publicidade
Augusto Lima | Foto: Paulo Mocofaya/Agência ALBA
Edição 317

A nova digital do PT no caso Master

Relatório da CPMI do INSS revela Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro e próximo de pessoas do partido, como outra peça-chave do escândalo

Com o sepultamento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), há quase duas semanas, muitas perguntas ficaram sem resposta. Uma delas envolve um personagem pouco conhecido do público, devido ao trânsito intenso nos bastidores, mas apontado pela CPMI como peça importante tanto no esquema de descontos indevidos contra aposentados quanto na expansão do Banco Master. Trata-se do empresário Augusto Ferreira Lima.

De acordo com o relatório de mais de 4 mil páginas elaborado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), mas barrado por articulações da base governista no Congresso, Lima teve papel central na reconfiguração do modelo de negócios do banco e na ampliação das operações de crédito consignado ligadas ao INSS. No documento, Gaspar pediu o indiciamento de Lima pelos crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.

Deputado Alfredo Gaspar (União-AL) | Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

Conhecido como “Guga Lima”, o empresário natural de Salvador (BA) ganhou notoriedade nacional em 2018, quando arrematou a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, que comercializava produtos básicos a preços subsidiados na gestão Rui Costa (PT-BA).

No pacote da Ebal, Lima assumiu também o controle do Credcesta, cartão de benefícios voltado a servidores públicos estaduais e municipais. O produto se tornaria, nos anos seguintes, um dos principais instrumentos de expansão do crédito consignado ligado ao funcionalismo e a beneficiários da Previdência. Inicialmente regional, o Credcesta ganhou escala nacional ao ser integrado a estruturas financeiras maiores. Segundo a CPMI do INSS, o produto passou a compor carteiras negociadas com fundos de investimento e instituições financeiras, ampliando sua presença no mercado de crédito consignado.

Bancos Master e Pleno

O movimento decisivo na trajetória de Lima ocorreu em 2019, quando ele se tornou sócio do Master e assumiu funções executivas ligadas ao varejo da instituição. Segundo fontes da extinta CPMI, Lima foi um dos responsáveis por direcionar a instituição financeira para a ampliação das operações de crédito consignado em larga escala. Nesse período, o Credcesta tornou-se o principal vetor de crescimento da instituição.

A estratégia permitiu ao Master ampliar rapidamente sua atuação entre servidores e beneficiários da Previdência, um público considerado previsível do ponto de vista de adimplência. Essa reconfiguração do modelo de negócios do banco teve em Lima e Daniel Vorcaro seus principais articuladores.

Por isso, a CPMI do INSS sustenta que a atuação do ex-sócio não pode ser dissociada das irregularidades identificadas nas operações de crédito consignado durante o período em que integrou a direção da instituição. Lima deixou o Master em maio de 2024, quando vendeu sua participação a Vorcaro e encerrou suas funções executivas.

Depois de sair do Master, Lima assumiu o controle do Voiter, rebatizado de Pleno, em agosto de 2025, após autorização do Banco Central (BC). O plano era repetir a estratégia adotada anteriormente: expandir operações de crédito consignado em escala nacional, com reforços de capital autorizados de R$ 80 milhões por etapa e atuação sob a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Menos de um ano depois, o projeto entrou em colapso. O BC decretou a liquidação extrajudicial do Pleno e de sua distribuidora de valores depois de identificar deterioração da liquidez e descumprimento de normas regulatórias.

Casal Augusto Lima e Flávia Peres | Foto: Reprodução/Instituto Terra Firme

Proximidade com o PT

Antes de alcançar projeção nacional no Master, Lima estruturou sua base de atuação na Bahia, em um ambiente político dominado pelo PT. O ponto de inflexão ocorreu em 2018, quando o empresário comprou a Ebal e o Credcesta. Nos anos seguintes, o produto se transformaria no principal instrumento de expansão do empresário no mercado de crédito consignado.

Ebal, Empresa Baiana de Alimentos | Foto:Adenilson Nunes/AGECOM

O senador Jaques Wagner (PT-BA) amplia a lista de contatos de Lima com o PT. O parlamentar conheceu Lima em 2017, durante o processo de privatização da Ebal. A partir desse período, o Credcesta passou a ganhar escala dentro de programas estaduais voltados ao funcionalismo público.

Parlamentares da oposição ouvidos por Oeste afirmam que a consolidação do produto nesse ambiente institucional coincidiu com a ampliação da circulação política de Lima junto a lideranças do PT baiano. Na avaliação desses parlamentares, essa estrutura foi determinante para transformar o Credcesta em uma base de expansão nacional, posteriormente incorporada à estratégia do Master.

Investigações e prisão

Mesmo fora do Master desde 2024, Lima voltou ao centro das investigações em novembro de 2025. Ele foi preso preventivamente pela Polícia Federal (PF) durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras relacionadas à instituição. A prisão ocorreu no mesmo dia em que o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master.

O empresário permaneceu preso por 11 dias, entre 18 e 29 de novembro de 2025. Ele foi solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Atualmente, usa tornozeleira eletrônica enquanto as investigações continuam. Mesmo assim, o nome de Lima permaneceu citado no relatório da CPMI do INSS como peça relevante na expansão das operações de crédito consignado associadas ao banco.

Augusto Lima e Daniel Vorcaro | Foto: Divulgação/Master

Com o sepultamento da CPMI e com as investigações ainda em curso na PF, parte das conexões que sustentaram a expansão do consignado ligado ao Master segue sem conclusão institucional definitiva. É nesse espaço que personagens de bastidores como Lima continuam reaparecendo: presentes nos relatórios parlamentares, mencionados nas apurações e associados à reconfiguração do Master em seu período de maior crescimento. Situação semelhante à do deputado federal João Carlos Bacelar (BA), citado por Oeste em virtude de sua atuação nos bastidores da estrutura política que acompanhou a expansão das operações de crédito consignado investigadas no âmbito da CPMI do INSS.

Entre investigações inconclusas e um relatório parlamentar que não chegou a ser votado, nomes como o de Lima e o do próprio Bacelar permanecem ligados a um dos capítulos mais sensíveis da trajetória do Master. Conforme a CPMI foi se aproximando de poderosos e pessoas ligadas a eles, como Lulinha e Frei Chico, um dos irmãos do presidente, o establishment se movimentou para sufocá-la. São personagens que, até aqui, permanecem como dois dos fios mais visíveis de uma engrenagem que a CPMI tentou reconstruir, e que terminou encerrada antes de alcançar suas conclusões.

Leia também “O triunfo da impunidade”

Leia mais sobre:

1 comentário
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Os caras do PT são tão ladrões que a política deles é estatizante, mas privatizaram a Ebal pra roubar o dinheiro público. O PT da Bahia. Esses caras não é pra ser presos, é pra serem fuzilados

Anterior:
O time da direita
Próximo:
À caça de influenciadores
publicidade