Existe alguma lembrança que você gostaria de apagar? Uma morte? Uma decepção? Uma traição? Um trauma? Um abuso? Uma dor? O filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) transformou essa questão num clássico do cinema. Escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Gondry, conta a história de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), que têm um romance improvável, já que possuem personalidades muito diferentes. Um dia, Joel descobre que Clementine usou um procedimento médico para apagá-lo da memória. Ela já está com outro namorado e nem reconhece Joel. Magoado, ele decide fazer a mesma coisa e pede o tratamento para que Clementine suma de suas lembranças.
Passados 22 anos depois, o “Brilho Eterno” começa a se tornar realidade. Artigo da revista BBC Science Focus mostra que já existem métodos para apagar partes específicas da memória. Segundo a matéria, ainda é cedo para se produzir a chamada “edição de memória” em humanos. Mas os princípios básicos já estão sendo estabelecidos.
Nossas experiências criam “traços de memória” no cérebro. Uma mudança física que vira uma marca nos neurônios. Cada vez que pensamos naquela lembrança, o traço se fortalece, ou enfraquece, ou mesmo se modifica, num processo chamado “reconsolidação”. É muito comum que a lembrança que temos de algum fato se modifique com o tempo até se tornar praticamente uma fantasia.
Segundo a matéria da Science Focus, uma experiência realizada no Canadá em 2009 foi ponto determinante para os estudos. Os cientistas davam choques em ratos e tocavam um som ao mesmo tempo. Como na experiência de Ivan Pavlov, descobriram que os animais ficavam paralisados de medo só de ouvir o som, esperando o choque. O ponto no cérebro em que o medo era sentido — o “traço da memória” — foi localizado. Os cientistas então destruíram quimicamente esse ponto. Os ratos deixaram de sentir medo ao ouvir o som. O traço tinha sido apagado.
Três anos depois, os cientistas Xu Liu e Steve Ramirez (que trabalharia como professor de neurociência na Universidade de Boston) deram um passo além. Através de cabos de fibra óptica implantados nos cérebros dos ratos, eles criaram uma memória que não existia. Os animais passaram a ter medo sem qualquer estímulo anterior.
Lembranças do nada
A psicóloga americana Elizabeth Loftus e a pesquisadora Jacqueline Pickrell realizaram, em meados de 1990, um experimento chamado “Perdidos no Shopping”. O estudo foi publicado em 1995 na revista Psychiatric Annals e envolvia jovens adultos e suas famílias. Os jovens receberam de seus pais ou irmãos um relato de quatro fatos ocorridos em suas infâncias. Três das histórias eram verdadeiras. A quarta era inventada. Descrevia um episódio em que a criança se perdeu em um shopping center, ficou assustada, foi ajudada por um estranho idoso e acabou sendo reencontrada pela família.
Um quarto dos jovens declarou que havia mesmo se perdido. Alguns chegaram a fornecer detalhes sobre um incidente que nunca aconteceu. Descreveram em detalhes a aparência da pessoa idosa que os havia encontrado. Lembraram do medo que sentiram. Foram capazes até de recordar lojas e corredores do shopping.
Conclusão: memórias não são como arquivos digitais armazenados no HD (“disco rígido”) do cérebro. São reconstruídas constantemente a partir de fragmentos de lembranças reais, sugestões externas, imaginação e expectativas sociais. Quando alguém imagina repetidamente um evento plausível, o cérebro pode confundir imaginação com memória real. O fenômeno é chamado de memória falsa. Cada vez que lembramos de algo, reconstruímos a história, e às vezes acrescentamos elementos que nunca ocorreram.

O presente contínuo
Outro caso fascinante aconteceu com o americano Henry Molaison, nascido em 1926. Na adolescência, Molaison sofreu um acidente de bicicleta e passou a ter fortes ataques de epilepsia. O caso se agravou até que, em 1953, uma cirurgia removeu partes do seu cérebro associadas à memória. As crises diminuíram. Mas o paciente perdeu quase completamente a capacidade de formar memórias duradouras. É a chamada amnésia anterógrada. Henry se lembrava da infância, conversava normalmente, mantinha inteligência e linguagem intactas, mas não conseguia guardar novas experiências na memória.
A vida de Henry Molaison passou a ser um presente contínuo. Cada encontro parecia ser o primeiro. Cada leitura era esquecida em seguida. Cada filme assistido se apagava. Estudos foram realizados sobre seu caso e descobriu-se que temos dois tipos de memória. Uma é a declarativa, a lembrança consciente de fatos e eventos. Essa ele perdeu. A outra é a procedural — como andar de bicicleta ou tocar um instrumento musical. Essa continuou.
O caso de Molaison revelou que, sem a capacidade de formar novas memórias, o cérebro perde a continuidade da experiência da vida. Essa condição foi explorada na comédia romântica Como se Fosse a Primeira Vez, de 2004, com Adam Sandler e Drew Barrymore.
A solução química
Drogas também estão sendo usadas para amenizar o efeito de um trauma. Benzodiazepínicos são utilizados em situações nas quais cirurgias são necessárias e a anestesia geral não é possível. O paciente passa pela experiência desagradável de ver seu corpo sendo cortado, mas a droga apaga a lembrança. Mais conhecida no Brasil como “Boa noite, Cinderela”, faz com que a vítima não se lembre, por exemplo, de ter sido abusada sexualmente.
O propranolol, um betabloqueador indicado normalmente para pressão alta e ansiedade, também pode ser prescrito. Seu uso é possível por causa de um fenômeno recentemente descoberto: quando lembramos de algo, a lembrança fica instável nos neurônios. O tratamento é realizado fazendo o paciente relembrar o evento traumático. No momento em que a lembrança torna-se instável, é aplicado o propranolol. O medicamento interfere nos mecanismos químicos da reconsolidação. Ou seja, o processo se dilui.
Esse uso do propranolol obteve alguns resultados práticos. A resposta emocional ao trauma diminuiu em muitos casos, assim como os sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A lembrança não desaparece, mas perde a carga emocional, o que diminui algumas reações de medo.
A base de nossa identidade
Então, vamos todos tomar remédios e levar choques para esquecer o que vivemos de ruim em nossas vidas? É nesse ponto que voltamos para o filme. No meio do processo, Joel percebe que não quer mais apagar seu passado com Clementine. O relacionamento teve problemas e dores, mas também momentos agradáveis. Os dias com Clementine, bons e ruins, fazem parte de uma experiência completa.
“Nossas lembranças nos ajudam a ser o que somos”, diz a matéria da Science Focus. “Elas são uma parte fundamental de nossa identidade, sejam boas ou ruins.” Alterar a memória pode mudar o que somos. Embora nascidos com intenções terapêuticas, esses métodos podem ingressar num terreno perigoso, servindo, por exemplo, para que testemunhas de um crime esqueçam — literalmente — o que viram. Ou as lembranças poderão ser manipuladas para favorecer o criminoso. Como em tantos outros grandes avanços atuais da tecnologia e da ciência, a manipulação da memória vive na corda bamba ética entre o milagre e o desastre.

dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
Leia também “A IA liberta o cinema brasileiro”




Excelente artigo Dagomir Marquezi. Eu sou plenamente favorável a preservar a memória das pessoas. A memória é fundamental para que novas reconfiguraçoes mentais sejam feitas .Sejam lembranças difíceis ou boas,são fundamentais para a formação de nossa personalidade. A memória faz parte de nosso conhecimento pessoal de vida e da história vivenciada,apaga-la seria um erro. Vejo hoje muitos jovens com memória prejudicada,não se lembram de lembranças passadas e detalhes do que vivenciaram recentemente, adultos também fazem parte desse grupo. A história de vida é única para cada indivíduo, você pode conviver com ela,sem se apavorar com medo e angústia extrema. Assisti a esse filme que você citou, muito bom.
Ótima observação.