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Prédio do Banco Central do Brasil
Prédio do Banco Central do Brasil | Foto: Raphael Ribeiro/BCB
Edição 319

Precisamos falar do Banco Central

O caso Master arrasta a autoridade monetária para uma reflexão há muito negligenciada

A inacreditável história de um banquinho que representava meio por cento dos ativos financeiros do país, mas conseguiu dar um desfalque de mais de 40% em um fundo mantido por todos os bancos brasileiros, é uma desilusão para quem, em boa fé, festejou a autonomia conquistada pelo Banco Central (BC) em fevereiro de 2021. A Lei Complementar nº 179, que garantiu para seu presidente e seus diretores mandatos de quatro anos que transcendem o mandato do presidente da República, foi saudada com base na premissa de que a autoridade monetária é um colegiado técnico. Desvinculado do Ministério da Economia, estaria protegido de pressões políticas para exercer o papel de guardião do valor da moeda e regulador do sistema financeiro com “independência”, e as aspas são usadas porque não é este o termo empregado pela lei. Em novembro do ano passado, com a liquidação do Master, a prisão de seu CEO e, sobretudo, a revelação de quem estava na tentacular folha de pagamento de Daniel Vorcaro, começou a escancarar-se, à vista de todos, a distância entre fantasia e realidade. Distância que não para de aumentar a cada nova descoberta.

Dividamos esta análise sobre disfunções no modus operandi do Banco Central em duas partes — uma que poderíamos chamar de “Porta Giratória” e outra ainda sem um nome de fácil compreensão popular, mas que alguns estudos reportam como “Capital burocrático”.

Porta Giratória

Na semana passada, informações obtidas a partir de quebras de sigilo determinadas pela CPI do Crime Organizado revelaram que entre 2024 e 2025, quando já enfrentava dificuldades, o Banco Master pagou a Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula 1 e Lula 2, um total de R$ 18,5 milhões por serviços de consultoria.  Outro ex-presidente do Banco Central que fez parte da lista de orientadores de Vorcaro, entre 2022 e 2025, foi Gustavo Loyola, titular da consultoria que leva seu nome. Goiano como Meirelles, Loyola comandou o Banco Central em duas gestões, durante os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Recebeu, por seus préstimos ao Master, R$ 6,7 milhões. 

Outro ex-presidente do Banco Central que fez parte da lista de orientadores de Vorcaro, entre 2022 e 2025, foi Gustavo Loyola | Foto: Beto Nociti/BCB

Não se sabe, ao certo, ao menos por ora, os conselhos que proferiram e as gestões que possam ter feito, em favor do Master, dois dos mais experimentados profissionais egressos da presidência do Banco Central. Talvez o próprio Daniel Vorcaro venha a contar por que os contratou e pelo que, exatamente, fez pagamentos de tais magnitudes. Certo é, de todo modo, que no período referido Vorcaro avançou impávido em ações que resultaram no maior golpe financeiro já visto no país e infligiu ao BRB uma crise de liquidez que ameaça levar o banco público do Distrito Federal ao colapso. Não é uma página gloriosa na biografia de ex-chefes da autoridade monetária brasileira.

Diga-se, para não cometer injustiça, que o debate sobre as ligações potencialmente perigosas entre gente do Banco Central e do setor privado vem lá do final dos anos 1980, quando Daniel Vorcaro ainda era uma criança.

Criado em 1964 para ser o sucessor da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), o Banco Central conservou nas primeiras décadas uma atuação técnica, com servidores de carreira guindados a postos de comando. Por imperfeito que fosse, como é próprio da ação humana, o modelo de separação entre Igreja e Estado sobreviveu bem até meados dos anos 1990, quando a hiperinflação e a disparada dos juros para níveis estratosféricos, no contexto de uma aguda crise cambial, abriram passagem para a ideia de que o Banco Central deveria se servir da perícia de craques das mesas de operações de bancos privados.

A trajetória de Armínio Fraga ilustra muito bem os passos de uma geração de economistas anfíbios, capazes de transitar entre o Banco Central, autoridade reguladora, e os bancos — os entes regulados.

Armínio foi diretor de Assuntos Internacionais do BC, no início dos anos 1990. Saiu para atuar em instituições privadas, a Salomon Brothers e a Soros Fund Management. Uma carreira brilhante, com remuneração compatível — muito superior, naturalmente, aos vencimentos auferidos no Banco Central. Mesmo assim, em 1999, Armínio deixou sua posição como gestor de mercados emergentes do fundo de George Soros para assumir a presidência do Banco Central, uma função evidentemente honrosa, mas, do ponto de vista financeiro, um tremendo retrocesso. Em 2003, cumprida a missão de espantar o risco de derretimento da moeda brasileira e de colapso no Plano Real, Armínio deixa o BC e funda a Gávea Investimentos. Sete anos depois, vende  55% da Gávea para o JP Morgan por US$ 270 milhões. Ao recomprar o controle da gestora, junto com seus sócios, em 2015, Armínio segue, até o presente, como uma das vozes mais assíduas no noticiário econômico em temas como política monetária.

Antecessor de Armínio, Gustavo Franco presidiu o BC a partir de 1997. Ao sair, em março de 1999, Franco, um dos artífices do Plano Real, tornou-se sócio fundador da Rio Bravo Investimentos.

Recuando no tempo, tem-se o exemplo de Pérsio Arida, que em 1987, depois de dois anos como diretor da Área Bancária do BC, migrou para o setor privado, colocando-se como diretor da gestora Brasil Warrant, ligada ao grupo Opportunity. Arida voltaria ao Banco Central, como presidente, no início do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995. Ficou apenas cinco meses no cargo. Retirou-se alegando razões particulares, mas desgastado por uma denúncia de vazamento de informações privilegiadas que, posteriormente, foi arquivada pelo ministério público. Sua carreira prosseguiu fora do setor público e totalmente dedicada a instituições do mercado, sempre em cargos de relevo. Integrou o Conselho de Administração do Itaú e presidiu o Conselho do BTG, inclusive.

Examinemos agora um breve histórico dos dois nomes aquinhoados pelo Banco Master, de acordo com os achados da CPI que quebrou o sigilo bancário do Banco Master. 

Servidor de carreira do Banco Central, Gustavo Loyola se licenciou de suas funções na autarquia, em 1987, para ser diretor da corretora de valores Planibanc — e quem o convidou foi um dos fundadores da casa, o ex-diretor (1985-1987) de Mercado de Capitais do BC, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Durante a passagem pelo Planibank, Loyola se aproximou de Ibrahim Eris. Ao ser indicado para presidir o Banco Central no governo Collor, em 1990, Eris levou Loyola para ser o diretor de Normas no BC. Depois de chegar à presidência da autarquia, em 1992, no governo Itamar Franco, e também no período pós-Plano Real, de 1995 a 1997, Loyola fundou sua empresa de consultoria e passou a atuar como conselheiro de várias empresas, inclusive do setor financeiro, como Itaú Holding e o banco de investimento BBVA Brasil.

Curiosa, mesmo, é a trajetória de Henrique Meirelles. Com um retrospecto longevo (28 anos) e estupendo, que em 1996 o alçou ao posto de presidente mundial do BankBoston, Meirelles voltou dos Estados Unidos decidido a fazer política em sua terra. Elegeu-se deputado federal por Goiás, em 2002, com a maior votação, mas nem chegou a tomar posse porque Lula ofereceu a ele, no início de 2003, a presidência do Banco Central. Ficaria no cargo até o fim do segundo mandato de Lula, em 2010. Em seguida, em 2011, tornou-se o chairman do Banco Original, ligado ao grupo J&F, dos irmãos Batista, atuando também em conselhos de administração e prestando consultorias em instituições do mercado financeiro. Voltou ao setor público em 2016, quando Michel Temer herdou a presidência da República após o impeachment de Dilma Rousseff e o convidou para ser ministro da Fazenda.

Capital burocrático

Depois deste breve, mas estonteante, passeio pela porta-giratória situada entre o Banco Central e os bancos e gestoras, vejamos a questão pelo conceito de “capital burocrático”.

Na tese de doutorado que apresentou em 2025 à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a economista Ana Maria Rosa se serviu do conceito internacional de bureaucratic capital  e desenvolveu uma forma de medir esse entra-e-sai do Banco Central do Brasil pela ótica de um indicador chamado Índice de Porta Giratória (IPG) (“Revolving Door”) do Banco Central brasileiro.

Recomendo a leitura atenta da tese, e antes que avancemos no artigo, trago dois pequenos trechos do texto de Ana Maria. O primeiro deles exibe uma definição essencial.

“O conceito de capital burocrático refere-se aos recursos e vantagens acumulados por indivíduos dentro de uma burocracia estatal que podem ser convertidos em benefícios pessoais ou profissionais. Esse capital é adquirido através do conhecimento das operações internas, das redes de contatos e da experiência na administração pública.”

O segundo fragmento que reproduzo é uma conclusão da autora.

“Ao analisar os resultados derivados do cálculo do Índice de Porta-Giratória (IPG) aplicado aos diretores do Banco Central do Brasil (BCB), é evidente uma significativa tendência de transição para o setor privado financeiro após o término de seus mandatos. Aproximadamente 87,69% dos diretores direcionam-se para o mercado financeiro após deixarem seus cargos. Esta constatação corrobora inequivocamente a existência do fenômeno conhecido como porta-giratória dentro do contexto do BCB.”

Arredondando, o percentual encontrado pela economista corresponde a nove entre dez dirigentes do Banco Central que acorrem a instituições financeiras privadas assim que deixam a autarquia, respeitado o período de quarentena fixado por lei. A propósito, há projetos que preconizam a extensão da quarentena para até quatro anos.

Mas segue valendo o prazo de seis meses. E foi exatamente o período que Roberto Campos Neto aguardou para atender ao convite do Nubank, que o contratou para ser  vice-chairman e chefe global de Políticas Públicas, com remuneração mensal, se considerados padrões de mercado, dezenas de vezes superior ao salário de presidente do Banco Central.   

Roberto Campos Neto criticou fim da escala 6x1 em evento | Foto: Raphael Ribeiro/BC
Roberto Campos Neto | Foto: Raphael Ribeiro/BC

A diferença pode ser compreendida como parte do capital burocrático que ele amealhou. Ou que ele recuperou, uma vez que, em 2019, ao se tornar presidente do Banco Central, Campos Neto abriu mão de ganhos incomparavelmente mais altos como executivo de destaque no Banco Santander. Em síntese, cruzou a porta giratória em um sentido, no início do governo de Jair Bolsonaro, e voltou a cruzá-la, em sentido inverso, sob o governo Lula.

Seu sucessor no Banco Central, Gabriel Galípolo, está em estágio diverso. Teve sua primeira experiência executiva como CEO de um banco médio, o Fator, entre 2017 e 2021. Com a posse de Lula, foi secretário-executivo do Ministério da Economia para, então, ingressar no Banco Central como diretor de Política Monetária e, a partir de janeiro de 2025, chegar à presidência.

Pela tradição da porta-giratória, caso Lula não se reeleja, Galípolo deve receber, ao fim de seu mandato, em 2028, uma proposta de um banco ou de uma gestora do setor privado, com cifras compatíveis com o “capital burocrático” que tiver acumulado.

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Gabriel Galípolo, presidente do BC | Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Os anos passam e este estado de coisas parece longe de um exame sério.

O escândalo do Banco Master, que se atreveu a subornar altos funcionários do Banco Central e conseguiu seu intento com espantosa facilidade, talvez levante o véu que, por décadas, tem interditado um debate mais profundo sobre as reais condições de autonomia e independência do Banco Central.

Neste caso, atribua-se o crédito, ao menos em parte, a Daniel Vorcaro, protagonista do mais exigente teste de estresse imposto à higidez do que costumávamos chamar de instituições brasileiras.

Leia também “O primeiro delator”

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4 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Não tem nenhuma instituição brasileira saudavel

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Tem uma solução boa pra essa corja ligada a Vorcaro é o SIG MX7

    1. Eugênio Esber
      Eugênio Esber

      Quisera, José Carlos, tivéssemos, todos nós, um debate maduro sobre como colocar as instituições – Banco Central inclusive – a serviço do povo brasileiro.

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