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Foto: Montagem Revista Oeste/Freepik/IA
Edição 305

Carta ao Leitor — Edição 305

As manifestações no Irã e os pequenos produtores rurais expulsos de suas propriedades no Pará estão entre os destaques desta edição

O escândalo do Banco Master é a prova mais gritante da promiscuidade que marca as relações entre o poder público e o setor privado no Brasil. Depois de investirem milhões de reais num banco a caminho da falência — ou de garantirem cada um a sua fatia —, parlamentares, funcionários públicos, membros do Judiciário e até influenciadores digitais fazem o diabo para livrar do merecidíssimo castigo o vigarista Daniel Vorcaro, responsável pela maior fraude bancária da história do país.

Na reportagem de capa desta edição, Carlo Cauti detalha os tentáculos do monstro que ameaça causar um estrago sem precedentes no coração da Praça dos Três Poderes. As consequências dessa bandalheira têm potencial para atingir todas as instituições, com impacto especial sobre o Supremo Tribunal Federal. Eugênio Esber mostra que o silêncio dos ministros sobre o episódio se transformou em mais uma prova de culpa. E a tentativa de ocultar provas obtidas pela Polícia Federal equivale a uma confissão.

O caso Master tem um roteiro pronto para transformar-se num thriller policial. Mas cineastas e atores brasileiros preferem revisitar o fantasma de uma ditadura encerrada há mais de 40 anos. Como observa Guilherme Fiuza, esse truque ainda alimenta a carreira de políticos medíocres, reabilita corruptos, consagra internacionalmente filmes de qualidade duvidosa e transforma canastrões em gênios da tela. 

Wagner Moura, vencedor do Globo de Ouro por O Agente Secreto, enxerga quatro anos de ditadura no governo de Jair Bolsonaro, observa Augusto Nunes. Nesse período, não houve uma única prisão política. O Capitão Nascimento, hoje aposentado, contudo, não abre a boca para tratar do escândalo do Master ou do caso do roubo de aposentados e pensionistas do INSS. Tampouco critica um governo que, segundo Gustavo Segré, é bastante produtivo — mas produtivo só na geração de déficits estruturais, no crescimento da dívida pública, em contratos que favorecem aliados, em orçamentos secretos, no aparelhamento político, fora o resto.

Por falar em aparelhamento político, a reportagem de Anderson Scardoelli aponta mais um recorde da gestão Lula: em novembro de 2025, foi ultrapassada a marca de 50 mil cargos comissionados apenas na esfera federal. Entre outras façanhas, Lula também é campeão nas modalidades: informações sob sigilo, gastos com viagens, arrecadação de impostos, estatais deficitárias e “focos de calor” na Amazônia.

É precisamente nesse bioma que vivem milhares de pequenos produtores rurais que migraram para o Norte em busca de uma vida melhor — muitos atendendo a apelos do governo federal, que buscava ocupar a região “para garantir a soberania nacional”. Agora, estão sendo expulsos de suas terras pelo próprio governo por causa da demarcação de novas áreas indígenas. Artur Piva foi ao Pará e relata, numa reportagem especial, histórias de famílias que tiveram plantações destruídas, casas derrubadas e animais apreendidos por ordem do Ibama, da Funai e da Força Nacional.

Pobres e socialmente invisíveis, nenhum deles vai receber qualquer tipo de solidariedade dos que se fantasiam de defensores dos “pobres e oprimidos”. Também não deve esperar manifestações de solidariedade a população do Irã, sobretudo as mulheres, que enfrentam nas ruas uma ditadura real, repressiva e especialmente violenta.

Duas coisas chamam a atenção de Rodrigo Constantino nas manifestações do povo iraniano: “A brutalidade da reação do regime e o silêncio ensurdecedor de ativistas ‘democratas’ no Ocidente”. O apoio declarado de Donald Trump aos manifestantes e o respaldo de Israel ajudam a entender esse fenômeno. “Como a esquerda odeia Trump, se ele estiver a favor do consumo de água, seus detratores ficarão do lado da seca no deserto”, resume. Miriam Sanger descreve o estado atual do país, que já contabiliza mais de 12 mil mortos e dezenas de milhares de presos. Joanna Williams, da Spiked, escreve sobre a coragem e o desejo de liberdade das mulheres iranianas.

Num mundo que se autodestrói afogado em hipocrisia, Ana Paula Henkel e Alexandre Garcia acham necessário preservar o belo — que é também um ato de resistência. A conversa inteligente, os bons modos, a cortesia e o prazer de aprender diariamente iluminam a experiência humana. “Nada a ver com bens materiais”, afirma Garcia. “É a riqueza que se carrega por dentro e nas relações com os outros e com a natureza.” Como ensinou o filósofo Roger Scruton, a beleza importa.

Boa leitura.

Branca Nunes,

Diretora de Redação

Capa da Revista Oeste, edição 305 | Foto: Montagem Revista Oeste/Freepik

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4 comentários
  1. Wanderson Assis Campos
    Wanderson Assis Campos

    Ótima análise dos fatos, como de costume, Branca Nunes. A equipe da Oeste está de parabéns tanto pela capa quanto pelas reportagens.

  2. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Parabéns Branca Nunes, sempre em um texto preciso e excelente ao apresentar aos leitores da Oeste as realidades que teremos acesso.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Essa porra dessa praça dos três poderes deve ser invadida por uma Arraia preta e botar todos os bandidos ladrões comunistas narcotraficantes assassinos terroristas no xadrez, inclusive esse vagabundo ladrão desse Wagner moura esse viado e toda corja de ladrão da lei Ruanet

    1. Wanderson Assis Campos
      Wanderson Assis Campos

      O Wagner Moura de 2007, que foi o Capitão Nascimento, está sendo está na caricatura do oficial corrupto do filme Tropa de Elite. Ele enxerga no governo Bolsonaro uma ditadura que não existiu e, cujo “crime” foi ter jogado nas quatro linhas da nossa Constituição, que é pisoteada diuturnamente pelos “togados” que estão no STF, a quem o Lula intercede quando está em desvantagem, tanto no Congresso quanto no Senado.

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