O escândalo do Master ganhou notoriedade sobretudo por atos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no sentido de impedir a liquidação do banco e salvar seus diretores. Ao passo que a Polícia Federal (PF) foi avançando nas investigações, descobriu-se irregularidades na venda de CDBs por preços irreais, uso indevido de recursos de fundos de investimento e exposição de dinheiro de aposentados por meio de operações fraudulentas ligadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O que ainda não estava claro, porém, era o funcionamento interno de parte desse sistema, ou seja, como o dinheiro circulava entre estruturas ligadas a Daniel Vorcaro, ex-dono do banco. Obtida por Oeste, a Declaração de Imposto de Renda (IR) do empresário ajuda a escrever mais um capítulo de uma história que ainda está longe de acabar.
Evolução financeira
Os documentos permitem acompanhar a evolução patrimonial de Vorcaro, medir a velocidade da expansão de bens e identificar padrões. Em quatro anos, o patrimônio declarado do banqueiro cresceu mais de cem vezes. A Declaração de IR mostra reorganizações frequentes dos ativos dentro de um mesmo circuito. Na prática, os recursos não saem do grupo: circulam entre empresas, fundos e aplicações ligados ao próprio empresário.
O dinheiro muda de forma, mas permanece sempre nas mesmas mãos. Esse arranjo não apenas concentra patrimônio, mas dificulta a leitura das operações. Ao manter os recursos dentro de um mesmo sistema, reduz a exposição externa e torna mais complexo identificar a origem e o destino dos valores, o que, para a PF, é claramente prática de lavagem de dinheiro.

O padrão não se limita às estruturas financeiras. Ele também aparece na composição dos bens declarados. Além das participações financeiras, o patrimônio de Vorcaro se distribui em ativos de alto valor que servem de reserva imediata. As declarações indicam cerca de R$ 50 milhões em joias, relógios de alto padrão e obras de arte.
A esse conjunto somam-se outros bens materiais de luxo registrados em seu nome, incluindo veículos como modelos da Porsche, entre eles esportivos da linha 911, além de automóveis das marcas BMW e Land Rover.
O portfólio patrimonial também abrange imóveis caríssimos no Brasil e no exterior, especialmente na região de Miami, incluindo unidades em áreas valorizadas como Sunny Isles Beach. Um deles é uma cobertura de quase mil metros quadrados, adquirida por Vorcaro em 2021 por cerca de US$ 30 milhões e posteriormente transferida à ex-mulher. Na declaração mais recente, o bem aparece avaliado em aproximadamente R$ 180 milhões.
Os registros indicam ainda que a propriedade está vinculada a uma empresa offshore registrada em Delaware, nos Estados Unidos (EUA), modelo que permite ocultar a identidade do beneficiário final. Parte dos recursos para a aquisição do imóvel teve origem na venda de cotas de fundos de investimento, segundo os próprios dados declarados. Outro ponto que chama atenção é a presença de liquidez fora do sistema financeiro tradicional: Vorcaro declarou possuir apenas R$ 1,4 milhão em dinheiro em espécie em 2023. O valor contrasta com o volume total de bens declarados, indicando que a maior parte do patrimônio permanece alocada em estruturas financeiras e ativos de difícil liquidez imediata.
Circuito fechado
Ao longo dos anos, todo esse dinheiro se organizou em torno de um conjunto de estruturas que envolve fundos de investimentos, como o Blue FIP e o Duke FIP Multiestratégia, além de empresas de fachada como a Super Empreendimentos e Participações S.A. — a PF suspeita que essa última companhia servia como braço operacional de Vorcaro para eliminar desafetos, pela contratação de milicianos, e até repasses do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Esses mesmos nomes aparecem, de forma simultânea, como destino de investimentos e como origem de dívidas. Na prática, o dinheiro entrava, circulava e retornava dentro do mesmo sistema.

Na declaração mais recente, referente ao ano-calendário de 2023, o circuito se torna explícito. Vorcaro registrou aplicações que somam mais de R$ 40 milhões com estruturas que integram o próprio ecossistema:
- R$ 32,1 milhões com a Super Empreendimentos
- R$ 4,9 milhões com o Duke FIP
- R$ 2,6 milhões com o Blue FIP
- R$ 2,8 milhões ligados à TIX Aéreo
Ainda no campo dos investimentos, os documentos financeiros do empresário mostraram volumes relevantes aplicados em fundos ligados ao Master, além de participações em estruturas que operam dentro de uma mesma lógica de circulação interna de capital. As declarações também registram valores expressivos em previdência privada, que somam cerca de R$ 30 milhões.
Outro eixo relevante da carteira foi a atuação em setores específicos. Entre eles, mais de R$ 154 milhões direcionados ao fundo CARE11, voltado ao setor funerário. Nenhum, contudo, recebeu tanto dinheiro quanto a modelo Martha Graeff, ex-namorada de Vorcaro. Conversas vazadas pela PF sugerem que Vorcaro transferiu para ela mais de R$ 520 milhões. A mulher mora, atualmente, nos EUA.
Se, por um lado, as declarações revelam a dimensão e a composição dos ativos, por outro, também trouxeram elementos importantes sobre a estrutura de endividamento associada ao patrimônio. Depois de a dívida de Vorcaro recuar para cerca de R$ 12 milhões em 2019, o volume voltou a crescer nos registros mais recentes.
Entre os passivos, aparece um saldo negativo de R$ 2,7 milhões em conta corrente no Bradesco e uma posição de R$ 432 mil em “margem” na XP Investimentos, geralmente associada a operações alavancadas.
Sistema sob suspeita
A leitura integrada dessas evidências mostra que houve um crescimento patrimonial acelerado, sustentado por um modelo baseado na concentração de recursos e na circulação interna de capital.
O arranjo não operava de forma isolada. Como já indicaram investigações sobre o Master, a estrutura do banco se conectava a fundos de investimento, operações com CDBs de alta rentabilidade e recursos de previdência de Estados e municípios, além de envolver a venda de crédito consignado vinculada ao INSS.
Nesse contexto, o circuito interno identificado nas declarações fiscais dialoga com uma rede mais ampla de relações financeiras, na qual banco, fundos e entes públicos se interligam, ampliando o alcance e o impacto do sistema.
O avanço das investigações da PF passou a incidir justamente sobre essa estrutura, que entrou na mira também da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS. Nesta semana, contudo, por ordem do ministro André Mendonça, a Declaração de IR de Vorcaro e todos os documentos sobre o empresário foram removidos da sala-cofre da comissão.

Em virtude da nova decisão, a comissão assiste ao próprio esvaziamento. Parlamentares tentaram levar o empresário para prestar depoimento no Congresso, mas não obtiveram êxito. Vorcaro conseguiu habeas corpus e, mesmo preso na Penitenciária de Segurança Máxima de Brasília, segue sem ser ouvido. Diante disso, a CPMI passou a direcionar a apuração para pessoas próximas ao empresário.
À medida que essa engrenagem vem à tona, o escândalo deixa de ser interpretado como um conjunto de operações isoladas e passa a ser compreendido como resultado de um modelo integrado de circulação de recursos. O que está em jogo não é apenas o tamanho da fortuna, mas o funcionamento do sistema que a sustenta, e até onde será possível desvendá-lo com as intromissões indevidas do STF.
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Há um componente controverso nesta matéria. Oeste diz defender valores conservadores e princípios liberais. Um desses, é o direito à privacidade que toda pessoa deve ter, inclusive quanto à sua declaração de bens entregue à Receita Federal. O vazamento é, claramente, um delito, provavelmente destinado a amparar textos jornalísticos como este. Concluindo, este artigo serve a interesses escusos e expõe infração aos princípios da revista. Epílogo necessário: não defendo criminoso, só cobro coerência da revista que assino.