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Eyal Zisser, vice-reitor da Universidade de Tel-Aviv e especialista em Oriente Médio | Foto: Arquivo pessoal
Edição 315

Entre a sobrevivência e o futuro

Vice-reitor da Universidade de Tel-Aviv analisa o novo cenário no Oriente Médio

A guerra iniciada em 28 de fevereiro é a primeira, aberta e coordenada, em que Estados Unidos (EUA) e Israel lutam contra um inimigo comum, o Irã. Até então, a aliança se baseava em operações pontuais em conjunto. Em um mês de conflito, o chefe de Estado e líder religioso do país, aiatolá Ali Khamenei, foi morto, entre outras lideranças locais. Houve grande destruição do programa nuclear e dos sistemas de mísseis de longo alcance iranianos. Segundo a organização Human Rights Activists New Agency, sediada nos EUA, mais de 1,3 mil civis e 1,1 mil militares morreram no Irã. Outras centenas morreram em ataques a países na região.

A superioridade militar dos dois aliados, porém, não tem sido suficiente para que o Irã, ainda que bastante enfraquecido, se renda. Forças iranianas têm lançado mísseis com ogivas de fragmentação em Israel. A maioria é bloqueada pelo sistema de defesa israelense. Os poucos que passaram deixaram pelo menos 12 mortos. O conflito ganhou caráter regional e transformou o cenário do Oriente Médio. O Irã se distanciou de antigos interlocutores, como Catar e Bahrein. O governo do Catar sempre foi reduto de líderes do Hamas, organização terrorista financiada pelo Irã. O Bahrein, apesar de ser governado por uma família sunita, tem uma população da qual cerca de 60% é de origem xiita, mesma vertente islâmica do Irã.

Essa afinidade não impediu que o Irã realizasse bombardeios direcionados a alvos dos EUA nesses territórios. No Bahrein, foi alvejada a sede da 5ª Frota dos EUA, em Manama. No Catar, mísseis e drones iranianos destruíram boa parte do complexo industrial de Ras Laffan, o maior produtor de gás natural do mundo, e de bases aéreas como a de Al Udeid.

Bases militares norte-americanas também foram atingidas nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait, assim como a infraestrutura energética da Arábia Saudita e de Omã. O escoamento de petróleo no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial, ficou bloqueado para aliados dos EUA. Nessas quatro semanas, os governos israelense e norte-americano contabilizam gastos de cerca de US$ 12 bilhões cada um. 

Para Donald Trump, o momento é de buscar um acordo. Ele considera que está havendo uma mudança no regime. O presidente dos EUA  enviou uma proposta de paz com 15 pontos, até agora rechaçada pelas autoridades iranianas. Israel, enquanto isso, prossegue destruindo a infraestrutura iraniana. Mas já planeja nova configuração na região, por meio de alianças com países antes hostis, no pós-guerra. Em entrevista a Oeste, Eyal Zisser, vice-reitor da Universidade de Tel-Aviv e especialista em Oriente Médio, analisa os diferentes objetivos dos EUA e de Israel neste conflito.

Qual o objetivo do Irã ao bombardear países que sempre foram hostis a Israel?

O Irã está realizando ataques diretos contra países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein, deixando mortos, feridos e paralisando a produção de energia. Só contra a Arábia Saudita, já foram disparados dezenas de mísseis e centenas de drones, enquanto os Emirados sofreram centenas de ataques aéreos. A lógica é direta: Teerã responde aos ataques de EUA e Israel atingindo também aliados deles no Golfo, sobretudo onde há bases militares norte-americanas e infraestrutura de petróleo, ampliando o custo econômico global da guerra e tentando pressionar esses países a recuar ou forçar um acordo.

Em que condições Israel considera que terá atingido seus objetivos no conflito contra o Irã?

Foi o presidente Donald Trump quem decidiu iniciar esta guerra, e será ele quem poderá encerrá-la. Ele pode, a qualquer momento, decidir que já foi suficiente e declarar vitória, mas também pode prolongar o conflito. Há alguma pressão, mas não se observa uma pressão doméstica significativa contra ele nos EUA. Portanto, será necessário aguardar suas decisões. Do ponto de vista de Israel, quanto mais tempo a guerra durar, mais alvos iranianos podem ser atingidos. Ainda assim, é provável que, em algum momento, seja daqui a uma, duas ou três semanas, não haja mais alvos relevantes. Nesse caso, a guerra poderia se encerrar sob a perspectiva israelense. A questão, porém, é saber se isso será considerado suficiente. Essa decisão está muito mais nas mãos dos EUA de Trump do que de Benjamin Netanyahu ou de Israel.

emirados árabes
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu | Foto: Haim Zach/GPO/Flickr

Na perspectiva de Israel, quais seriam as condições que fariam o Irã deixar de representar uma ameaça?

Em relação ao cenário ideal, Israel gostaria de ver a remoção do atual regime iraniano, mas isso não é algo viável no curto prazo. Não basta realizar ataques; é necessário que exista uma alternativa, o que envolve um processo de longo prazo. Considerando que o regime deve permanecer por algum tempo, Israel se sentiria mais seguro se as capacidades militares do Irã fossem eliminadas ou muito reduzidas. O objetivo é impedir que o país tenha condições de ameaçar Israel ou outros países da região. Para alcançá-lo, no entanto, seria necessário prolongar a guerra e ampliar os ataques a alvos iranianos. É preciso aguardar para ver como essa dinâmica vai evoluir.

Até que ponto as questões comercial e militar se misturam em um cenário pós-guerra na região?

Todos os países envolvidos com esta aliança estão interessados em comércio, trânsito e energia, mas, claro, é preciso garantir a própria sobrevivência antes de tudo. Por isso, neste momento, a dimensão de segurança é a mais importante. Apenas se a ameaça iraniana for contida ou retirada será possível falar dos outros temas, que são extremamente relevantes e fazem parte das razões pelas quais alguns países do Golfo promovem suas relações com Israel, como intercâmbio econômico e comercial. Isso é importante, mas, agora, é secundário em relação à segurança.

Quais parceiros comerciais na região seriam mais importantes para a estabilidade de Israel?

Vários países do Oriente Médio são pobres e não têm muito a oferecer. Mas, quando falamos dos Estados do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã e possivelmente o Catar, a situação é diferente. A Arábia Saudita, por ser o maior, mais rico e mais importante país, é o principal ator e deve liderar, quando chegar o momento, esse processo de negociação e cooperação econômica.

Até que ponto a hostilidade entre Israel e Arábia Saudita, desde os anos 1930, se manteve mais no campo da retórica?

A Arábia Saudita foi um país hostil nas décadas de 1930, 1940 e 1950. Houve momentos de cooperação indireta com Israel nos anos 1960, com mediação britânica, mas, em geral, manteve uma postura hostil, embora nunca tenha entrado em guerra direta com Israel. Essa hostilidade estava ligada ao fato de ser um grande Estado islâmico, mas, ao mesmo tempo, pró-Ocidente e pragmático. Isso começou a mudar no início deste século, quando o país passou a adotar uma postura ainda mais pragmática. Para isso contribuiu a influência iraniana, o que tornou os sauditas mais abertos a Israel. Como se sabe, antes de 7 de outubro, eles já avançavam nesse processo.

Por que a Guerra do Golfo, entre EUA e Iraque, em 1991, não conseguiu trazer estabilidade para a região?

Quando falamos da janela de oportunidades que se abriu a partir dos anos 1990, houve avanços importantes: o acordo de paz entre Israel e Jordânia (1994), a quase conclusão de acordos com a Síria e com os palestinos. No entanto, a administração norte-americana não esteve suficientemente envolvida ou não soube usar essa oportunidade para pressionar ambos os lados e concluir os acordos. O processo começou com George Bush (pai) e James Baker e continuou com a administração (Bill) Clinton, que acabou não sendo decisiva o bastante. Houve, então, um retrocesso. Ainda assim, olhando para trás, estivemos muito próximos de concluir acordos.

Qual será o papel da Turquia nesse novo cenário e como Israel pode evitar que o país se torne uma nova ameaça?

No caso da Turquia, cabe a ela decidir qual papel quer desempenhar. Tornou-se muito hostil em relação a Israel e adotou uma retórica mais radical. Por outro lado, é aliada dos EUA, o que cria um equilíbrio. Se quiser desempenhar um papel relevante, será bem-vinda, considerando sua relação com os EUA e sua posição como membro da Otan. Mas precisa mudar sua postura e moderar sua retórica. Hoje, nem os países árabes nem Israel confiam na Turquia. A questão é se essa relação pode ser restaurada. Caso contrário, ela tende a permanecer à margem, sem ser um ator relevante e positivo.

Até que ponto o fato de um país muçulmano como o Paquistão possuir armas nucleares é, neste momento, uma preocupação para Israel?

O Paquistão está distante e não está na agenda para se envolver em conflitos diretos com Israel. Evidentemente, não é ideal ter um Estado muçulmano com capacidade nuclear e sem relações diplomáticas com Israel, mas isso não é algo novo. Essa situação já existe há algum tempo e nenhuma linha vermelha foi cruzada até agora. Só haveria motivo de preocupação se houvesse uma mudança de postura e maior engajamento. No momento, não há razão para preocupação.

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