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Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 314

A convicção dos incrédulos

O pessoal tá esperando o dono da digital confirmar que o dedo é dele

— Que escândalo escabroso.

— Nem fala.

— Já descobriram até batom na cueca, né?

— Verdade.

— Isso foi confirmado?

— Sim. Teve perícia e tudo.

— E qual foi a conclusão dos peritos?

— O laudo atestou que o batom era batom e a cueca era cueca.

— Então, fim de papo?

— Não. Parece que ainda tem dez gigabytes pra revelar.

— O que pode ser mais revelador que batom na cueca?

— Não sei. A imprensa só fala nos dez gigabytes desconhecidos.

— O pessoal gosta de suspense, né?

— Acho que é.

— Me lembro do tempo em que batom na cueca encerrava o assunto.

— O mundo mudou.

— E como!

— E olha que o escândalo não ficou só no batom na cueca.

— Não? O que mais foi revelado?

— Boca na botija.

— Tem certeza?

— Absoluta. Saiu em todos os jornais.

— É tanta notícia que eu até me perco. Não foi boato?

— Não. Publicaram até a imagem da boca e da botija.

— E a boca estava de fato na botija?

— Em pleno ato de sucção. Todo mundo viu.

— E aí?

— Agora estão dizendo que o culpado talvez confesse tudo.

— Confessar? Mas e o flagrante? Não é suficiente?

— Pois é. O pessoal tá excitado com a confissão. Querem ouvir a confirmação de que a boca estava na botija.

— Que coisa…

— E ainda tem os entendidos dizendo que vai ser meia confissão e não vai dar em nada.

— Não vai dar em nada?! Já deu! Boca na botija é boca na botija.

— Eu também pensava assim. Mas o pessoal tá esperando a confissão. Não dá pra contrariar a maioria, né?

— É… Vão acabar descobrindo que o batom tava na boca e a cueca tava na botija.

— Pode ser. Quem não acredita no que vê, acredita em tudo.

— Mas o criminoso sempre volta ao local do crime.

— Já voltou.

— Já??!!

— Com digital e tudo.

— E agora?

— Agora o pessoal tá esperando o dono da digital confirmar que o dedo é dele.

— Isso não existe! Impressão digital é prova oficial de identidade!

— Depende.

— De quê?

— Se o indivíduo se declarar uma alma honesta presa no corpo de um criminoso, vale o que ele se sente.

— Estou me sentindo um otário no corpo de um contribuinte.

— Então você é um otário.

— Pelo menos posso deixar de ser contribuinte?

— Não. Nesse caso, você terá que acumular.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

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