos irmãos Batista.

    2. yasmin alencar
      Yasmin Alencar

      É uma honra, Teresa. Sempre mostrar a verdade dos fatos!

Anterior:
A farsa dos direitos humanos
Próximo:
A ilusão do atalho
publicidade