Em 4 de fevereiro, a Variety publicou a manchete: “J. K. Rowling nega ter convidado Jeffrey Epstein para a estreia de Harry Potter & The Cursed Child na Broadway. Documentos do Departamento de Justiça mostram que ele foi barrado na porta.” É de se perguntar por que os editores sentiram a necessidade da primeira parte dessa manchete, que tem um tom acusatório — mesmo que a segunda parte a absolva.
Para sorte de Rowling, novas informações disponibilizadas como parte da divulgação compulsória dos arquivos Epstein pelo governo federal — 3 milhões de páginas liberadas em 6 de fevereiro — desmascaram essa campanha de difamação. Agora pergunto: e se Epstein, autor de esquemas e charlatão, cujo truque era se infiltrar no círculo dos ricos e famosos com o objetivo de manipulá-los ou chantageá-los, tivesse conseguido entrar de penetra no espetáculo?
Levando-se em conta a reação a essa última leva de arquivos do caso Epstein, Rowling estaria entre aqueles notáveis nomes atingidos por eles — seria considerada culpada, por insinuação, de cumplicidade nos crimes hediondos do mais infame dos predadores sexuais. Rowling, é claro, já é persona non grata entre os progressistas por causa de suas opiniões sobre questões transgênero, que são convencionais, mas tóxicas e impopulares entre a esquerda. Aí está o problema: os arquivos do caso Epstein se tornaram um acerto de contas para atores partidários e críticos precipitados a pessoas que se viram na órbita de Epstein — empreendedores ricos, acadêmicos, a elite cultural etc.
Isso não é desculpa para o comportamento abominável daqueles que, de modo consciente e deliberado, continuaram a buscar o favor de Epstein mesmo depois de revelada a extensão total de sua depravação. Bill Gates, Noam Chomsky, Steve Bannon e Stacey Plaskett são algumas dessas figuras. Bannon e Plaskett, em particular, buscaram o conselho político de Epstein até o fim de sua vida. Chomsky orientou Epstein sobre como se livrar das acusações contra ele. Gates é acusado de comportamento desprezível, o que ele nega.
O melhor que se pode dizer sobre a divulgação dos arquivos Epstein é que ela expõe a imensa pobreza de discernimento de vários indivíduos influentes no meio político. É informação útil, que o público tem o direito de saber. Mas a divulgação dos arquivos Epstein também significa que milhões de documentos contendo acusações frágeis, informações enganosas e falsidades descaradas agora inundam as redes sociais, dando um verniz de confirmação a rumores, fofocas e mentiras. Isso é muito proposital, já que o Congresso — por uma votação de 427 a 1 na Câmara — optou por divulgar tudo, incluindo transcrições de investigações e relatórios que nunca foram considerados verídicos.
Por exemplo, a última leva de documentos levou Keith Edwards, um estrategista democrata, a postar no X a afirmação de que Epstein foi quem apresentou o presidente Donald Trump a Melania e que isso agora está “confirmado”.
Não está. Só porque alguém disse isso, e um investigador tomou nota, não significa que seja verdade. Pelo contrário. Antes disso, Donald e Melania já haviam negado a veracidade da afirmação, e o site de notícias The Daily Beast foi então forçado a retirá-la do ar porque a cronologia oficial dos eventos a contradiz.
Temos aqui um caso claro de atores políticos de má-fé instrumentalizando os arquivos do caso Epstein para manchar a reputação de seus inimigos políticos — ainda que os novos documentos não provem absolutamente nada contra Trump. De fato, para figuras partidárias que estavam obcecadas com a noção de que esses documentos demonstrariam a cumplicidade de Trump nos crimes sexuais de Epstein, a revelação mais estarrecedora deveria ser que não há evidências disso, de forma alguma. Também não há evidências de que Bill e Hillary Clinton estavam envolvidos em uma sociedade secreta internacional de pedófilos.

No entanto, ninguém está corrigindo suas pressuposições. Pelo contrário, os que estavam interessados nos arquivos do caso Epstein, principalmente porque queriam evidências de que seus inimigos políticos eram estupradores de crianças, estão agora, em sua maioria, alegando que provas ainda estão sendo retidas. Assim como as pessoas que acreditam que o pouso na lua foi uma farsa e que a CIA matou John F. Kennedy, nenhuma quantidade de evidências em contrário os fará mudar de ideia.
Inicialmente, esse grupo incluía muitos dos fiéis do Maga (Make America Great Again, ou “tornar a América grande novamente”), que acreditavam estar prestes a expor uma rede global de pedofilia envolvendo os Clinton. Mais recentemente, a divulgação dos novos arquivos se tornou uma cruzada democrata, assim que os liberais se deram conta de que Trump também foi amigo de Epstein e talvez cúmplice em seus crimes. Novamente, não há nada que incrimine Trump ou Clinton. O deputado James Comer, do Partido Republicano, não aceitou um “não” como resposta, é claro. Ele pressionou os Clinton até que fossem depor perante o Congresso sobre Epstein.
Cão raivoso
Vale a pena repetir que o real vilão dos arquivos do caso Epstein é o próprio Epstein, um predador sexual perverso que abusou de garotas menores de idade. Ele provavelmente não é o único, e há outros indivíduos na órbita de Epstein que fizeram acordos com acusadores.

Mas os arquivos não contêm grande quantidade de novas evidências de crimes sexuais de amigos, associados e conhecidos de Epstein. No entanto, todos cujos nomes aparecem nesses documentos estão agora sendo tratados como criminosos sexuais. Isso inclui o gestor de fundos de hedge Glenn Dubin, que aparece em uma foto ao lado de três jovens, possivelmente na ilha de Epstein. No X, contas com grande número de seguidores citaram a foto como prova de que Dubin havia agredido sexualmente aquelas crianças, provavelmente arranjadas para ele por Epstein.
Mas não é esse o caso. Aquelas crianças são os filhos de Dubin!
Esta é uma mentalidade de caça às bruxas. Lembra o pânico público em relação à má conduta sexual nos campi universitários ao longo da década de 2010, em que estatísticas fajutas e jornalismo unilateral ajudaram a promover uma noção completamente falsa de que universidades de elite eram um “território de caça” para jovens mulheres. A ideia de que dezenas de estupradores caçavam universitárias, as atraíam para sótãos e as atacavam durante rituais depravados foi o cerne da infame farsa da Rolling Stone, posteriormente desmascarada.
Além disso, a divulgação dos arquivos pode criar um precedente perigoso. É absolutamente incomum para o governo federal retirar o sigilo de registros investigativos, que contêm relatórios sem corroboração. Este é um caso atípico, e há certamente um argumento de que a confiança pública no sistema de justiça exige a divulgação neste caso. Mas não posso ignorar a declaração do deputado Clay Higgins, do Partido Republicano, o único voto contrário à divulgação dos arquivos do caso Epstein.
“Se promulgada em sua forma atual, essa ampla divulgação de arquivos de investigação criminal, entregues a uma mídia raivosa, certamente vai atingir pessoas inocentes”, ele escreveu.
Alguém pode dizer que ele estava errado?
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Essa reportagem pra mim é inútil