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Foto: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 319

A era dos tecnocrimes

Novas tecnologias trazem novas possibilidades de crimes. E novas armas

Desde que surgiu a humanidade, existe o crime. Provavelmente, os homens das cavernas roubavam a caça de seus vizinhos. Piratas pilhavam navios carregados de ouro e prata no século 17. Golpistas “vendiam” a Torre Eiffel e a Ponte do Brooklyn a turistas. Moedas eram falsificadas. Ossos eram roubados em cemitérios e vendidos como relíquias de santos. Trens eram assaltados por bandidos a cavalo no Velho Oeste. 

E chegamos ao século 21, no qual crimes estão cada vez mais focados no (mau) uso da tecnologia. Golpes e roubos são praticados à distância, usando celulares, teclados e mouses como armas. A mesma tecnologia é usada para combater o crime de modo cada vez mais eficiente.

A MIT Technology Review Magazine, revista fundada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dedicou parte de sua última edição a esse assunto. “A tecnologia está remodelando a forma como as pessoas infringem a lei — e como ela é aplicada”, diz a chamada de capa.

Aqui vão três dessas histórias exemplares sobre o avanço tecnológico da bandidagem. E como esses crimes estão sendo combatidos. São casos assustadores, e que só podem ser combatidos com mais tecnologia.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Vírus autorreprodutíveis

Anton Cherepanov e Peter Strýček são uma espécie de detetives do mundo virtual, trabalhando para a empresa eslovaca WeLiveSecurity. Eles frequentam o site VirusTotal, onde arquivos e sites suspeitos podem ser analisados. Cherepanov e Strýček descobriram um vírus cujo criador havia usado um LLM (grande modelo de linguagem de IA). Era, aparentemente, o primeiro vírus criado por inteligência artificial.

Pior: o vírus agia autonomamente. O programa criava um código, identificava um computador com falha de segurança e até escrevia a mensagem ameaçadora: “Seu programa foi bloqueado. Pague o resgate ou não liberaremos seu computador”. 

O problema era ainda maior: a cada ataque, o vírus agia de forma diferente, dificultando sua identificação. Depois, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova York avisou que aquele malware não era criminoso, mas só uma experiência para provar que hackers podiam usar IA para seus crimes. 

Na verdade, já estão usando. A onda de crimes com inteligência própria começou logo depois da popularização do ChatGPT, no fim de 2022. A Microsoft declarou que, até abril de 2025, a companhia havia bloqueado o equivalente a US$ 4 bilhões em transações fraudulentas, muitas auxiliadas por IA. São aqueles spams que recebemos com mensagens como “sua conta bancária tem um problema, clique aqui para resolver”.

Segundo uma pesquisa realizada por duas universidades (Columbia e Chicago) e a rede Barracuda, que analisou meio milhão de mensagens maliciosas, cerca de metade dos spams em circulação foi gerada por IA.

Outro golpe é gerar vídeos e áudios convincentes de que algum dirigente de empresa está dando uma ordem. Um caso exemplar aconteceu em 2024, quando um funcionário da firma britânica Arup recebeu uma ordem de um diretor financeiro para transferir US$ 25 milhões para uma determinada conta. Era tudo falso — a ordem, o diretor e sua voz, recriada por IA. 

Bandidos estão treinando IAs para dar golpes e escapar da detecção. Um grupo a serviço do regime chinês usou a IA Claude para automatizar uma “campanha altamente sofisticada de espionagem”. Mas nenhuma foi criada por IAs, que serviram apenas como instrumento dos malfeitores.

Nada de pânico. De maneira geral, os sistemas de detecção estão funcionando. E não podemos nos esquecer que o mesmo poder que a IA tem para auxiliar criminosos pode ser usado para nos defender deles.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

A conexão norte-coreana

O australiano Jean-Paul Thorbjornsen ficou rico com a startup THORChain. É um blockchain que paga uma quantia a quem quer trocar de uma criptomoeda para outra. Um blockchain funciona como um livro de registros digital e compartilhado, no qual as informações são validadas por uma rede de computadores e protegidas por criptografia, tornando os dados imutáveis e transparentes. De maneira geral, a ideia da THORChain é possibilitar a qualquer um ter uma vida financeira longe da vigilância de “governos corruptos”.

Em 21 de fevereiro do ano passado, a empresa Bybit descobriu que havia sido roubado o equivalente a US$ 1,5 bilhão em criptomoedas Ethereum através de uma operação da THORChain. O caso foi usado pela revista do MIT para exemplificar como essa área de criptomoedas e blockchains é vulnerável a atividades criminosas. 

A aparente transação criminosa operada dentro da THORChain tem implicações bem mais sérias. O dinheiro que sumiu pode ter sido mais uma operação do Lazarus Group — uma cadeia criminosa usada pela ditadura da Coreia do Norte para financiar seu programa de armamentos nucleares. 

O objetivo principal nessas transações obscuras é a velha e conhecida lavagem de dinheiro — definida pela ONU como “processamento de proventos criminosos para disfarçar sua origem ilícita”. 

O caso THORchain ilustra o quanto esse mundo de criptomoedas, ao fugir por princípio do controle estatal, flerta diretamente com o banditismo. Uma história exemplar relatada pela MIT Technology Review mostra um exemplo desse mundo de sombras.

Em setembro de 2025, o criador da THORchain, Jean-Paul Thorbjornsen, foi convidado por um amigo a participar de uma reunião utilizando o aplicativo Zoom. Um hacker usou essa teleconferência para invadir as contas de Thorbjornsen e roubar US$ 1,2 milhão. Investigações iniciais levaram à suspeita de que esse dinheiro foi parar na Coreia do Norte. O helicóptero Aston Martin de Thorbjornsen tem na fuselagem um adesivo com a bandeira norte-coreana. Por quê?

Esse mundo de criptomoedas, além de muito difícil de entender, é extremamente confuso e volátil. Além de pouco ético.

Os narcosubmarinos

Os cartéis colombianos contam com um novo recurso: submarinos. São comparativamente toscos, embarcações de 12 metros de comprimento, fabricadas em fibra de vidro. Geralmente, são operados por 3 ou 4 homens que navegam sufocados pelo calor e o cheiro do óleo diesel. 

Recentemente, a Marinha colombiana descobriu que os traficantes deram um grande passo à frente. Foi apreendido o primeiro submarino autônomo, provavelmente construído pela organização criminosa conhecida como Clã do Golfo. O equipamento trabalha com tecnologia de ponta e barata — pilotos automáticos, câmeras de alta definição e terminais do sistema de internet por satélite Starlink. 

São difíceis de serem localizados. Se apreendidos, não existe ninguém a ser preso e interrogado. E seu alcance é grande. Em 2019, autoridades espanholas capturaram um desses submarinos clandestinos que havia viajado 27 dias até a costa europeia. Um submarino semelhante foi apreendido na Itália.

Para os traficantes, a opção por esses drones submarinos é muito vantajosa. Não é fácil recrutar quatro pessoas para transportar a droga e viajar por semanas dentro de um tubo fechado, comendo, dormindo e fazendo suas necessidades no mesmo espaço. 

Os submarinos autônomos carregam combustível suficiente para 1,4 mil quilômetros e são capazes de transportar entre uma tonelada e uma tonelada e meia de cocaína. Estão equipados com um piloto automático do tipo NAC-3, um equipamento para receber combustível em alto-mar, sensores direcionais e um equipamento de navegação que, segundo a reportagem da MIT Technology Review, custa cerca de US$ 2,2 mil na Amazon — cerca de R$ 11 mil. É uma esmola para os cartéis.

Como combater os narcosubmarinos? Para detectar uma nave submarina feita de fibra de vidro no meio do oceano já é difícil. Os países mais avançados estão tentando usar drones navais e tecnologias avançadas de localização. Por enquanto, com pouco sucesso. 

Quando a nave clandestina é localizada, guardas costeiras não conseguem saber se é tripulada ou se carrega material ilegal. É preciso entrar na nave, e as autoridades temem que os traficantes instalem explosivos de ação automática em caso de abordagem.  

Outra possibilidade é atacar esses submarinos com medidas eletrônicas, interferindo à distância nos seus sistemas de localização e navegação. Um pulso eletromagnético pode, segundo a revista, “fritar completamente os componentes eletrônicos, transformando um submarino de narcotráfico de milhões de dólares em um casco inerte à deriva no mar”.

Mas como saber se o submarino autônomo avistado serve a um cartel criminoso ou está realizando uma pesquisa científica perfeitamente legal? Naves não identificadas, a selva das moedas virtuais e ataques de vírus que se autorreproduzem são apenas alguns dos problemas a serem enfrentados neste segundo quarto de século 21.

Foto: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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1 comentário
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Eu não sei como Lindemberg Farinha não arranjou um jeito ainda de cheirar pó por IA

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