Nos últimos meses, o antiamericanismo ressurgiu mais uma vez como um flagrante preconceito na Europa, incentivado pela mídia tradicional e endossado com fervor pelas elites culturais do continente. Agora, há inúmeras campanhas para boicotar produtos americanos — a maioria dos entrevistados numa pesquisa na França disse que apoiaria um boicote a marcas americanas como Tesla, McDonald’s e Coca-Cola. Como um artigo no Euractiv colocou, o antiamericanismo “está na moda em toda a Europa”.
Isso foi escancarado nestas Olimpíadas de Inverno, realizadas no norte da Itália. Na cerimônia de abertura dos jogos de Milão-Cortina 2026, a equipe dos EUA e o vice-presidente J. D. Vance foram vaiados por uma multidão de mais de 65 mil pessoas. Um conhecido que esteve presente no evento me disse que as vaias foram espontâneas e se espalharam rapidamente. De acordo com a chefe de Política Externa da União Europeia, Kaja Kallas, os que vaiavam estavam exibindo o “orgulho europeu”. Parece que, para as elites de Bruxelas, o antiamericanismo reforça a autoestima da Europa.
O alvo explícito dessa volta do fervor antiamericano é, sem dúvida, o presidente dos EUA, Donald Trump. Mas implicitamente envolve todos os que votaram nele. Em um artigo de março de 2025 sobre o boicote a produtos americanos no Financial Times, em geral moderado, o autor entregou o jogo. Embora dizendo que é “errado confundir americanos com seu presidente”, o jornal argumentou que “também é errado desassociá-los completamente, [uma vez que] Trump representa metade da América. Ele reflete uma sociedade em que uma maioria democrática se dispõe a tolerar tiroteios em massa e um sistema político distorcido”.

Certos políticos estão sendo impulsionados por essa onda de antiamericanismo. O primeiro-ministro canadense Mark Carney, em particular, foi transformado no herói inesperado do establishment político europeu. Sua provocação a Washington o transformou no garoto-propaganda desse novo antiamericanismo. “A Europa tem muito a aprender com Mark Carney”, foi o veredito do New Statesman. O Guardian reverberou esse sentimento: “A Europa deve dar ouvidos a Mark Carney — e encarar a dor de se emancipar dos EUA”.
A raiva expressa contra os Estados Unidos parece ser a única emoção que une o establishment político europeu. Como um comentarista do Financial Times explicou no início deste mês: “Trump é o melhor inimigo que a Europa já teve”. Ele parece ter dado à Europa o “inimigo comum” de que ela precisa. Parece que o antiamericanismo é agora a cola que mantém unidas as elites europeias, normalmente desorientadas e divididas.
Em geral, a razão dada para essa virada contra os EUA é o comportamento de Trump em relação à Europa, especificamente suas ameaças de anexar a Groenlândia, impor tarifas e reduzir os compromissos dos EUA com a Otan. Sem dúvida, essas políticas desempenharam um papel importante em colocar as classes dominantes da Europa na defensiva. No entanto, elas não são a causa principal dessa onda de antiamericanismo. Pelo contrário, apenas trouxeram à tona preconceitos já profundamente arraigados na cultura das elites da Europa Ocidental.
Em seu fascinante estudo, Anti-Americanism in Europe, de 2004, Russell Berman associou o crescimento do antiamericanismo durante as décadas de 1990 e 2000 ao projeto de unificação europeia. Berman afirmou que, na ausência de uma identidade pan-europeia real, o antiamericanismo “provou ser uma ideologia útil para a definição de uma nova identidade europeia”. Ele observou que a principal forma de a Europa se definir como “europeia” é claramente se distinguir dos Estados Unidos.

O argumento de Berman foi apoiado pelo cientista político Ivan Krastev. Ele constatou em 2007 que a fúria antiamericana é maior entre as elites e a juventude da Europa. “Elites em busca de legitimidade e uma nova geração procurando uma causa”, escreveu ele, “são as duas faces mais visíveis do novo antiamericanismo europeu”.
A hostilidade das elites à América foi bem capturada por Matthew Karnitschnig em seu artigo no Politico: “Faz frio na Europa, a economia afunda e os nativos estão inquietos. Só há uma resposta: culpar a América”. Como Karnitschnig colocou, “apontar o dedo para o outro lado do Atlântico tem sido há muito a tática de distração favorita das elites políticas europeias quando as coisas começam a ficar complicadas no continente”.
Historicamente, o antiamericanismo europeu costumava enfatizar a inferioridade moral do povo americano e seu modo de vida. A revisão de Jesper Gulddal sobre o antiamericanismo na literatura europeia do século 19 mostrou que autores da França, Grã-Bretanha e Alemanha “argumentaram enfaticamente que a falta de tradição e cultura da América, bem como seu materialismo, vulgaridade, fanatismo religioso e imaturidade política, constituíam não apenas a essência do próprio ser deste país, mas também, de alguma forma, infestariam a Europa”.
O desprezo pelo estilo de vida americano sempre foi disseminado principalmente entre as elites intelectuais e culturais europeias. Na virada do século 20, o economista britânico Sydney Brooks atribuiu a hostilidade à América à “inveja de sua prosperidade e de seu sucesso”. “Os europeus”, escreveu ele, “ressentem-se profundamente do comportamento dos americanos… Eles odeiam o jeito americano de ostentar”. Eles enxergavam um país “completamente imerso no materialismo”.
Durante os anos da Guerra Fria, a elite cultural europeia continuou a ver a América com uma mistura de ressentimento e desprezo. “A América violenta, a América boçal, a América inepta, tornaram-se todas elas imagens cotidianas na Europa”, concluiu o embaixador dos EUA em Londres no início de 1987. Essa atitude piorou muito desde então. A conhecida autora britânica Margaret Drabble escreveu em maio de 2003, dois meses após a invasão do Iraque:
“Isso me possuiu como uma doença. Sobe à minha garganta como uma azia… Não consigo mais segurá-lo. Detesto a ‘Disneyficação’. Detesto a Coca-Cola. Detesto hambúrgueres. Detesto os filmes sentimentais e violentos de Hollywood que contam mentiras sobre a história.”
O nojo visceral de Drabble em relação à América era compartilhado em toda a Europa. O diretor de teatro alemão Peter Zadek deu vazão total aos seus preconceitos contra o povo americano durante a Guerra do Iraque:
“A administração Bush foi mais ou menos democraticamente eleita e teve o apoio da maioria dos americanos em sua Guerra do Iraque. Pode-se, portanto, ser contra os americanos, assim como a maior parte do mundo foi contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. Nesse sentido, sou antiamericano.”

Hoje, a ideologia antiamericana das elites europeias adquiriu uma nova dimensão. Está agora entrelaçada com seu medo e ódio ao populismo de direita que ascende na própria Europa. Como Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, escreveu no Guardian na semana passada:
“Os governos europeus estão apavorados com as ameaças de Donald Trump em relação ao comércio, à Groenlândia e ao futuro da Otan. Mas a maior ameaça não é de que Trump invada um aliado ou deixe a Europa à mercê da Rússia. É de que seu movimento ideológico possa transformar a Europa internamente.”
Leonard alertou que “um ano após o retorno de Trump à Casa Branca, sua ‘segunda revolução americana’ está se irradiando para a Europa”. Assim como Leonard, as elites da União Europeia (UE) estão preocupadas que a administração Trump possa impulsionar o desafio populista ao seu domínio. Vários comentaristas chamaram a atenção para a aliança entre movimentos populistas europeus e Washington. Como um deles colocou no início deste ano, “as democracias europeias estão enfrentando um ataque em pinça: externamente sob o fogo do governo americano e de empresas do Vale do Silício e, internamente, da extrema direita europeia”.
O argumento de que a Europa está sitiada por Washington e invadida por populistas não carece de mérito. Afinal, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, recentemente publicada, promove claramente o “cultivo da resistência à trajetória atual da Europa dentro das próprias nações europeias”. Apesar disso, essa “resistência” é, na verdade, um fenômeno interno. Seu futuro não depende de incentivo externo, mas de sua capacidade de continuar a dar voz ao povo da Europa.
Não há razão para pensar que a onda populista na Europa poderá diminuir quando Trump deixar a Casa Branca. As elites europeias, desconfortáveis com o princípio da soberania nacional, há muito direcionaram a tomada de decisões para longe do povo e para instituições de especialistas, organizações não-governamentais e órgãos internacionais. É esse profundo déficit democrático, e não a Casa Branca de Trump, que deu energia aos movimentos populistas. Eles apelam a vastas camadas dos povos europeus — àqueles, ou seja, que acreditam ter sido excluídos da tomada de decisões que afetam suas vidas.

É improvável, portanto, que o antiamericanismo cada vez mais estridente das elites europeias tenha poder suficiente para abalar a crescente influência dos partidos populistas. Nem para criar uma identidade europeia com grande apelo popular. Do jeito que as coisas estão, é provável que o antiamericanismo europeu imite a identidade remainer (“pessoa a favor da permanência na UE”) pós-Brexit. Assim como a antipatia dos remaineristas pela soberania nacional britânica, esse novo europeísmo tem pouca substância além de sua oposição à América de Trump.
No final das contas, o antiamericanismo serve como distração. Os líderes europeus preferem zombar da América de Trump a confrontar seus fracassos gigantescos e sua impopularidade. O antiamericanismo pode ajudar as elites a se sentirem melhor consigo mesmas, mas está ficando cada vez mais claro que isso não vai salvá-las nas urnas.
Frank Furedi é diretor-executivo do think tank MCC-Bruxelas.
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Artigo muito bem escrito, considerando a linguage perfeita e um conteúdo altamente explicativo que me levou à seguinte conclusão: DOR DE COTOVELO MEXE COM A CABEÇA E SEMPRE PARA O LADO NEGATIVO. Parabéns Franf Fured.
Esses europeus antiamericanos é a esquerda hipócrita que não tem amor próprio, permite a universalização dos povos de todo mundo mesmo sabendo que isso é impossível. Por achar que o ego é igual a intelectualidade, se transformando assim numa burrice coletiva a ponto de perder sua soberania
Mais que perfeito