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Foto: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 312

A IA liberta o cinema brasileiro

Primeiro festival com esta ferramenta tem obras de nível internacional feitas em casa

Nos últimos anos, o cinema brasileiro atolou na mesmice e na burocracia. Está quase sempre preso a obras doutrinárias e depende da aprovação do aparelho estatal. E então surge uma saída. Foi realizado em São Paulo o primeiro Festival Mundial de Filmes de Inteligência Artificial (WAIFF). Ocorre, por enquanto, em poucos países: Brasil, Coreia do Sul, China e Japão. A premiação global acontece no mês que vem em Cannes.

O WAIFF São Paulo mostrou algumas obras de altíssimo nível, e outras ainda meio toscas, com personagens dotados de duas mãos direitas ou mudando de fisionomia no meio da cena. Não importa. A revolução apenas começou.

As maiores vitoriosas desta primeira edição do festival foram a liberdade e a diversidade de assuntos. Essa novíssima geração de criadores não precisa de financiamento, de verbas oficiais, de editais incompreensíveis, da aprovação da mídia militante. Eles se sentam em frente aos seus computadores, abrem os aplicativos e realizam o que está em suas cabeças. 

São obras criadas pelos autores que usam a inteligência artificial apenas como meio de expressão. Não são concepções e roteiros feitos por IA. Mesmo assim, ainda existe uma sensação de medo e culpa no ar, inclusive entre os organizadores do evento. A obra que ganhou o maior prêmio do festival, por exemplo, passa o tempo todo amaldiçoando a própria tecnologia que a tornou possível. 

A seguir, alguns dos finalistas e vencedores desta primeira edição do WAIFF. Muitas das produções já foram criadas em inglês, visando ao mercado internacional. São exemplos do que pode ser uma nova era de liberdade no audiovisual brasileiro.

Maya

Rodrigo Chevas e Marcelo Presotto
Prêmio de melhor curta de ação

Cena do filme Maya | Foto: Divulgação/WAIFF

Este filme mistura técnicas. A primeira parte é um vídeo normal, sem IA, com um toque de nostalgia. Sem usar qualquer palavra, vemos Maya (Tainá Medina), uma moça com jeito de hippie, dirigindo seu Fusca, ouvindo uma música calma. Em outro carro (um Opala), dois cheiradores de cocaína ouvem heavy metal. Os caminhos deles se cruzam. Os homens ameaçam estuprar e matar a garota. Ela se transforma numa espécie de lobisomem (mais parecida com uma hiena) e acaba com os machões. A transformação dela é feita com IA, dirigida por Marcelo Presotto, também conhecido como Mr. Press. 

Empresário de Mim

Leopoldo Joe Nakata
Finalista, drama

Um curioso curta musical que contrasta com os filmes convencionais sobre favelas. Mostra um motoboy que acorda cedo já cantando sobre as vantagens de ser “empresário de si mesmo” e louvando o empreendedorismo. Ele sai da favela cantando com outros moradores, numa realidade colorida e sempre otimista. Mas o final cai nos clichês dos filmes brasileiros convencionais.

Midnight Serenade

Leopoldo Joe Nakata
Finalista, drama

Poster do filme Midnight Serenade | Foto: Divulgação/WAIFF

Mais um curta finalista de Leopoldo Joe Nakata. Berlim, 1963: num trem para Munique, um homem está sentado com uma pasta na mão, preocupado com a vigilância dos policiais. Outro homem se senta próximo a ele. Os dois trocam suas pastas. Parece uma história de espionagem, mas o motivo para a troca é completamente outro. Quando o cinema brasileiro teria condições, por vias convencionais, de reconstruir o cenário da estação de Berlim de 1963 e usar um trem da época para a ação?

O Homem e o Mar

Guigo Gerber
Finalista, animação

Aqui, a tecnologia mais avançada encontra a tradição. Conta a lenda de um pescador baiano que naufraga e é salvo por Iemanjá. Gerber teve a ideia de criar os personagens como se fossem bonecos de barro, típicos do artesanato do nordeste brasileiro.

Warped Memories

Pedro Bayeux
Prêmios de melhor documentário e melhor filme do festival

Cena do filme Warped Memories | Foto: Divulgação/WAIFF

Este é um prêmio polêmico. Bayeux sem dúvida fez uma obra visualmente deslumbrante, com um tratamento gráfico que surpreende a cada momento. Ele mostra que o cinema com IA não tem limites visuais, você pode fazer o que quiser desde que acerte no prompt. Por outro lado, a narração verborrágica e cheia de citações em tom fúnebre cansa depois de algum tempo. E o filme passa o tempo todo falando mal das novas tecnologias, dizendo que estamos perdendo a memória e nos afundando numa amnésia coletiva. O que parece ser uma injusta contradição com os recursos que tornaram este belo filme possível.

True

Rodolfo Roth
Prêmio de melhor curta de fantasia

Outra boa surpresa visual. A história mostra duas realidades em choque. Uma distópica, com robôs destruindo a humanidade, e a outra utópica, com uma cidade idealizada, eco-tecnológica. A narrativa não é muito coerente, mas isso é proposital. O curta é feito para confundir nossos sentidos e nos fazer perder o rumo da verdade absoluta.

Die in Peace

Nyko Oliver
Prêmio de melhor longa

Cena do filme Die in Peace | Foto: Divulgação/WAIFF

Um “longa” em IA por enquanto dura cerca de meia hora. Die in Peace começa com o treinamento de soldados brasileiros. O protagonista é Daniel, filho de um oficial, que adora a vida militar. Ele tem uma mulher dentro da corporação, e os dois até vivem uma rápida e discreta cena de sexo. Daniel então decide participar de uma guerra no fictício país chamado “Varzélia”, que se parece muito com a Ucrânia invadida pelos russos. É atingido e seu corpo quase morto acaba servindo para o experimento de sua transformação num supersoldado ciborgue — ao estilo de Robocop. Vira um zumbi matador enquanto sua mulher, no Brasil, descobre que está grávida. De repente, o filme dá um cavalo de pau. A Varzélia vira uma espécie de Venezuela. Seu presidente agora fala em espanhol e diz que vai defender os minérios do país. Segue-se uma imitação da operação de captura de Nicolás Maduro. 

Frio

Marcelo Presotto
Prêmio de melhor curta de drama

Cena do filme “Frio” | Foto: Divulgação/WAIFF

Simplicidade absoluta. Um mendigo vaga pelas ruas no inverno. Ninguém o ajuda. Um flashback mostra que ele foi expulso de casa pela mulher por causa de seu alcoolismo. Sua única amizade passa a ser a de um cachorro, igualmente solto nas ruas e passando frio.

Eu Sou Diferente

Marcelo Presotto
Finalista fantasia

Outra obra de Pesotto, que desafia quem diz que obras de inteligência artificial não transmitem emoção. Uma mãe dá à luz um bebê lobisomem. O “diferente” é rejeitado desde o berço, sofre bullying na escola, mas, conforme cresce, passa a ser temido até surpreendentemente se tornar um empresário de sucesso. Seu final é solitário — e feliz. 

O Jardineiro das Cinzas

Marcos Junior
Finalista drama 

Em uma das muitas produções com tema apocalíptico, esse curta consegue inovar. Numa cidade dominada pelo branco da neve e pelas cinzas das explosões, um garoto se esforça para preservar alguma cor na paisagem. A história é contada através das cores, ou da ausência delas. Um filme praticamente impossível de ser produzido por meios convencionais.

Hallucination

Milton Montenegro
Prêmio de melhor animação

Um dos mais interessantes da mostra. Um velho artista (analógico) chamado Joseph K (clara referência a Kafka) é preso por “agentes de IA”. A acusação é de plágio na criação de seu super-herói chamado Homem Cebola. Joseph fica numa cela cinzenta. Seu herói chega para salvá-lo. Mais uma obra em IA que critica a IA. Mas sua concepção artística e sua produção são tão boas que dizer que Hallucination é “nível Pixar” não é nenhum exagero.

Blue Bird

Adriana Peliano
Finalista de melhor diretora

Adriana produz em IA um tradicional conto de fadas francês do século 17. A narração cansa um pouco por ser muito literária. Mas mostra o talento de Adriana Peliano como uma autora de narrativas visuais fantásticas, como pode ser conferido em Oscura, que não participou do WAIFF.

Grippy

Felipe Valério
Prêmio de melhor peça publicitária

A IA já está presente na publicidade, ainda que a gente às vezes nem perceba, tamanho o realismo. Em Grippy, Felipe Valério vende o conceito de um polvo feito de crochê com criatividade e muito bom humor. 


dagomirmarquezi.com
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