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O ministro Kassio Nunes Marques irá presidir o TSE em julho de 2026 | Foto: Rosinei Coutinho/STF
Edição 311

A cena muda

Nunes Marques, indicado por Bolsonaro, comandará o TSE na reta final da campanha

Embriagado de admiração pela própria imagem, Lula saboreou a homenagem recebida na Marquês de Sapucaí como se não houvesse amanhã. Mas há. Ainda que não tenha visto motivos para proibir a realização da gigantesca propaganda eleitoral disfarçada de desfile, a ministra Cármen Lúcia — que ora acredita que o “cala-boca já morreu”, ora entende que é preciso controlar o que dizem “213 milhões de pequenos tiranos soberanos” — deixou o alerta: “Não parece ser um cenário de areias claras de uma praia, parece mais areia movediça”, afirmou em seu voto. “Quem entra, entra sabendo que pode afundar”. Em junho, Cármen deixará a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que passará a ser ocupada por Kassio Nunes Marques, com André Mendonça como vice. O Palácio do Planalto tem motivos para ficar de olho na consistência da areia.

Nomeados para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Nunes Marques e Mendonça passaram os últimos anos à sombra dos arroubos de Alexandre de Moraes, das manobras de bastidores de Gilmar Mendes e das bravatas de Flávio Dino, fora o resto. Na maior parte do tempo, mantiveram-se longe dos holofotes, principalmente Nunes Marques — Mendonça chegou a protagonizar debates tensos quando ousou discordar do imparável Moraes. Agora, no entanto, chegou a vez de ambos exercerem algum protagonismo. Depois de Mendonça ter assumido a relatoria do caso Master em substituição a Dias Toffoli, Nunes Marques começa a entrar em cena. Muitas vezes chamados de “mudinhos do Bolsonaro” pela pouca visibilidade, ambos têm a oportunidade de mudar este cenário.

Ministro Kassio Nunes Marques | Foto: Alejandro Zambrana/Secom/TSE

Nascido em Teresina em 16 de maio de 1972, Nunes Marques graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Piauí, com especialização pela Federal do Ceará, mestrado em Lisboa e doutorado em Salamanca, na Espanha. Integrou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de seu Estado e, nomeado pela ex-presidente Dilma Rousseff, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Primeiro indicado por Bolsonaro ao STF, assumiu em 5 de novembro de 2020 na vaga de Celso de Mello, que se aposentou. Em momentos difíceis, costuma se apoiar na fé católica — já Mendonça foi o indicado “terrivelmente evangélico”, na definição de Bolsonaro.

Desde então, em parte pela personalidade reservada, em parte pelos atropelos dos pares, manteve-se discreto. Em condições normais, seria algo a ser enaltecido. A juízes de quaisquer instâncias é recomendado seguir o exemplo de árbitros de futebol: quanto menos aparecer, melhor. Não tem sido assim na atual composição do STF, dada mais ao histrionismo do que à sobriedade.

Ministro Alexandre de Moraes, do STF | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Ministro Alexandre de Moraes | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Na eleição de 2022, sob a presidência de Alexandre de Moraes, o TSE tomou decisões que geraram controvérsias por supostamente serem prejudiciais à candidatura de Bolsonaro ou favoráveis à de Lula, ferindo assim o princípio da isonomia, um dos pressupostos de uma eleição democrática. Casos como a rejeição de ações que pediam punições a Lula por propaganda irregular ou a determinação de exclusão de conteúdos considerados falsos ou ofensivos ao sistema eleitoral por parte de Bolsonaro são apenas alguns dos exemplos. Muitas vezes a areia se revelou movediça.

Nunes Marques já entrou em campo. Embora ainda faltem oito meses para as eleições, é agora que são definidas as normas que irão orientar eleitores, candidatos e partidos. Em sessões nesta e na próxima semana, estão sendo discutidos, entre outros, aspectos como calendário, cronograma, regras para divulgação de pesquisas, fiscalização, registro de candidaturas, prestação de contas, fundo eleitoral, propaganda e, principalmente, o que é e o que não é crime eleitoral. A elaboração do que está sendo debatido agora foi coordenada por Nunes Marques, atualmente vice de Cármen Lúcia no TSE, e incluiu a realização de audiências públicas. As regras ainda terão de ser aprovadas em plenário e publicadas até a próxima quinta-feira, 5 de março.

Se no Brasil o ano costuma começar depois do Carnaval, para a candidatura de Lula se iniciou ali um período de apreensão. O desfile-comício realizado pela Acadêmicos de Niterói, cujo fiasco de conteúdo e técnica resultou no rebaixamento da escola à “segundona” do Carnaval carioca, é alvo de denúncias junto ao TSE. A presença de Nunes Marques na presidência da Corte — e Mendonça na vice — é importante não porque ele possa ser especialmente duro em relação a Lula, e nem é desejável que assim seja, afinal, juízes devem se ater ao mero cumprimento da lei. Não importa quem indicou quem, que se cumpra a Constituição. Mas ao menos garante que o atual inquilino do Palácio do Planalto não estará nas mãos de um magistrado brando demais, quase leniente, em relação à sua candidatura. Ao menos é o que se espera.

Partidos como Novo, Missão e PL ingressaram com ações no TSE pedindo a inelegibilidade de Lula por propaganda eleitoral antecipada. Acostumado a ver no STF um parceiro, o petista sabe que desta vez a situação está longe de ser tranquila. Tanto sabe que recuou diante da advertência de Cármen Lúcia, que não quis censurar o Carnaval eleitoral de 2026, apesar de não ter visto problemas em censurar um documentário sobre Bolsonaro em 2022. A magistrada citou um “risco muito concreto, plausível, de que venha a acontecer algum ilícito”. Diante disso, Lula determinou que os ministros se abstivessem de participar e conseguiu segurar até mesmo os ímpetos de dançarina da primeira-dama Janja. Tudo para reduzir as possibilidades de incorrer em tais “ilícitos”. 

Muito tarde. Muito pouco. O bloco já estava na rua, com conteúdo cujos excessos chocaram até mesmo quem esperava pelo pior. Estrago feito, o jeito foi inverter os papéis e posar de vítima, alegando que a oposição estaria usando imagens do desfile para atacar o governo e que estaria havendo impulsionamento ilegal das críticas ao Planalto. Não vai colar. O que houve foi propaganda eleitoral antecipada — e agressiva contra boa parte da população. É disso que se trata.

Ministro André Medonça | Foto: Alejandro Zambrana/Secom/TSE

No comando do TSE, além de Mendonça, Nunes Marques terá a companhia de Dias Toffoli. A composição do tribunal inclui ainda três integrantes do STJ e dois juristas “advindos da advocacia”, na definição do órgão. Embora se trate de um colegiado, a exemplo do Supremo, o posicionamento do presidente é definidor.

Neste ano eleitoral, o TSE estará sob o comando de um juiz considerado garantista, isto é, comprometido com o cumprimento da Constituição. Dito assim, parece óbvio. E revelador. A expressão só faz sentido num país em que políticos consideram honestidade virtude a constar no currículo, e não simplesmente obrigação. De qualquer modo, é uma notícia boa para os brasileiros decentes, e nem tão boa para Lula. Já a liberação do desfile por Cármen Lúcia, à primeira vista, uma ótima notícia para o PT, pode se converter num tremendo gol contra.

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6 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Esse Supremo é tão correto que inventaram a PEC da bengala e o Barroso saiu antes de completar, por quê, tem que fechar as portas imediatamente antes que Trump mande um avião que parece uma Arraia preta para o lago paranoá

  2. Daniel BG
    Daniel BG

    É um ano político com nossas possibilidades da implantação das urnas de 3ª geração, eletrônicas e auditáveis (através da emissão de 2ª via de voto impressa). Será que o “cor de âmbar” do advogado aposentado do PT, Barroso, aprende dessa vez?

  3. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
    JOÃO RICARDO ASTOLPHI

    Se estivéssemos em um país sério, o meliante sentado na cadeira presidencial ainda estaria preso, Bolsonaro seria reeleito e essa corte podre suprema já estaria fechada ou pelo menos, com grande parte de seus integrantes presa ou destituída. Mas, como estamos na Brazuela, onde grande parte da população é leniente e ignorante, nada mudará para melhor esse ano, o tal meliante não será inelegível e as caixas mágicas farão seu serviço (sujo!) em Outubro ou Novembro. Game over!

  4. Carlos Augusto Olivé Malhadas
    Carlos Augusto Olivé Malhadas

    Esse tem muito que provar, difícil as ações imorais em que discordou da quadrilha. A historia vai cobrar! não precisa beneficiar quem o indicou, apenas seja justo e imparcial. O que deveria ser obrigação de todos acaba virando qualidade … de ponta cabeça como diz o IBGE

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