Crise é uma palavra presente na rotina do cubano desde a chegada de Fidel Castro ao poder, em 1959. Em cidades como a capital Havana, até então conhecida como “a Paris da América Latina”, tornou-se habitual amanhecer sob a ameaça de algum tipo de escassez. Na última segunda-feira, 16, a crise atingiu seu auge. Depois de dias de protestos em Havana e Morón, com forte repressão policial, Cuba sofreu um novo apagão total. A falta de alimentos e de energia vinha sendo constante. Naquele dia, a rede elétrica entrou em colapso, deixando 10 milhões de pessoas sem luz.
Os problemas de décadas emergem de maneira tão nítida que estão prestes a causar a ruína do regime. Desde 2021, a repressão do governo não tem conseguido esconder a insatisfação popular. As manifestações têm ocorrido, algo inimaginável há uma década.
Nunca o modelo concentrado no Estado deu tantas mostras de inoperância. As autoridades centrais, e não a oferta e a procura, decidem o que, como e quanto produzir. Tudo isso em meio a um sistema ditatorial comandado pelo Partido Comunista. A novidade é que, desta vez, o colapso veio em função da perda de um patrocinador que sustentava a economia: a Venezuela. Em janeiro, ao capturar o ex-ditador Nicolás Maduro, Donald Trump decretou o colapso da economia cubana, sempre dependente de um grande financiador externo.
A paralisação do fornecimento de petróleo venezuelano, que já havia diminuído, praticamente desligou a economia de Cuba. A Venezuela chegou a entregar 115 mil barris em 2012. Em troca, Cuba enviava médicos e outros especialistas para atuar em programas públicos venezuelanos e colaborar na área militar. Com o fim do governo Maduro, o intercâmbio acabou. Sem energia, o sistema econômico de Cuba travou. Para tornar insuportável a pressão, os EUA iniciaram, em janeiro, um bloqueio de petróleo ainda mais intenso e ameaçaram de sanções qualquer país que o furasse. O presidente Miguel Díaz-Canel desabafou, em março: “Cuba está há meses sem receber combustível.”

Economia em colapso
O bloqueio expôs fragilidades acumuladas. A economia cubana jamais conseguiu construir bases sólidas de produtividade. A falta de investimentos, estrangeiros ou domésticos, corroeu a capacidade produtiva do país. Fábricas e usinas funcionam com manutenção precária.
A escassez de alimentos, hoje visível nas longas filas e no racionamento, tornou-se apenas mais aguda. Produtos básicos como arroz, feijão, pão e ovos desapareceram das prateleiras. Segundo levantamento do Observatório Cubano de Direitos Humanos, somente 15 % da população consegue fazer três refeições diárias regularmente. Cerca de 72 % enfrentam dificuldades para obter alimentos.
A produção agrícola, antes sustentada de forma artificial por grandes estruturas estatais, entrou em declínio. Sem combustível para máquinas, sem fertilizantes e com remuneração baixa, muitos trabalhadores abandonaram o campo. Para piorar, o país passou a sofrer com o êxodo de jovens em busca de alguma perspectiva de vida.
O sistema levou o país a depender cada vez mais de importações para alimentar sua população, mesmo tendo terras férteis. Sem combustível para a infraestrutura, o setor de cana-de-açúcar, um dos pilares da economia cubana, enfrenta um dos piores momentos de sua história. Usinas foram fechadas, outras operam com capacidade reduzida. A produção de açúcar caiu para menos de 150 mil toneladas na safra 2024-2025, segundo fontes da EFE. É o nível mais baixo em mais de um século, bem inferior ao plano oficial de 265 mil toneladas.
O mesmo ocorre em outros setores estratégicos, como o de níquel e cobalto, afetado pela falta de investimentos e pela dificuldade de acesso à tecnologia e às peças de reposição. O turismo, outro motor econômico, vem caindo cerca de 20% a cada ano desde a pandemia. No calor, o ar-condicionado dos hotéis não funciona.
Deterioração acelerada
Ao longo dos três governos, desde que Fidel Castro assumiu, as mudanças foram mínimas. Fidel implantou um sistema altamente centralizado, baseado na nacionalização, na opressão e no controle absoluto do Estado sobre a economia. A lógica era ideológica e geopolítica, sustentada pela então União Soviética. Com o colapso soviético, Cuba entrou no chamado Período Especial, uma crise profunda que expôs a dependência externa do regime. O colapso de agora, para muitos especialistas, supera o dos anos 1990.
O sucessor, Raúl Castro, irmão de Fidel, tentou pequenas aberturas. Autorizou negócios privados limitados, flexibilizou algumas regras e buscou atrair investimentos. Ainda assim, manteve o núcleo do sistema intacto. Foram reformas tímidas, insuficientes para gerar dinamismo econômico. Já sob Miguel Díaz-Canel, a combinação de fatores adversos veio à tona: crise energética, inflação, protestos e um êxodo migratório recorde. Com ele, o regime está “pagando as contas” de sua ineficiência.

“Em um país mergulhado no pior colapso econômico de sua história, o líder que formalmente ocupa o topo do poder parece incapaz de se conectar com a realidade da população”, declarou o articulista Yunior García Aguilera, do portal de oposição clandestino 14ymedio. “Sob seu mandato, Cuba atravessou uma deterioração acelerada, protestos inéditos e um êxodo migratório que atingiu níveis históricos. A produção agrícola despenca, enquanto os preços dos alimentos sobem sem freio. A moeda nacional transformou-se em uma ficção contábil. E o Estado, preso à sua própria estrutura ineficiente, parece incapaz de oferecer soluções reais, limitando-se a reformas tímidas e tardias.”
Ditadura por um fio
As reformas tardias são a tentativa de Díaz-Canel de superar uma crise anterior, a de 2021. O governo permitiu a unificação monetária, do peso interno e do atrelado ao dólar (o que gerou inflação), a criação de pequenas e médias empresas (PYMEs) e o aumento do trabalho autônomo. Tarde demais. A falta de infraestrutura, a escassez e o êxodo migratório não foram revertidos.
A repressão aumentou de forma proporcional aos protestos. Pelo menos 46 presos morreram em Cuba entre 2025 e 2026, incluindo manifestantes detidos depois das manifestações. As mortes ocorreram por “negação ou atraso deliberado no atendimento médico”, segundo a organização de direitos humanos Justiça 11.
O ditador tenta novamente contornar a situação, ao ouvir Trump declarar que, depois de quase seis décadas, o regime comunista de Cuba está falido, com os dias contados. “Eu acredito que terei a honra de tomar Cuba”, afirmou Trump em coletiva. “Isso seria ótimo. Seria uma grande honra. (…) Tomar Cuba. De alguma forma, sim. Quer dizer, seja libertando-a, tomando-a, acho que posso fazer o que quiser com ela.”
À esta altura, Canel já estava consciente da situação. O seu governo declarou ter libertado presos políticos, dentro de acordo mediado pelo Vaticano. No dia 16, do maior apagão, Havana passou a permitir que cubanos residentes no exterior tenham empresas privadas em Cuba e abram contas em moeda estrangeira nos bancos cubanos. A medida, porém, não convenceu os EUA, que têm como objetivo o fim do regime. “Cuba tem uma economia que não funciona dentro de um sistema político e governamental incapaz de corrigi-la. Portanto, eles precisam fazer mudanças drásticas”, afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, nascido em Miami, filho de pais cubanos que emigraram para os EUA fugindo do regime de Fidel.
As acusações de que o boicote dos EUA, imposto desde 1962, é determinante para a crise, servem como pretexto ideológico. Não há dúvida de que o bloqueio tem impacto, sobretudo no acesso a crédito, tecnologia e mercados. A retórica, no entanto, coloca neste embargo a explicação quase exclusiva para o colapso, o que é um exagero.
O país produz o que o Estado decide, não aquilo de que a população necessita. Falta incentivo para inovação e aumento de produtividade. Salários baixos desestimulam o esforço individual. A impossibilidade de negócios afasta investimentos externos. Cuba é um dos países que despertam menor atração para investidores estrangeiros. Culpar o bloqueio norte-americano é negar a precariedade de um sistema que afundou um país que tem posição geográfica estratégica no Caribe, grande potencial turístico, terra fértil, recursos minerais e capital humano. A dependência de financiadores externos também deixou a nação ainda mais vulnerável.
Antes da Revolução de 1959, Cuba tinha elevado nível de urbanização e taxa de alfabetização de 76%, a segunda mais alta da América Latina, segundo a Organização das Nações Unidas. Em 1958, foi o segundo país do mundo a emitir uma transmissão de televisão a cores. Também era a nação com maior número de automóveis (160 mil, um para cada 38 habitantes) e de eletrodomésticos. Havana se destacava como um dos principais centros turísticos da região.
Existia um grau de desigualdade nas áreas rurais. Mas a forma escolhida para equilibrar o país e combater a corrupção foi o sofrimento, em vez do desenvolvimento. Segundo o Observatório Cubano, 89% da população vive em condições consideradas de extrema pobreza. Tamarys Bahamonde, cubana e professora na Universidade da Cidade de Nova York, afirma ao 14ymedio: “Cuba já precisa de transformações tão profundas que falar apenas em reformas é muito limitado”. “Cuba necessita de mudanças reais nos âmbitos econômico, social e político”, ressalta. A ditadura parece estar com os dias contados.
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Pois é falta comida e os cubanos não podem sequer comer peixe. O regime restringe o acesso a barcos (pois quer evitar fugas) e até pescar com varas de pescas na praia é proibido.