O foco quase exclusivo do Brasil no enfrentamento aos crimes violentos obscurece outras ameaças estratégicas, como o terrorismo. Sendo líder mundial em número absoluto de homicídios, é natural que a mente e o coração de governantes, forças de segurança e até mesmo da sociedade civil estejam voltados a “apagar incêndios” antes de se debruçar sobre outras categorias de risco que, segundo uma concepção equivocada, não atingiriam os brasileiros. Trata-se, no entanto, de um posicionamento perigoso — e especialmente inadequado no atual contexto geopolítico global.
Por muitos motivos, o Brasil já é hoje um endereço disponível e convidativo para organizações terroristas. As transformações recentes no tabuleiro do terror global tendem a ampliar ainda mais o peso do país nessa arena. Entre essas mudanças estão o controle crescente exercido pelos Estados Unidos sobre as estruturas de poder na Venezuela, retirando do Hezbollah seu mais importante núcleo latino-americano; a situação de fragilidade do regime islâmico do Irã, que obriga seus proxies a se reorganizarem e a buscarem maior autonomia financeira; e a estrutura falida do Hamas em Gaza. Há outros exemplos.
O Brasil, assim como seus vizinhos sul-americanos, tem sido utilizado por organizações terroristas como base para radicalização, recrutamento, facilitação e financiamento ao terrorismo há décadas. Ainda assim, o país segue preponderantemente distraído, com exceção de alguns poucos órgãos atentos — a Polícia Federal (PF) tem realizado investigações e operações de contraterrorismo mais frequente e sistematicamente.
Um dos motivos dessa pouca atenção é a chamada “baixa percepção de ameaça terrorista”, termo usado por Christian Vianna de Azevedo, mestre e doutor em Relações Internacionais e pesquisador na área de Terrorismo e Crime Organizado Transnacional. “Se você pergunta se há terrorismo no Brasil, a maior parte das pessoas e tomadores de decisão — políticos, membros do sistema de Justiça e lideranças da sociedade civil — responde que não. É uma visão equivocada, pois o terrorismo não se resume ao ataque em si, mas também à cadeia de ações que o precede”, explica.
Recrutamento de brasileiros
A PF vem colecionando ações eficazes de prevenção a ataques terroristas nos casos de jovens radicalizados, por exemplo, pelo grupo terrorista Estado Islâmico. No fim de 2024, foi preso Thiago José Silva Barboza de Paula, que atuava como recrutador. Em março de 2025, Matheus de Aguiar Avelino foi capturado em São Paulo antes de executar um ataque suicida contra a sede da Polícia Federal. Já Fábio Samuel da Costa Oliveira foi condenado a sete anos de prisão por terrorismo ao tentar engajar quatro adolescentes no interior de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na semana passada, a PF divulgou a prisão de Leonardo Claro Teles Rosa, em Bauru. O jovem de 18 anos também se preparava para um ataque suicida.
O Estado Islâmico utiliza as redes sociais como principal instrumento de recrutamento e atua globalmente. Seus alvos seguem um perfil recorrente: indivíduos de classe baixa ou média baixa, frequentemente enfrentando problemas sociais, financeiros e emocionais. Podem ser de qualquer ascendência, desde que compartilhem da ideologia do grupo. “São pessoas fragilizadas que estariam suscetíveis a serem cooptadas não apenas pelo Estado Islâmico, mas também por uma célula neonazista ou qualquer outro grupo terrorista ou criminoso que lhes oferecesse acolhimento. É um perfil bastante diferente do Hezbollah, que recruta, majoritariamente, dentro de comunidades xiitas libanesas, na sua busca por indivíduos capazes de exercer tarefas complexas”, explica Azevedo.
No Brasil, o Hezbollah tem um número ainda desconhecido de operadores: desde agentes de campo a funcionários de transporte e logística, contando também com advogados, contadores e operadores do mercado financeiro, além de empreendimentos envolvidos em operações milionárias de lavagem de dinheiro. Esses agentes não estão mais apenas em países vizinhos, como Bolívia ou Venezuela, nem restritos a cenários distantes como Iraque e Síria, ou mesmo à Tríplice Fronteira. Eles circulam pelas ruas das grandes cidades brasileiras. Ainda assim, o governo resiste em atribuir ao fenômeno a importância que ele exige.

A ilusão das Torres Gêmeas
A compreensão do terrorismo entre os principais decisores brasileiros permanece ancorada em imagens extremas: o colapso das Torres Gêmeas, em Nova York, após o ataque da Al-Qaeda em 2001, ou a explosão da sede da AMIA, em Buenos Aires, perpetrada pelo Hezbollah em 1994. São episódios que, felizmente, ainda não se consumaram no Brasil — e que ajudam a sustentar a falsa sensação de imunidade.
Leonardo Coutinho, especialista em Ameaças Transnacionais e diretor-executivo do think tank Center for a Secure Free Society (SFS), aponta uma raiz mais profunda para o problema. “A posição do Brasil é resultado de algo mais complexo do que acobertamento, cumplicidade ou covardia. É uma cultura política, militar e de segurança que atravessa as Forças Armadas, os organismos políticos e os órgãos de segurança. Trata-se de uma estrutura profundamente enraizada e contaminada.”
Essa mentalidade atravessa diferentes governos e espectros ideológicos, mas encontra ambiente particularmente favorável sob lideranças políticas alinhadas a países e grupos que toleram ou patrocinam o terrorismo.
Relação perigosa com o Irã
A política externa brasileira ignora deliberadamente o papel central do Irã no financiamento do terrorismo. Assim como a ONU, o Brasil insiste em tratar o Hezbollah, comprovadamente um proxy iraniano, apenas como um partido político libanês, o que impede o enfrentamento do grupo pelo que ele de fato é: uma organização multifacetada, que é também política, filantrópica, religiosa, social — e terrorista. Essa leitura míope permite ao Hezbollah ampla liberdade de ação no país para recrutar pessoas, realizar negócios, lavar dinheiro e estruturar operações destinadas a financiar a organização e suas atividades criminosas e terroristas pelo mundo.
Não é segredo que o Irã figura entre os principais financiadores do terrorismo global, disputando esse posto com o Catar. Em tempos de normalidade, Teerã responde por cerca de 70% do orçamento do Hezbollah. Ainda assim, o governo brasileiro mantém relações próximas com o regime iraniano.
“O Brasil tem portas abertas para o Irã”, afirma Coutinho. “Ignora sanções internacionais, recebe seus navios sem prestar esclarecimentos e coloca interesses nacionais em risco para proteger interesses iranianos sob o argumento de que busca a paz”.
Ele também cita o caso de servidores públicos brasileiros que adotam abertamente uma linha ideológica favorável a esses grupos clandestinos. “Observamos essa vertente crescer dentro da própria estrutura do governo, uma vez que o próprio presidente Lula faz declarações muito mais favoráveis a essas organizações do que contrárias a elas.”
Um exemplo é “Sayid” Marcos Tenório, fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina. Ele tornou-se notório ao publicar, em suas redes sociais, a imagem da soldada israelense Naamá Levy no momento em que era sequestrada por um terrorista em 7 de outubro de 2023. O comentário sobre a jovem, que estava com as calças manchadas de sangue na altura das nádegas, foi: “Isso é marca de merda”. Ela permaneceu 477 dias em poder do Hamas.
Figura conhecida no Congresso, Sayid — nome adotado depois de sua conversão ao Islã nos anos 2000 — é admirador declarado do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã e mandante da repressão violenta dos manifestantes civis que, em um mês, já provocou mais de 50 mil mortes no país. Atua há anos nos bastidores do poder em Brasília. Segundo Coutinho, seu papel é favorecer organizações como Hamas e Hezbollah, reforçando a resistência à designação desses grupos como terroristas e fomentando narrativas antissemitas.

Fraco no Líbano, forte no Brasil
O enfraquecimento militar do Hezbollah no Líbano não se traduziu em perda de poder global. Apesar dos duros ataques israelenses ao longo dos últimos dois anos, as células do grupo na diáspora permanecem intocadas. Matthew Levitt, autor de Hezbollah: The Global Footprint of Lebanon’s Party of God e criador do podcast Breaking Hezbollah’s Golden Rule, explica essa dissociação.
“Em 2009, o Irã enfrentou uma forte onda de manifestações, sofreu com a queda acentuada no preço do petróleo e foi alvo de mais um round de sanções econômicas. Isso obrigou o regime islâmico a cortar 60% do financiamento do Hezbollah, o que levou o grupo a diversificar seu ‘portfólio de negócios’ para repor a perda financeira”, enumera Levitt.
Neste último ano, o Irã voltou a enfrentar um momento difícil, motivado pela Guerra dos Doze Dias contra Israel, em junho de 2025, pela crise econômica, elétrica e hídrica e, mais recentemente, pelas manifestações populares que ocorrem no país. Segundo Levitt, espera-se que as redes criminosas do Hezbollah pelo mundo sejam ainda mais ativadas.
Em outras palavras, as dificuldades do Irã impulsionam o Hezbollah a se tornar uma potência transnacional com ramificações cada vez mais amplas, robustas e lucrativas, que surpreendem pela inventividade, pelo volume financeiro e pela diversidade. Isso pode ser visto no bem produzido documentário brasileiro Pacto Invisível: A teia clandestina entre o Oriente Médio, a Fé e a América Latina, da produtora Luz em Ação, com direção de Marcelo Enns.
O filme aborda diversos aspectos da atuação do grupo que garantem o seu êxito no Brasil, a exemplo do entrosamento com grandes grupos criminosos locais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), propiciado em grande parte pelo ambiente prisional. “Na América Latina, as prisões são verdadeiros centros de convergência. Ali as redes criminosas se fortalecem”, explica no documentário Joseph Humire, especializado em Redes de Ameaça Transregionais no Hemisfério Ocidental.
Galinha dos ovos de ouro
O Brasil é tido pelo Hezbollah como uma de suas “galinhas dos ovos de ouro”. Há mais de três décadas, o grupo opera aqui esquemas altamente lucrativos, sobretudo no tráfico de cocaína, contrabando e lavagem de dinheiro. O país é hoje a principal rota de escoamento dessa droga, conectando os produtores — Colômbia, Peru e Bolívia — e o Atlântico. Estima-se que 90% da cocaína, uma das drogas mais lucrativas do planeta, seja distribuída por mar.
O que é um ponto forte do Brasil na região — sua infraestrutura rodoviária, fluvial, portuária e aeroportuária —, aliado a pontos fracos, como a dificuldade de fiscalização em função do tamanho do território e a corrupção entre agentes de fiscalização, torna o país perfeito para essa função. E é isso que aparentemente faz com que o Brasil não tenha sido, até esse momento, alvo de atentados terroristas perpetrados pelo grupo.
“O Brasil é um paraíso para o Hezbollah. Aqui eles se sentem protegidos. Ninguém é tolo para atear fogo na própria canoa no meio do mar. No entanto, isso não garante nenhum tipo de imunidade, pois o fato de ataques não terem sido realizados no Brasil não significa que não possam ser planejados ou financiados a partir dele. Também não significa que o grupo não esteja radicalizando pessoas ali neste exato momento e preparando um futuro ataque em que o Brasil seja o alvo”, elabora Coutinho.
Esse quadro não desaparecerá — não enquanto o Brasil continua se confirmando como um terreno fértil para absorver tudo aquilo que rejeitam países como os Estados Unidos, o Canadá ou a Argentina, nos quais Hezbollah e Hamas foram designados organizações terroristas.
Como resume Eyal Zisser, pesquisador sênior do Moshe Dayan Center de Tel Aviv, “o terror sempre procura por brechas e desembarca naqueles lugares onde usufrui de mais oportunidades para operar”.
O flanco brasileiro está aberto.
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Vamos começar a combater o terrorismo por uma decisão política, jogar no lixo todas as urnas eletrônicas e fazer a eleição igual a da França