Aos 25 anos, Elad G. é o retrato do que tem ocorrido com sua geração em Israel. Numa semana, ele é estudante de Engenharia Eletrônica na Universidade de Tel-Aviv. Aprecia os bares da cidade, joga frisbee, faz trekking pela orla e, em casa, ouve músicas country, sem deixar de acompanhar os jogos de tênis de seu ídolo Jannik Sinner. A qualquer instante, tudo pode mudar. Tem sido frequente uma mensagem repentina aparecer em seu celular. É uma ordem de mobilização para o Exército. Na semana seguinte, então, Elad se vê longe da rotina urbana. Veste o uniforme, empunha as armas e vai para a frente de combate contra o Hezbollah, no Líbano. Tem sido assim desde outubro de 2023 e continua depois do início da guerra contra o Irã, neste ano.
Filho de imigrantes da Ucrânia que foram para Israel na grande onda de 1990, Elad nunca soube o que de fato era uma guerra até os ataques do Hamas em 7 de outubro. Até então, o israelense nascido na cidade de Lod, perto de Tel-Aviv, sabia dos conflitos quando assistia aos noticiários na TV, em sua infância e adolescência. O que ele sentia era uma tensão difusa que parecia sempre prestes a emergir. “O discurso sempre foi tenso em relação à vida em Israel, havia medo ao redor e os ataques terroristas estavam presentes nos noticiários”, afirma ele a Oeste em um momento de pausa no Exército. “Eu também cresci em uma cidade mista (50% judeus e 50% árabes-israelenses), então essa sensação fazia parte das nossas conversas.”
Quando serviu no Exército, Elad não participou de combates no front. Essa experiência veio depois, como reservista, função que transforma toda uma geração de jovens israelenses em combatentes nos momentos de emergência. No dia dos ataques do Hamas, ele havia acabado de retornar de uma viagem depois do serviço militar, período no qual muitos jovens buscam aliviar a pressão acumulada, conhecer outros países e experimentar uma rotina distante do ambiente de guerra, antes de ingressar nos estudos.
Elad era mais um dos que se preparavam para iniciar a trajetória na universidade. Então, veio a primeira mensagem, que se repetiu nos anos seguintes. O rapaz foi chamado para se apresentar ao seu batalhão. “Naquele dia, tive que colocar meu uniforme de novo”, lembra o soldado. “Não fiz isso com grande alegria, porque não sou um homem cujo objetivo de vida seja usar uniforme, nem alguém que goste de lutar, mas aquele dia deixou muito claro para mim que estamos realmente em perigo existencial.”
Como reservista, então, o oficial colocou em prática o que havia aprendido no serviço militar. O treinamento é intenso e exige preparo físico constante, disciplina e adaptação permanente. Sabia que todo o esforço era direcionado justamente para essas ocasiões. E que estava preparado. “Servir como combatente não é para qualquer um, tivemos que suportar pressão constante e conflitos”, diz. Ele destaca que os perigos existem nos combates e nos trabalhos de proteção. “Lidamos com muitos distúrbios do lado palestino e protegemos assentamentos judeus contra ações hostis”, explica. “É realmente um trabalho muito intenso, de quem combate e de quem está em guarda nas Forças de Defesa de Israel.”

Sob tiros do inimigo
O relato de Elad mostra que não há espaço para divergências políticas quando um militar está em missão. Os comandantes tomam decisões que precisam ser executadas. É um princípio de segurança e sobrevivência, não de opinião individual. “O conteúdo que nos ensinam e as habilidades nas quais somos treinados não têm qualquer motivação política ou ideológica; aprendemos apenas como operar uma arma e cumprir ordens, sempre tentando evitar a morte de civis e seguindo padrões éticos rígidos.”
Assim que o Hezbollah iniciou sua campanha de apoio ao Hamas, com lançamento de mísseis no norte de Israel, Elad passou a atuar no batalhão que ingressou no Líbano. Em 13 de outubro de 2024, viveu seu momento mais crítico até então. Um dia depois do Yom Kipur, data mais sagrada do judaísmo, ele entrou com sua companhia em uma vila libanesa para evitar que a força Radwan, braço militar do Hezbollah, ocupasse o local. “Antes de entrar no vilarejo, representantes do nosso país enviaram mensagens aos civis daquela área pedindo evacuação, porque não queríamos ferir ninguém e porque a área seria atacada para eliminar qualquer ameaça do inimigo”, relata. “Entramos sabendo que qualquer pessoa que encontrássemos seria considerada inimiga, já que os civis haviam sido orientados a sair da região.”
Os militares tinham a informação de que seria uma missão tranquila Mas, de forma surpreendente, transformou-se em confronto. A companhia foi recebida a tiros e granadas. “Percebemos que tínhamos entrado em uma ‘zona de morte’, em uma emboscada.” A resposta veio com apoio de tanques, força aérea e infantaria de Israel. A batalha durou em torno de quatro horas até a neutralização da unidade inimiga. Cerca de 30 homens da companhia ficaram feridos em diferentes níveis. “Foi dramático, entendi naquele instante, de verdade, que guerra não é brincadeira, que tem custos horríveis e que o inimigo ao nosso redor é forte e muito perigoso.”
O mal antissemita
Como estudante, Elad faz planos para o futuro, projeta a vida universitária, sonha com estabilidade. Mas, como soldado, entende que precisa contribuir para garantir a existência do país. Ao dar a entrevista durante uma pausa no Exército, ele sabe que pode ser chamado a qualquer momento. O cessar-fogo não é definitivo. “Na próxima semana, posso estar em combate de novo.” Isso interfere em sua rotina de cidadão. “Não estou feliz que estamos em combate há quase três anos, o que interrompe a vida pessoal de muitas pessoas”, afirma. “Isso cria pressão sobre carreira, estudos e também um impacto mental significativo, e às vezes me pergunto se é a melhor solução.”
Na guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, Elad continuou a ser chamado para lutar contra o Hezbollah e dar suporte aos ataques a alvos iranianos. Ele passou a entender o conflito como parte de uma dinâmica mais ampla do Oriente Médio. Desde que nasceu, a ameaça iraniana pairava no ar. “Como cidadão israelense em 2026, e de forma geral nos últimos 40 anos, esse era o nosso destino”, analisa. “Sei que esse conflito é muito importante porque a liderança iraniana enfrenta enorme oposição interna, que não é ouvida, e nos vê como a ‘entidade sionista’ a ser eliminada. Estamos finalmente enfrentando isso, e o fato de isso estar sendo feito junto com os norte-americanos é muito significativo. Entre nós, existe uma sensação real de que algo grande pode acontecer no Oriente Médio.”
O jovem também acompanha o aumento do antissemitismo pelo mundo, depois da reação de Israel na Faixa de Gaza. “O mundo nunca para de nos acusar, como se fôssemos os responsáveis”, diz. “O antissemitismo é frustrante e imoral, a guerra traz consequências tristes e há mortes dos dois lados, mas tratar cada israelense ou judeu como culpado é profundamente errado, um hábito que precisa acabar e que esconde um sentimento antigo.”
Desejo de paz
Essas viagens, depois do serviço e antes de iniciar a chamada “vida adulta”, tiveram repercussões. Muitos, como Elad, buscam distância da tensão acumulada. No Brasil, há episódios em que israelenses foram hostilizados quando passavam férias no Nordeste. “Essas pessoas acabam sendo acusadas e ameaçadas como se estivessem em um julgamento de rua”, lamenta Elad. “É uma pena, porque ninguém quer ser chamado de assassino quando sabe que não é.”
Elad nunca esteve no Brasil, mas diz que mantém curiosidade pelo país, “que tem praias maravilhosas e uma rica cultura”. O sonho de uma viagem é incompleto sem a certeza de que um dia seu país viverá em tranquilidade. “É horrível pensar que do outro lado da fronteira existem pessoas que querem me matar; sei que os terroristas são minoria, mas dominam a população e só vivem do ódio”, desabafa. “Me dói profundamente pensar que meus filhos possam viver com medo a vida inteira.” Elad agora só pensa na paz. “Quero andar por Jerusalém e Tel-Aviv sem ter medo de ser atacado por alguém.” Enquanto isso, ele segue atento às mensagens no celular.
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Certamente uma vida muito dificil! Ainda assim, creio que oferece mais perspectiva do que a um jovem aqui vivendo no nosso caos social.