A afirmação de que São Paulo apresenta taxa de homicídios semelhante a de boa parte dos Estados Unidos está longe de ser balela ou mera empolgação do titular da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado, Osvaldo Nico Gonçalves. A declaração feita por ele a Oeste tem base em fatos. Em 2025, a taxa de homicídios no Estado foi de 5,3 para cada 100 mil habitantes, índice inferior ao de 32 dos 50 Estados norte-americanos, conforme dados de 2024 (os mais recentes disponíveis) do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde. Soma-se a isso outro fato: no ano passado, o Estado de São Paulo registrou os menores índices da série histórica, que teve início em 2001, para ocorrências de crimes como homicídios, latrocínios e roubos. No caso de homicídios, somando culposos e dolosos, os números de 2001 seguem como recorde negativo até hoje. Naquele ano, houve 12,4 mil ocorrências, bem acima dos 2,4 mil casos do ano passado. A queda foi de 80%. O indicador, entretanto, não caiu de uma hora para outra e, nesse período, em quatro ocasiões, o número cresceu em relação ao ano anterior: 2009, 2012, 2020 e 2022.
À frente da SSP desde o fim de novembro do ano passado, Nico Gonçalves, o Dr. Nico, como é chamado por colegas de farda, vibra com a queda. Contudo, avisa que o seu trabalho vai ser diminuir ainda mais esse e outros indicadores. Policial de carreira, chegando ao posto de delegado-geral da Polícia Civil, ele sabe que, apesar da retração nos principais índices, o sentimento de insegurança impera na população. “Infelizmente, tal sensação não acompanha a queda dos índices”, disse Nico, em recente entrevista ao programa Oeste com Elas. “Essa impressão predomina sempre que acontece algum crime.”
Similares em gravidade a homicídios, os latrocínios (roubo seguido de morte) tiveram seu recorde em 2001, com 579 casos. Em 2025, o índice ficou em 129, dado que confirma a estabilidade, uma vez que as ocorrências não ultrapassam a barreira dos 200 desde 2019, e não chegam a 400 desde 2004.
Já o ápice de roubos no Estado se deu há dez anos, com 323 mil. Desde então, com exceção de 2022, o indicador caiu ano a ano, até chegar aos cerca de 160 mil em 2025. Dos 645 municípios paulistas, 173 não registraram roubos no ano passado. Com aproximadamente 25 mil habitantes, Dois Córregos foi a maior cidade em população sem ocorrência desse crime em 2025.
Na organização da SSP, a categoria roubos não inclui veículos e cargas, contabilizados à parte, e que também tiveram os menores números da série histórica no ano passado, com 25 mil e 3,5 mil, respectivamente. O recorde de roubos de veículos em São Paulo se deu em 2001, com 100 mil ocorrências. Para roubos de cargas, o maior número é 10,5 mil, em 2017.





Outros cinco indicadores apresentaram queda em 2025, no comparativo com 2024: furto, furto de veículo, estupro, estupro de vulnerável e lesão corporal seguida de morte. Nesse último, a retração foi de 11%.

Os números de 2025 representam um bom início de trabalho para Nico. Ele assumiu o comando da pasta em substituição a Guilherme Derrite, que deixou o Executivo paulista para se dedicar ao cargo de deputado federal, função pela qual relatou o Projeto de Lei 5.582/2025, o PL Antifacção. Nico era o número 2 da SSP desde o início da gestão do governador Tarcísio de Freitas, em janeiro de 2023, no cargo de secretário-executivo. Na opinião dele, Tarcísio acertou ao escalar profissionais com carreiras na área de segurança para o comando da secretaria. Derrite, por exemplo, é capitão da Polícia Militar (PM), tendo sido oficial do Corpo de Bombeiros e da Rota, a tropa de elite da PM paulista. Além de investigador que chegou ao posto de delegado-geral, Nico soma experiência em funções de comando em diversos setores da Polícia Civil, incluindo passagem pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa.
Luz, câmera, ação
A SSP já tem números positivos para apresentar também em 2026. Durante os quatro dias de Carnaval, os casos de roubos e furtos de celulares chegaram a 2,8 mil, uma queda de 20% na comparação com o mesmo período do ano passado. O recuo também se deu no chamado pré-Carnaval: 432 furtos e roubos de celulares, contra 587 em 2025, uma retração de 26%.
Agentes de segurança entraram no clima do Carnaval. Para combater o crime em meio aos foliões sem chamar atenção, utilizaram fantasias inspiradas em clássicos do cinema e da TV, como Os Caça-Fantasmas, Scooby-Doo e Chaves. Mais de cem suspeitos foram detidos durante a operação especial de Carnaval, com direito ao “Seu Madruga” algemando um meliante.

Alguns dos criminosos detidos por policiais disfarçados serão presos novamente no Carnaval do próximo ano. “A polícia fez o trabalho dela, mas a Justiça solta”, lamenta o secretário. “O conceito de audiência de custódia tem de ser revisto. É desestimulante a gente prender alguém para no dia seguinte ele ser solto por um juiz. Também acredito que o Congresso Nacional deveria parar as atividades para refletir sobre a segurança pública e, consequentemente, elaborar regras para que a pessoa que cometa furto ou roubo fique mais tempo na prisão. Atualmente, parece que o país tem mais brechas, que acabam favorecendo os bandidos, do que leis que ajudem a dar segurança à população.”
Delegados × Tarcísio
Alguns dos problemas, no entanto, partem de dentro das estruturas policiais de São Paulo. Há inúmeras questões internas a serem resolvidas. O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) tem criticado publicamente Tarcísio e a cúpula da secretaria desde meados do ano passado. Em pauta, reivindicações por melhores salários e condições de trabalho. A insatisfação resultou na campanha lançada em fevereiro, com outdoors que disseminavam a mensagem “Valorização já!”.
“Como se não bastassem os baixos vencimentos, ainda não temos pagamento de hora extra, adicional noturno, auxílio-saúde e progressão de carreira com critérios objetivos — só para citar algumas das negligências”, declarou a presidente do sindicato de delegados, Jacqueline Valadares, ao tomar posse para seu segundo mandato à frente da entidade, em 9 de fevereiro. “A luta do Sindpesp continua, a fim de garantirmos que a carreira seja reconhecida e valorizada, e não seja mero palanque político.”
O conflito entre o Sindpesp e Tarcísio teve uma trégua no início de março. O governador enviou à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) o projeto de lei que determina novas regras para promoções dentro da Polícia Civil, além de estabelecer reajuste salarial de 10% para a categoria.
A boa relação entre o sindicato de delegados e Tarcísio dependia do calendário para se manter. Como a legislação eleitoral proíbe aumento a servidores públicos a partir de 180 dias antes das eleições, a Alesp tinha somente até abril para validar a proposta do governador. Na noite de quarta-feira, 25, os deputados estaduais aprovaram o projeto que visa à melhoria da carreira na Polícia Civil.
Combate ao crime e aos maus policiais
No dia a dia, a SSP também se vê com a missão de combater os maus policiais. Um exemplo disso é o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto. Ele está preso por suspeita de ter assassinado a mulher, a soldado Gisele Alves Santana, em 18 de fevereiro. Num primeiro momento, Geraldo propagou a versão de que Gisele teria cometido suicídio, o que perícias acabaram por contestar. Nas estatísticas da pasta, a soldado passou a fazer parte das mulheres vítimas de violência. Em 2025, os registros de feminicídio bateram recorde no Estado de São Paulo. Foram 266, contra 248 no ano anterior. Como alento às famílias, a secretaria informa que o assassino foi preso em flagrante em 140 desses casos.

Geraldo Neto não é um caso isolado. Em janeiro, oito policiais militares foram detidos sob suspeita de envolvimento no homicídio do lobista Luís Fernando Caselli, que somava mais de 20 passagens pela polícia por estelionato. Caselli foi assassinado em novembro do ano passado, na região da Vila Formosa, zona leste da capital paulista. Os oito agentes, que não tiveram os nomes divulgados, integram o 6º Batalhão de Ações Especiais da Polícia Militar, em São Bernardo do Campo.
Também neste ano, investigações desvendaram um esquema de corrupção nas estruturas da Polícia Civil paulista. Sob coordenação do Ministério Público de São Paulo, uma operação resultou nas prisões de quatro agentes: os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista e Rogério Coichev Teixeira, o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz e o delegado José Eduardo da Silva. Conforme a promotoria, eles, que deveriam zelar pelo combate ao crime, cobravam propinas para não prosseguir com determinadas apurações ou, dependendo do caso, destruir provas. Áudios e mensagens interceptados por autoridades mostram que havia cobrança de até R$ 33 milhões.
Nico admite o problema, mas garante que não cederá ao corporativismo. “Há gente ruim em todas as áreas, infelizmente. É assim na medicina, no jornalismo e na polícia”, diz o secretário. “Mas aqui a gente sempre vai investigar e punir quem mereça ser punido.”
Os recentes casos de policiais assassinos e corruptos reforçam a ideia de que, apesar da queda nos principais índices de segurança pública, a SSP tem muito trabalho a fazer. A começar por identificar — e punir — os criminosos que se infiltram nas estruturas de poder. Assim, sem a presença de agentes homicidas e recebedores de propina, e com sucessivas reduções nos índices de criminalidade, a população do Estado de São Paulo pode começar a ter a sensação de segurança tão almejada por todos.
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Parabéns a todos os policiais pelos baixos indíces de criminalidade, eles que trabalham duro com sálario baixos, e um governo que gerou grande expectativa em todos os policiais, Uma vez que o estado vinha de mais de 20 anos de governo do PSDB. No entanto, o Sr. Governador Tarcísio foi mais do mesmo, que triste.