Em 1953, quando abriu as portas de seu açougue em Anápolis, Goiás, José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, abatia cinco cabeças de gado por dia. Quatro anos depois, em 1957, o destino da família Batista cruzava pela primeira vez com Brasília. Atraído pelo movimento gerado pela construção da nova capital federal, o açougue se mudou para o canteiro de obras. O que o então jovem natural de Alfenas, Minas Gerais, não imaginava é que a “Casa de Carnes Mineira”, mais tarde renomeada “Friboi”, se tornaria, sete décadas depois, a maior produtora de proteína animal do planeta e um dos grupos empresariais com maior capacidade de influência política no continente.
Com receita líquida de US$ 86 bilhões em 2025, a JBS (antiga Friboi) faz parte da J&F. Além da proteína animal, o grupo avançou para áreas como energia, setor financeiro e bens de consumo em um único ecossistema corporativo — da Flora (higiene e cosméticos) ao Banco Original e o PicPay. Essa estrutura possibilitou aos dois herdeiros mais conhecidos de Zé Mineiro, Joesley e Wesley Batista, integrarem a lista dos maiores financiadores de campanhas políticas do país. Recentemente, tornaram-se também os operadores de uma estrutura informal de influência entre Brasília e Washington. A “Embaixada dos Batista”.
Em 2014, a JBS virou a maior financiadora de campanhas no Brasil e gastou R$ 391 milhões ao apoiar a vitória de 164 deputados federais, seis governadores e a chapa Dilma/Temer. O “reservatório de boa vontade” tinha um objetivo declarado pelos próprios executivos: que os políticos “não atrapalhassem” os negócios do grupo. Em 2017, os irmãos Batista confessaram ter subornado quase 2 mil políticos brasileiros, o que resultou numa multa de mais de R$ 10 bilhões.
Desde o início do terceiro governo Lula, Joesley Batista passou a atuar como interlocutor frequente entre Brasília e Washington. Enquanto Brasil e Estados Unidos enfrentavam tensão em torno das tarifas impostas por Donald Trump, era o dono da JBS quem transitava pelos bastidores. Em pelo menos três episódios documentados, Joesley operou como interlocutor informal entre os dois governos: intermediou o encontro para discutir o tarifaço, articulou nos bastidores a revogação da sanção da Lei Global Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e, segundo a agência Reuters, foi peça central na articulação da reunião de Trump e Lula em 7 de maio em Washington. No último trimestre, a JBS gastou cerca de US$ 860 mil — R$ 4,2 milhões — em estrutura de influência nos Estados Unidos, com quatro firmas de lobby atuando simultaneamente. Os contratos foram registrados nos formulários federais de lobby entregues ao Senado norte-americano.

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que conduziu a política externa brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e manteve acesso direto à cúpula do governo Trump, avalia que o recurso a intermediários privados revela uma mudança de paradigma. “Durante a minha gestão, tínhamos acesso direto ao presidente norte-americano”, afirmou. “Não precisávamos de intermediários porque tínhamos uma visão estratégica e sabíamos construir aquilo que é vital no relacionamento, a confiança, e sempre prestando conta de tudo à opinião pública.”
Por dentro da embaixada
Desde que a Pilgrim’s Pride — subsidiária da JBS — desembolsou US$ 5 milhões para a posse de Trump, valor superior à soma das contribuições de Apple, Amazon, Meta e Google, a empresa montou uma estrutura permanente de influência em Washington. A base é interna. Karla Thieman, responsável pelas relações governamentais da JBS nos Estados Unidos, foi chefe de gabinete do Departamento de Agricultura norte-americano e integrou a equipe sênior do Comitê de Agricultura, Nutrição e Florestas do Senado.
A empresa contratou a Squire Patton Boggs por US$ 140 mil no primeiro trimestre de 2026, conforme documentos obtidos por Oeste. Os lobistas escalados para a conta da JBS têm trajetória comum: todos passaram pelo núcleo republicano do Congresso norte-americano na última década. Thomas Andrews foi assessor legislativo no gabinete de John Boehner, ex-presidente da Câmara dos Representantes, e entre 2018 e 2021 atuou como assessor presidencial para assuntos legislativos no governo Trump. David Schnittger foi vice-chefe de gabinete de Boehner por quase dez anos. David Stewart, seu diretor político. Para o campo democrata, a Squire escalou Caren Street, ex-assessora do senador Harry Reid — ex-líder da maioria no Senado — e ex-diretora executiva do Congressional Black Caucus (grupo político formado por membros afro-americanos do Congresso dos Estados Unidos).

A contratação de ex-servidores para esse tipo de função é legal nos Estados Unidos — e comum. “Ex-servidores conhecem o funcionamento do Estado, a linguagem regulatória e o processo decisório”, explica Beatriz Nóbrega, consultora política e especialista em relações governamentais. “Mas é uma prática sensível.” A legislação norte-americana prevê regras de quarentena e restrições pós-emprego público, especialmente quando o ex-agente tenta influenciar a antiga agência ou representa interesses estrangeiros dentro de certos prazos. “O problema não é a experiência pública anterior”, diz Nóbrega. “É garantir que o trabalho de defesa de interesses seja feito com integridade.”
A Keys Group LLC, contratada por US$ 126 mil, atuou em imigração e força de trabalho junto ao USCIS (Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos). A dependência de mão de obra imigrante virou uma preocupação operacional para frigoríficos do grupo. Parte desses trabalhadores atua com Temporary Protected Status — visto temporário concedido a cidadãos de países em crise, sem garantia de permanência. Com o governo Trump intensificando operações de fiscalização em frigoríficos e endurecendo o USCIS, manter canal aberto nesta agência tornou-se prioridade operacional para a empresa. A Miller Strategies LLC recebeu US$ 90 mil para pautas de sustentabilidade, trabalho e comércio. O contrato tinha como eixo o Conselho Econômico Nacional da Casa Branca — o NEC, responsável pela coordenação da política econômica do presidente norte-americano antes que as propostas avançassem para o Congresso.
O preço do acesso
Para Jean Castro, presidente da Abrig, associação que representa profissionais de relações governamentais no Brasil, o gasto da JBS está dentro do padrão de mercado para empresas do seu porte. Escritórios de primeiro nível em Washington, segundo ele, cobram entre US$ 80 mil e US$ 100 mil por mês para um pacote completo de serviços, que além do lobby, incluem também atuação na mídia e participações em eventos. Questionado sobre se essa estrutura foi o que permitiu que Joesley Batista ligasse diretamente para Donald Trump durante o encontro com Lula, Castro não confirmou, nem negou. Disse que a maior referência de um bom trabalho de lobby é quando o poder público passa a chamar o setor para ser ouvido — e que construir essa reputação “nunca vai ser ruim”.
Nos Estados Unidos, ao menos parte desse movimento é rastreável — a lei obriga o registro público dos contratos. No Brasil, não. “A opacidade brasileira impede que a sociedade diferencie com clareza o que é defesa legítima de interesses do que pode ser influência indevida”, afirma Beatriz Nóbrega. Ela alerta que mesmo o modelo norte-americano tem limites: “Ele ilumina uma parte do sistema de defesa de interesses, mas também criou zonas sombrias significativas” — o chamado shadow lobbying, em que parte da influência opera abaixo da linha formal de registro.
Estado paralelo
Para Ernesto Araújo, o que está em jogo vai além da diplomacia. “No Brasil, existe uma espécie de Estado paralelo dentro do Estado”, disse o ex-ministro. “A estrutura de poder real do país não corresponde àquela que está na Constituição. O lobby de Joesley sendo usado no lugar do Itamaraty é um dos elementos desse Estado paralelo.” Para ele, a falta de transparência levanta perguntas que permanecem sem resposta. “O que foi negociado com o governo Trump? O que foi oferecido e em detrimento de quem? O que foi obtido e em benefício de quem?” Na prática, é uma estrutura paralela de interlocução entre Brasília e Washington.

Leia também “Joesley, o oligarca brasileiro”




Parabéns Yasmin pelo excelente trabalho.
Parabéns pelo brilhante artigo Yasmin Alencar.Nossos leitores foram blindados com a real história dos irmãos Batista.Obrigada pelo trabalho.
Errata:os leitores da Revista Oeste foram brindados com a real história dos irmãos Batista.
É uma honra, Teresa. Sempre mostrar a verdade dos fatos!