Quando comecei na carreira de escritor, a tecnologia mais avançada era a máquina de escrever. Na faculdade, descobri o primeiro computador, um mainframe da IBM, que usava cartão perfurado. Mais tarde, ganhei acesso a um terminal de vídeo. Era uma coisa espantosa: você digitava e o computador armazenava o texto, que podia ser alterado depois. Havia limitações: o computador não permitia acentos, por exemplo. O primeiro processador de texto que eu usei — pelo que me lembro, o Arndt Text Formatter, criado pelo professor Arndt von Staa, da PUC-RJ — já colocava acentos e alinhava o texto. Era fascinante.
Com a chegada dos microcomputadores 286 rodando DOS, eu conheci o WordStar, que além de acentuar e alinhar, permitia encontrar e substituir palavras, formatar em negrito ou itálico e, mais tarde, até fazer correção ortográfica. Quando a Microsoft conquistou hegemonia, eu passei a usar o Word. Não houve nenhum avanço significativo até surgir a Inteligência Artificial (IA).

Grok e ChatGPT são assombrosos. Parece que você está conversando com uma pessoa, alguém que entende de tudo e que consegue escrever tão bem quanto você. Aliás, nunca se escreveu tanto. Essa tendência deve ter começado com o Orkut, a primeira rede social. Afinal, “produzir conteúdo” significa, em grande parte, escrever. O problema é a dificuldade generalizada de expressar ideias por escrito — limitação observada, inclusive, em pessoas cuja profissão exige que elas escrevam regularmente. A principal razão para isso é a degradação do sistema de ensino, somada à tendência de glamourizar a ignorância como se ela representasse uma vertente cultural.
É cada vez menor o número de pessoas capazes de organizar pensamentos na forma de texto, usando uma linguagem razoavelmente clara e comunicando-se efetivamente. Não é surpresa que a IA tenha preenchido esse vácuo. Uma colunista de um grande jornal foi flagrada usando IA para escrever sua coluna; quando questionada, enviou uma resposta escrita por IA. O jornal poderia economizar dinheiro — assumindo que a colunista é remunerada — fazendo uma assinatura do Grok. Textos gerados por IA já apareceram até em decisões judiciais.

Não há dúvida de que, em determinado momento, a inteligência artificial ultrapassará a humana — é o que o futurista Ray Kurzweil chama de singularidade. Quando isso acontecer, a menor das nossas preocupações será com os textos produzidos por IA. Sistemas de inteligência artificial se comunicarão uns com os outros diretamente, e a linguagem que eles usarão dificilmente será algo reconhecível por nós. Até que isso aconteça, o uso da linguagem continuará sendo uma arte. Como em toda arte, há mais consumidores do que produtores. É inevitável que muitos se socorram da IA para escrever. Por enquanto, textos produzidos por IA deixam uma espécie de impressão digital, detectável — vejam a ironia — por sistemas de IA.
Ferramentas de IA são úteis para quem escreve, principalmente na coleta, organização e classificação de informações. Pesquisar com IA pode ser mais eficiente do que pesquisar com o Google, mas é preciso cuidado. Todos os sistemas de IA que já usei têm um viés ideológico progressista. Esses sistemas também inventam informações e até mentem. É fundamental solicitar fontes e conferir tudo. Sistemas de IA também são úteis para verificação de textos, não só no aspecto gramatical, mas também factual e lógico, tarefas que os processadores de texto nunca conseguiram realizar.

Mas para quem ama escrever — para quem escolheu fazer disso uma profissão e um instrumento de investigação do mundo — é incompreensível delegar esse privilégio a um sistema automatizado, mesmo que ele fosse perfeito.
Por isso, este artigo não foi escrito com IA.
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Somos contemporaneos… até hoje costumo escrever no bloco de notas tudo sem acento kkk e só por ultimo é que corrijo (isso quando corrijo) – Com o office ficou tudo mais facil, porém como meu computador no lugar da memoria tinha uma ‘vaga lembrança” (lembra das memorias EDO de 2 vias?) ia no bloco mesmo – o bichinho sofria feito um condenado quando a mulherada cismava de deixar o texto “bonitinho” e nao funcional – quem viveu essa epoca deve lembrar… PS: nunca precisei de IA pra nada… cabeça existe p usar e nao dividir orelhas….
E tende a piorar, já que o mundo está tomado pela mediocridade … 😓
Algumas pessoas, alem da inteligencia artificial, usam da burrice real.
Exatamente isso.
Escrever vicia, é bom demais, e a gente não vive sem.
Adoro uma cervejinha. Não me venha com uma sem álcool.