As maravilhas oferecidas pela inteligência artificial exigem uma quantidade gigantesca de chips de memória. E o mercado não está dando conta. Empresas da área, como Micron, Sandisk, Seagate e Western Digital, que passaram os três últimos anos no prejuízo, estão comemorando margens inéditas de lucros. Qual o motivo dessa crise? Vamos fazer uma comparação com nosso “computador natural”. O cérebro humano funciona de forma integrada. Nós raciocinamos e guardamos as informações ao mesmo tempo. Pensar em alguma coisa e lembrar dela faz parte do mesmo processo. Cada lembrança altera o tecido que a abriga, cada pensamento deixa uma marca. Não há distinção clara entre guardar e entender — lembrar já é, em alguma medida, interpretar.
Computadores funcionam de outra maneira. Eles separam a memória do pensamento. O processador “pensa” através da Unidade Central de Processamento (CPU). Esses “pensamentos” vão para os chips de memória, onde permanecem temporariamente, até que o computador seja desligado. Como a inteligência artificial é uma espécie de reprodução do cérebro humano em escala gigantesca, precisa de uma quantidade brutal de memória. Daí a necessidade de mais e mais chips.
Essa necessidade urgente gerou uma crise. E, como costuma acontecer, uma oportunidade. “No final do ano passado, os investimentos mundiais em inteligência artificial já haviam impulsionado a indústria de chips de memória para um ‘superciclo de crescimento’”, resumiu uma matéria do Wall Street Journal. “Os lucros bateram recordes. Os preços nos três primeiros meses de 2026 subiram mais de 50% em relação ao trimestre anterior.”
Uma das empresas que produz chips de memória em alta escala, a sul-coreana Samsung, teve um lucro líquido de US$ 30 bilhões no primeiro trimestre. Hoje, três empresas dominam este mercado: Samsung, a também sul-coreana SK Hynix e a americana Micron Technology. A poderosa Nvidia domina o mercado de chips de memória específicos para IA, com capitalização de mercado superior a US$ 4,8 trilhões, o que a torna a empresa mais valiosa do mundo.

Um trilhão de dólares
A insaciável fome do mercado por mais chips de memória fez com que seus preços dobrassem nos primeiros três meses de 2026. Existe um fator adicional para esse encarecimento: não é fácil criar uma nova fábrica de chips. Ela leva anos para ser construída e pode custar cerca de US$ 20 bilhões.
Segundo o Wall Street Journal, as campeãs Samsung, SK Hynix e Micron já estão investindo seus lucros em novas fábricas. Mas elas não devem ficar prontas até o fim de 2027 ou 2028. O que faz prever que 2026 continuará sendo um ano difícil para o setor. A escassez já está criando uma espécie de suborno oficializado no mercado. Grandes fabricantes de computadores e celulares estão dando um “por fora” para que as empresas entreguem mais chips do que para a concorrência.
Marcus Chen, vice-presidente executivo da FusionWorldWide (distribuidor global de componentes eletrônicos), revelou ao WSJ que as empresas de tecnologia estão recebendo apenas de 30% a 50% dos chips de memória que precisam. Pela lei da oferta e da procura, o lucro total da indústria de chips deve crescer 28% este ano, o que não era esperado até 2030. E pode atingir a vertiginosa receita de US$ 1 trilhão.

Um tsunami se aproxima
Esse mercado é tão complexo e interligado que está sendo afetado até pelo conflito no Estreito de Ormuz. Chips de memória precisam de gás hélio para a sua fabricação. O mesmo gás com o qual enchemos os balões de festas de aniversário. Os dois maiores produtores são os Estados Unidos e o Catar. Quando o regime do Irã atacou os depósitos de gás liquefeito no final de março, atingiu a produção de hélio. Esses depósitos, segundo levantamento do New York Times, podem levar “anos para serem reconstruídos”.
Os efeitos desse ataque iraniano ao Catar ainda não estão sendo sentidos, por causa dos estoques existentes. Segundo o consultor do setor, Phil Kornbluth, “existe um tsunami chegando, mas ainda está distante da praia”.
Não basta substituir o gás hélio do Catar pelo dos EUA. Seu transporte é uma operação complexa e exige um contêiner especial que o mantém em estado líquido a temperaturas de -273 ºC. Essas dificuldades vão ter que ser suplantadas a um alto preço. E esse preço vai acabar, de uma maneira ou de outra, no bolso do consumidor final.
Sanduíches de chips
Nunca é demais lembrar que toda essa crise tem a ver com uma das maiores revoluções da história da humanidade: a implantação da era da inteligência artificial. Empresas estão correndo para criar a infraestrutura dessa revolução: data centers, supercomputadores e centros de treinamento de IAs. Isso tudo consome muita, muita memória. E o resto da cadeia de consumo não para: queremos mais smartphones, computadores, laptops, tablets.
A estrela da vez é o High Bandwidth Memory (HBM), ou “memória de alta largura de banda”. Esse chip ultrarrápido permite que quantidades monstruosas de dados se movimentem nas cadeias de processadores e memórias. Os chips convencionais não dão conta. Os HBM são “sanduíches” com 8 a 12 camadas de chips. São poderosos, mas mesmo assim, um data center de inteligência artificial usa dezenas de milhares deles. Resultado: não existem mais HBMs à venda. Toda a produção já foi vendida pelas três gigantes do setor. Enfim, essa supervalorização dos chips de memória não é fruto de especulação do mercado. É um choque estrutural de oferta e demanda causado pela ascensão da IA.

Prepare seu bolso
Essa alta de preços vai causar um efeito em cascata. Os preços médios de smartphones no Brasil devem subir cerca de 14% em 2026, e esse aumento vem multiplicado pela nossa cascata de taxas e impostos. Computadores vão ficar mais caros, bem como carros de alta tecnologia, TVs, equipamentos médicos e industriais. Tudo isso usa muita memória e deve ser afetado. Se possível, adie novas compras até 2027.
O cenário está sendo monitorado pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). “A situação atual é considerada mais grave do que a vivida no auge da covid-19”, declarou Humberto Barbato, presidente-executivo da Associação. “Na pandemia, o problema foi um desajuste temporário nas cadeias de fornecimento.” Agora, a crise é estrutural, causada pela demanda da inteligência artificial. “Essa pressão deve se manter forte até 2028”, segundo Barbato. Guarde isso na sua memória, que é gratuita.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
Leia também “O futuro aconteceu”




Tenho acompanhado o WSJ e tudo dito aqui está lá e de uma forma dramática porque lá é o centro nevrálgicos.
Fátima Bezerra é a política que mais entende de tecnologias ela criou o chato PT, deve tá concorrendo com a Samsung