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Destruição do subúrbio de Dahyeh, no Líbano, em 6 de março de 2026. Efeitos da guerra entre Líbano e de Israel | Foto: Shutterstock
Edição 320

Quarenta anos de terror

Harel Chorev, professor da Universidade de Tel-Aviv, afirma que a maioria da população do Líbano é contra as ações do Hezbollah, grupo terrorista apoiado pelos aiatolás do Irã

“Se há um cessar-fogo, então deve haver um cessar-fogo. Se não, lutem com força total.” A frase, dita em meio às lágrimas, foi pronunciada por Kaduri Arah, avô do soldado israelense Idan Fooks, de 19 anos, durante o funeral do neto. Fooks morreu no último domingo, 26, atingido por um ataque de drone do Hezbollah no sul do Líbano.

Na prática, o cessar-fogo na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, anunciado em 8 de abril, não chegou à fronteira libanesa. Até houve um acordo, em 16 de abril, mediado por Washington, diariamente violado. No sul do Líbano, Israel continua a combater o Hezbollah, aliado iraniano. Nem o prolongamento do cessar-fogo no Irã, anunciado na semana passada por Donald Trump, reduziu as tensões na região.

O confronto entre Israel e Hezbollah já dura mais de quatro décadas. O grupo terrorista surgiu em 1982, durante a invasão israelense do Líbano, para combater extremistas palestinos. Desde o início, contou com apoio do Irã, que em 1979 havia se transformado em uma República Islâmica. Nos primeiros anos, ainda relativamente pequeno, o Hezbollah utilizava táticas insurgentes clássicas, incluindo ataques suicidas, com veículos carregados de explosivos sendo lançados contra instalações militares ou diplomáticas. 

Com o fim da guerra civil libanesa, em 1990, a organização passou a atuar quase diariamente contra tropas israelenses no sul do Líbano. Os ataques incluíam bombas em estradas contra comboios, emboscadas com lançadores e metralhadoras, disparos de morteiros contra bases e sequestro de soldados israelenses. 

A partir dos anos 2000, começaram também os disparos de foguetes contra cidades do norte de Israel, as incursões de comandos e o uso de mísseis antitanque contra veículos militares. O armamento, fornecido pelo Irã, incluía foguetes Katyusha, Grad e mísseis antitanque. Nesse período, aproveitando os vazios de poder no Líbano, o Hezbollah passou a oferecer proteção à comunidade xiita do sul do país e consolidou-se como ator político e paramilitar relevante. Governos libaneses sucessivos toleraram sua atuação, mesmo depois de uma guerra contra Israel, em 2006, que levou o Líbano ao caos.

Desde então, o arsenal do Hezbollah se ampliou. Sempre com ajuda iraniana. Passaram a ser lançados foguetes de médio alcance e mísseis balísticos de curto alcance. Os ataques contra Israel se intensificaram a partir de 7 de outubro de 2023 e, depois de uma trégua em 2024, voltaram a ocorrer na guerra iniciada em fevereiro deste ano.

Agora, porém, em meio à pior crise econômica de sua história, o Líbano, presidido pelo cristão Joseph Aoun, vive um momento inédito. Pela primeira vez, autoridades do país se reuniram, neste mês de abril, com representantes israelenses para tentar conter as ações do Hezbollah, que ameaçam ambos os lados da fronteira. A população, de uma maneira geral, está cansada do grupo terrorista. Segundo pesquisa do Gallup, divulgada em dezembro, 79% dos libaneses dizem que apenas o Exército do país deveria ter armas. 

Em entrevista a Oeste, o professor israelense Harel Chorev, especialista em Líbano da Universidade de Tel-Aviv, explica por que, apesar disso, um acordo duradouro com o Hezbollah continua distante.

Harel Chorev, pesquisador sênior e historiador no Moshe Dayan Center for Middle Eastern Studies (MDC) da Universidade de Tel-Aviv | Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação

Como o senhor avalia as incursões das Forças de Defesa de Israel no Líbano desde 1982?

Em 1982, lutamos contra a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Acho que Israel não conseguiu desenhar sua grande estratégia para ajudar os cristãos a estabelecer um governo pró-Ocidente e pró-Israel. Isso não se materializou por causa das potências da região, principalmente a Síria, que queriam frustrar essa iniciativa — e conseguiram — e por causa do surgimento do Hezbollah.

A tensão permanente no Líbano depois de 1982 poderia ter sido evitada de alguma maneira?

Não teria sido possível evitar um conflito com o Hezbollah. Ele foi estabelecido em 1982 porque, no final das contas, era uma extensão da República Islâmica do Irã. Então, apesar do fato de que Israel invadiu o Líbano por causa da OLP, mesmo se nós nos retirássemos, o regime iraniano e seu grupo aliado tinham uma agenda para lutar contra Israel. Isso viria de uma forma ou de outra.

Membros do Hezbollah em treinamento militar na vila de Aaramta, no distrito de Jezzine, sul do Líbano, no domingo, 21 de maio de 2023 | Foto: Wikimedia Commons

Nunca mais houve paz nesta região, concorda?

Sim. Todas as  batalhas para Israel, desde 1982, foram, basicamente, de contenção. Algumas foram mais bem-sucedidas, outras menos, mas eram contenção contra uma força jihadista incapaz de entrar em acordos. Por exemplo, o fato de que nos retiramos totalmente do Líbano em maio de 2000 não parou as provocações do Hezbollah e os ataques contra nós até 2006, o que criou uma espécie de dissuasão contra eles. Mas, como vemos, depois de cerca de 20 anos tudo mudou por causa da estratégia iraniana e da direção pró-Irã de construir um “anel de fogo” em torno de Israel.

Tudo isso demonstra que somente as pressões interna e internacional poderão parar o Hezbollah?

Qualquer um que espere que uma guerra ou algo assim resolva o problema está evitando ou ignorando a situação. Não há nada que possamos parar sozinhos, a menos que tanto o Hezbollah quanto o Irã enfraqueçam a ponto de não conseguirem mais forçar o Estado libanês a fazer o que eles querem. É uma guerra de longo prazo contra uma força jihadista, e isso é o que precisamos entender. Não há nada racional nisso segundo os conceitos ocidentais de guerra. É uma guerra de atrito, uma guerra de longo prazo, em que as forças jihadistas acreditam que cada conquista, cada rodada de violência, as aproxima mais de seu objetivo final, que é destruir Israel.

Até que ponto encerrar os ataques contra o Hezbollah iria adiantar para Israel?

Israel não tem muito a fazer além de enfraquecer o máximo possível o Hezbollah. Um acordo não seria respeitado pelo Hezbollah. Já tivemos um em 2006, a Resolução 1701, e vemos como isso foi inútil. Então, Israel está hoje em um ponto diferente nesse sentido e entende que qualquer acordo, inclusive com o governo libanês, deve ser tratado com muito cuidado, enquanto as medidas físicas no terreno são a única garantia de que podemos, pelo menos, limitar o destino do Hezbollah.

Joseph Aoun, presidente do Líbano, durante visita aos Estados Unidos | Foto: Arlington National Cemetery/Commons
Joseph Aoun, presidente do Líbano, durante visita aos Estados Unidos | Foto: Arlington National Cemetery/Commons

Como o presidente Joseph Aoun poderia convencer o Hezbollah de que um acordo seria melhor para todos?

Ele não pode convencê-los. Eles são jihadistas e têm uma política clara não apenas contra Israel, mas também contra a predominância dos cristãos e dos sunitas. Os xiitas representam cerca de 33% da população total, o que lhes dá uma posição forte. Cerca de 85% da comunidade xiita — quase 2 milhões de pessoas — apoiam o grupo. Mas eles estão em claro contraste com a política das outras comunidades do Líbano, inclusive com a posição do presidente Joseph Aoun. Não há muito que ele possa fazer para convencê-los, a menos que o Hezbollah enfrente uma perda muito séria, quase uma ameaça de destruição. Outro fator importante nessa equação é a presença de cerca de 1 milhão de refugiados espalhados pelo Líbano, o que favorece a instabilidade.

Para Israel, qual seria a solução para resolver o conflito no Líbano?

A solução passa por limitar o poder do Hezbollah e reduzir a influência iraniana. Sem isso, qualquer acordo corre o risco de não ser respeitado. Existe um contraste claro entre a posição do Estado libanês e a posição da comunidade xiita alinhada ao Hezbollah. Joseph Aoun representa a tentativa de manter o Estado funcionando e de equilibrar as diferentes comunidades.

Em que medida o conflito com Israel ajuda governos do Líbano a evitar fragmentação política?

De certa forma, isso serviu ao governo libanês. Por outro lado, embora digam que querem enfrentar Israel, o fato de Israel confrontar o Hezbollah acaba servindo aos interesses de alguns setores políticos. Isso pode ser percebido nas entrelinhas do que dizem alguns políticos libaneses, como Samir Geagea [líder de partido cristão maronita, que já foi preso por pertencer a milícias]. Muitos deles também se mostram abertos à paz, mas entendem que, se Israel não confrontar o Hezbollah, ninguém fará isso.

Como definir hoje a relação entre Israel e Líbano, dois países que não estão em confronto direto, mas que não têm relações diplomáticas?

Essa definição é correta. Mas um grande tabu foi quebrado, porque no Líbano, tradicionalmente, não é permitido negociar com Israel. O fato de haver algum nível de negociação cria certa esperança de que algo possa se materializar. Mas isso só funcionará se houver uma combinação entre força militar confiável no Líbano, para conter o Hezbollah, e um acordo político.

A estabilidade em Gaza ajudaria a estabilizar o Líbano?

A “estabilidade em Gaza” não é exatamente o termo correto. Israel tinha estabilidade até 7 de outubro, e ainda assim ela foi quebrada por um ataque extremamente violento. O objetivo hoje não é apenas estabilidade, mas o desarmamento do Hamas. Israel e os EUA já disseram várias vezes que não aceitarão o Hamas como força militar dominante em Gaza. No momento, a conexão entre Gaza e o Líbano não é tão forte. O Hamas não está subordinado ao Hezbollah, nem o contrário. Existe alguma cooperação local entre elementos palestinos e o Hezbollah no sul do Líbano, mas não é uma coordenação estratégica total. O fator realmente decisivo para as duas arenas é o Irã. Ele é a “cabeça do polvo”. Se o regime iraniano enfraquecer, isso afetará Gaza e o Líbano.

Memorial das vítimas do ataque palestino a Israel em 7 de outubro de 2023 | Foto: Omri Eliyahu/Shutterstock

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4 comentários
  1. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Artigo nota 10. Parabéns. Gostaria de observar que a guerra não é Israel e Líbano. É Israel contra o Hezbollah que o Líbano, imprudentemente, deixa ficar em seu território – uma burrice – pois tem muitos prejuízos e mortes por deixar ficar um grupo de terroristas em seu território. Senão estivessem lá não haveria estas incursões israelense em seu território. E Israel deve combater mesmo estes terroristas pois eles querem todo o mal para Israel. Aliás querem varrer Israel do mapa. Seres humanos querendo eliminar outro grupo de seres humanos. Lamentável. Muito bom trabalho do jornalista.

  2. Adriano M G A
    Adriano M G A

    Muito bom artigo!! Sempre leio as atualizações no conflito do Oriente Médio na revista Oeste e é sempre muito gratificante ver que ainda existem veículos de mídia que buscam as informações corretas!
    Continuem com o ótimo trabalho!!!

  3. Valesca Frois Nassif
    Valesca Frois Nassif

    Excelente artigo. Claro e realista , que escancara toda dificuldade de se lidar e tentar resolver esse tragico conflito .

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