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Fachada da loja Waitrose em Stirling, Escócia | Foto: Shutterstock
Edição 318

Demitido por impedir furto

A história do funcionário da Waitrose ilustra a era do pós-heroísmo

Imagine um país onde quem prende ladrões é punido com mais rigor do que os próprios ladrões. Onde o humilhado e cancelado não é o meliante que comete furtos em série, mas o cidadão decente que impede os crimes. Parece uma fantasia distópica em que a moral foi virada do avesso, e o crime, descriminalizado. Mas é a realidade. Esse país existe: é a Grã-Bretanha. A história do funcionário da Waitrose — rede de supermercados de alto padrão — demitido por barrar a ação de um “mão-leve” chocou todo mundo. Até o jornal The Guardian, que normalmente divulga histórias assim como lorota direitista, deu meia página para o caso. As coisas devem estar feias. Walker Smith, 54 anos, que trabalhava na Waitrose há 17 anos, foi demitido por impedir um ladrão de roubar coelhinhos da Páscoa de chocolate. Demitido por combater o crime. A que ponto chegamos, meus amigos.

Ele era assistente em uma das unidades da Waitrose na região sul de Londres. Mas que diabos está acontecendo ali? Primeiro, turbas de jovens desocupados aterrorizaram os clientes por duas noites seguidas, enquanto policiais, atônitos, assistiam a tudo passivamente. Depois, um homem perdeu o emprego por tirar as garras de um ladrão de cima das mercadorias. O pilantra tentava fugir com uma sacola cheia de coelhos da Páscoa de uma marca de chocolates finos e caros. Mas Walker Smith estava atento. Ele agarrou a sacola e se atracou com o ladrão, que acabou fugindo de mãos vazias. Smith foi promovido? Que nada. Levou uma advertência.

Os detalhes são absurdos. Smith relatou que o ladrão era reincidente e que não ia deixar o sujeito levar os produtos de graça. Então, ele puxou a sacola, que acabou rasgando, e os coelhinhos de chocolate caíram no chão, um deles ficou em pedaços. Smith diz que, frustrado, pegou um dos pedaços de chocolate e atirou na direção de uns carrinhos de compras, mas “sem mirar no ladrão”. O gerente, o que fez? Repreendeu o funcionário. Mas não parou por aí: o caso foi parar no mais burocrático dos departamentos, o RH.

Foto: Shutterstock

Ele foi conduzido a uma reunião com dois gerentes da loja. Implorou pelo emprego — “a Waitrose é como uma família para mim”, disse — mas de nada adiantou. Informaram-no que ele havia quebrado as regras, uma delas a de que funcionários da loja não devem confrontar ladrões. Será que os gerentes, em geral, não percebem a insanidade disso? Proibir que funcionários do varejo abordem ladrões é como proibir que guardas de trânsito ajudem velhinhos a atravessar a rua. É um disparate burocrático.

Claro que é tudo para preservar a “saúde e segurança” das pessoas. No comunicado sobre o caso de Smith, a Waitrose disse que cada um dos funcionários é instruído a não tentar “bancar o herói”, porque “nada do que a loja vende vale arriscar vidas”. É o uso cruel do medo como arma de dissuasão: “nunca faça nada de bom porque você pode morrer”. Isso resume como a apatia antissocial foi completamente institucionalizada na Grã-Bretanha moderna. De ataques terroristas a perturbação da ordem e pequenos furtos, o apelo dos patrões e da classe política é sempre o mesmo: “Não faça nada. Só vá para casa. Não vale a pena”.

Depusemos o heroísmo. Tornamos crime — ou pelo menos motivo para demissão — o senso de responsabilidade social. A autopreservação virou a virtude mais celebrada. Ninguém precisa ser sociólogo para perceber como esse individualismo paranoico destrói o tecido social. Uma sociedade em que assistentes de uma loja são ensinados a deixar o furto acontecer, funcionários do metrô assistem a malandros pulando as catracas, e até policiais e equipes médicas são obrigados a aguardar uma avaliação de risco antes de se dirigirem ao local de um ataque terrorista, é uma “sociedade” só no nome. É um inferno onde defender o próximo é visto como um ato de estupidez. Só pense em si mesmo!

Sim, confrontar um ladrão ou repreender idiotas por perturbação da ordem pública tem seus riscos. Tem consequências imprevisíveis. Mas sabe o que mais tem consequências? Esse constante desincentivo à bravura. Ele nos afasta. Faz pensar que o outro não vale o esforço. Exalta o indivíduo acima da sociedade. E dá sinal verde para o crime. A virtual descriminalização do furto em lojas, da “carona” no trem e do roubo de celulares — sem falar no roubo de bicicletas e na invasão de propriedade privada, crimes raramente resolvidos — encoraja os marginais que querem levar uma vida fácil. A alienação social não protege ninguém — muito pelo contrário.

Imagine gerentes trêmulos, abalados por causa de uns coelhinhos de chocolate em pedaços, sem jamais perceber a extensão dos danos à sociedade causados pela celebração da covardia como virtude. Ao quebrar as regras da Waitrose, Walker Smith rompeu também esse ethos antissocial e nos lembrou que o heroísmo costuma ser bem melhor que a autopreservação. Parabéns a ele. Ele deve ser restituído ao cargo. E aquele velho ideal de cuidar dos outros também.

Foto: Andrii Yalanskyi/Shutterstock

Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy

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5 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Imagine bombeiros não combaterem incêndios para nao colocarem suas vidas em risco, policiais só fazendo funções administrativas, doa militares na falo nada.. já estão nessa há tempos…

  2. Valesca Frois Nassif
    Valesca Frois Nassif

    Estamos vivendo tempos inimaginaveis. As regras de conduta atuais sao o contrario de grande parte do que recebemos de nossos pais como sendo valores e princípios para pautar nossas vidas. Triste demais!

  3. clarice Bocchese da Cunha Simm
    clarice Bocchese da Cunha Simm

    Ninguem diz nada e deixam tudo passar ou acontecer pois tem medo de se manifestar

  4. Wilton Lázaro de Araújo
    Wilton Lázaro de Araújo

    Estamos vivendo a pior das fases de inversão na humanidade. Ser calmo e ponderado é um homem frouxo. Ser espertalhão e trapaceiro é uma virtude. Ser honesto é ser bobão. Ser briguento é sinônimo de valentia. Falar a verdade é de direita…e por aí vão as inversões.

  5. Gilberto Damasceno Morais
    Gilberto Damasceno Morais

    É o poste mijando no cachorro. Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência.

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