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Guilherme Fiuza e seu livro "O Grande Circo" | Foto: Reprodução/ Redes sociais
Edição 305

‘A imprensa virou uma boutique para a burguesia se sentir virtuosa’

Em conversa sobre o seu mais recente livro, O Grande Circo, o escritor Guilherme Fiuza explica por que recorreu à sátira para expor o esgotamento do jornalismo tradicional

Com uma trajetória consolidada no jornalismo opinativo e na literatura de ficção, Guilherme Fiuza tornou-se uma das vozes mais notáveis da crítica à imprensa brasileira contemporânea. Autor de best-sellers, colunista e comentarista político desde muito antes de a polarização se alastrar pelo país, Fiuza construiu a carreira questionando consensos fabricados, desmontando retóricas moralistas e expondo os mecanismos de poder por trás do discurso supostamente virtuoso.

Em O Grande Circo, seu livro mais recente, essa crítica ganha forma literária: uma farsa narrada em primeira pessoa por um jornalista da grande imprensa, personagem que assume sem pudor a lógica da inversão dos fatos, do oportunismo e da manipulação da narrativa. A escolha não é casual. Como Fiuza explica nesta entrevista, a sátira surge como resposta a um jornalismo que passou a seguir uma cartilha ideológica. A chamada imprensa tradicional trocou a apuração pelo proselitismo, o equilíbrio pela militância performática e a função fiscalizadora por uma relação simbiótica com o poder.

Ao longo da conversa, Fiuza revisita o momento em que a imprensa brasileira abandonou o papel de mediadora da realidade para se tornar porta-voz de um poder artificial; analisa a naturalização da violência retórica contra a direita; critica a transformação de pautas humanitárias em slogans sem significado; e aponta como a dependência financeira do Estado corroeu a credibilidade do jornalismo tradicional.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Grande Circo foi publicado pela Editora Avis Rara | Foto: Divulgação/Editora Avis Rara

O senhor optou por escrever O Grande Circo em tom de farsa, em primeira pessoa, como se fosse o editor da grande imprensa. Por que escolheu essa estratégia narrativa?

A ideia do Grande Circo surgiu do programa Outra Coisa, de Oeste. Foi uma proposta do publisher da revista, Jairo Leal, de se criar um programa de fim de semana que tivesse um tom mais leve, fosse mais de variedade. Um dos quadros que o programa tinha no início chamava “Imprensa é a maior diversão”. É claro que ironizávamos o ponto a que o jornalismo tinha chegado de absurdo, de inversão das coisas e tal. Era diversão no sentido de ser ridículo. No programa, esse quadro foi se ampliando pela infinidade de manchetes risíveis que a gente ia vendo pela imprensa. Então, o programa virou inteiro uma paródia cômica do que é a imprensa hoje. E, aí, surgiu a ideia de escrever O Grande Circo e assumir o papel de um jornalista farsante, porque achei que ficaria mais divertido e resultaria em uma comunicação mais eficiente se eu assumisse o papel do personagem principal.

“A mídia independente surge, mas muitas vezes cai na tentação de fazer proselitismo inverso.”

Um dos capítulos do livro é sobre a tentativa de assassinato contra o então candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. Por que o senhor decidiu citar esse tema?

Quando houve o atentado contra Trump, em julho de 2024, íamos entrar ao vivo. Dez minutos antes, tivemos a notícia da tentativa de assassinato. A gente tentou obter as informações, e a imprensa buscava quase que abafar o caso, minimizá-lo, por meio daquelas manchetes evasivas. No livro, ponho em cena o raciocínio do jornalista farsante: Trump sofreu um atentado, mas não morreu. Isso se transformará em capital político para ele. Então, como fazer para lucrar de alguma forma com essa notícia? Basta abafar o caso.

A sátira, hoje, é mais eficaz do que a denúncia direta para expor distorções da mídia? 

Não diria que a sátira é sempre mais eficaz do que a crítica direta, mas acho que é frequentemente eficaz por dois motivos: primeiro, o absurdo da distorção do jornalismo tradicional foi longe demais. Então, muitas vezes, trata-se de você mostrar ali o absurdo e dizer: é absurdo. A sátira faz isso melhor, porque não precisa explicar. O bizarro fica exposto mais claramente. O segundo motivo é porque se trata de uma conjuntura muito inflamada, de muita agressividade para todos os lados. Isso é inevitável pelo nível de conflitos a que se chegou. E, apesar de estar fazendo a crítica, a sátira tem uma forma mais leve e não machuca tanto quem recebe a informação.

Em que momento o senhor percebeu que a imprensa deixou de errar pontualmente e passou a operar ideologicamente?

A gente pode demarcar a virada do século 20 para o 21 como o momento em que a imprensa deixa de errar e passa a usar cartilhas. Não a imprensa toda, mas parte considerável dela. A imprensa tentou reagir à chegada da internet. Infelizmente, a imprensa virou uma vendedora de cartilha de falsa virtude. Virou uma boutique para a burguesia se sentir com grandeza. Todos os valores humanitários desenvolvidos ao longo do século 20, depois das guerras e dos regimes totalitários derrotados, foram transformados numa feira de slogans. Bandeiras importantes passaram a ser usadas para acirrar conflitos, apontar o dedo e culpar quem não repete determinada cartilha. Isso virou um modus operandi generalizado.

Na sua avaliação, a imprensa brasileira ainda se vê como fiscal do poder ou já se assumiu como parte dele?

A grande imprensa brasileira deixou de ser fiscal do poder e passou a ser um negócio oportunista de criação de poder artificial. Ela não tem ideologia. Basta olhar o histórico de veículos que já estiveram em todos os lados do espectro político. É um oportunismo muito incentivado por megafundações internacionais que se apresentam como beneméritas, mas investem nessas usinas de demagogia. Durante o período da Lava Jato, ainda havia reportagens investigativas em vários veículos. Isso deixou de acontecer. Mais recentemente, a imprensa passou a ser um adesivo ao sistema mais artificial possível de poder, com uma tintura “progressista” que é apenas tintura.

“Acho que os novos veículos vão ter de ser as novas escolas de um jornalismo de ponta.”

Existe hoje espaço para neutralidade jornalística ou isso se tornou uma ficção conveniente?

A neutralidade absoluta não existe, mas o equilíbrio existia. Hoje virou uma segmentação exagerada e pouco sadia. A velha mídia se transformou em proselitismo e se distanciou completamente da sua finalidade. A mídia independente surge, mas muitas vezes cai na tentação de fazer proselitismo inverso, o que é uma grande armadilha. Por isso, fui para a sátira. Essa polarização, em que todas as virtudes estão de um lado e todos os defeitos do outro, é pobre. A possível libertação desse período é sair dessa federação de nichos que dominou tudo. Não conheço imprensa militante. Existe falsa militância, que é oportunismo. Não é convicção, não é ideologia, é uma malandragem superficial. A imprensa cultiva um público burguês que sonha pertencer a uma elite iluminada. É um elitismo caricato. É uma mistura de objetivos fúteis: dinheiro, influência, prestígio, inserção social. Essa é a explicação para o que a imprensa se tornou.

A vitória de Trump em 2024 desmontou quais dogmas do jornalismo “progressista”?

A vitória eleitoral do Trump em 2024 rompeu parcialmente um sistema de conluio entre grandes plataformas e grande imprensa, admitido inclusive por Mark Zuckerberg, dono da Meta. A compra do X por Elon Musk foi decisiva para quebrar esse controle do senso comum. Foi uma ruptura desse arranjo de interesses que vampirizava a população.

No capítulo sobre Ainda Estou Aqui, o senhor critica a politização do cinema. Por que isso é um problema?

Não critico a politização do cinema. O que critico é a campanha. O filme foi usado para vender a narrativa de que o Lula seria a providência democrática. Isso não é fato. A crítica não é à linguagem política do cinema, mas à propaganda travestida de arte.

Como o senhor explica a adesão de economistas do Plano Real ao lulismo, mesmo com histórico oposto?

Não explico a adesão dos economistas do Plano Real ao lulismo — e acho que nem eles conseguem explicar. Pelo menos, nunca vi uma explicação, porque o lulismo é historicamente o oposto do que os economistas do Plano Real desenvolveram e legaram ao país de estabilidade monetária e fiscal. Então, esses economistas recomendaram, inclusive, voto em Lula em 2022. Deram até a impressão de que o governo seria de coalizão, de convergência, que teria gente experimentada e credenciada para comandar a economia. Mas não era nada disso. A economia no governo atual é tocada por esses quadros do PT que os economistas do Plano Real sabem e consideram que são defasados em termos de capacidade. Ficou parecendo uma conveniência para ficarem de bem com esse sistema artificial que apoiou Lula. Digo artificial porque não é por convicção, nem no setor financeiro, nem no setor jornalístico. Foi muito mais uma tentativa de fazer frente a um outro grupo de poder que eles não queriam que ficasse de jeito nenhum.

O jornalismo tradicional tem salvação ou será substituído por completo?

Não sei se o jornalismo tradicional tem salvação nos veículos que estão aí há muito tempo. Mas não acho possível uma sociedade saudável sem veículos de comunicação importantes. A decadência da imprensa é uma parte importante dessa degeneração. Acho que, se as sociedades conseguirem superar esse momento ruim, será necessário que se tenha grandes veículos de comunicação, como sempre houve, desde que existe um nível de civilização mais complexo e sofisticado. O senso comum precisa de referenciais de imprensa, de mídia. Nunca foi uma questão de verdade absoluta, isso é apenas um ideal. Mas o que sempre foi o oxigênio da democracia é a circulação livre da informação, dos fatos, a forma de refletir a realidade. Eu gostaria de ver esses veículos que estão aí se recuperando, mas não vejo muito como, porque foram longe demais. A maioria das pessoas está saturada, magoada por essa traição do jornalismo. Acho que os novos veículos vão ter de ser as novas escolas de um jornalismo de ponta.

Se você fosse editor-chefe de um jornal hoje, qual seria a primeira coisa a mudar?

Não sei o que iria fazer. É uma pergunta difícil, porque a primeira coisa é você olhar e ver que o público já está muito levado para um lugar de segmentação. As bolhas não se intercomunicam. Para o mesmo fato, você tem comentários completamente opostos, e isso é uma realidade perigosa. Não acho que isso venha de conflitos insuperáveis de princípios, mas de conveniências muito estimuladas, com alto grau de artificialidade. Você é convidado a ter pertencimento e aplauso se fizer o proselitismo da sua bolha. Então, o editor hoje tem um problemão: vai falar para quem? Eu tentaria tirar o sotaque. Tentaria evitar que o veículo parecesse um órgão de partido, como muitos hoje se parecem. Tentaria quebrar esse vício da polarização, que vejo como um falso dilema.

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4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Conheço Fiuza desde a década de 1980 quando era da veja. O que é mais importante hoje é fuzilar a esquerda no mundo todo

  2. Lourival Nascimento
    Lourival Nascimento

    AOS FATOS, OXENTE! TUDO PELO DINHEIRO, PELO PODER, COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ. NO ENTANTO, O AMANHÃ SEMPRE VIRÁ E TRARÁ CONSIGO O PESO E A FATURA DAS NOSSAS ESCOLHAS E NOSSOS ATOS. NÃO HÁ ABSOLUTAMENTE NADA QUE POSSA REVERTER ISSO!
    Os Ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso foram à Itália procurar o banqueiro pra lá de controverso, o tal de Daniel Dantas, pois Suas Excelências queriam criar contas em Dubai para homiziar suas fortunas em um paraíso fiscal. Mesmo Daniel Dantas, sendo o que é, não topou a empreitada. Desesperados, Barroso e Moraes viram no Daniel Vorcaro, um banqueiro kamikaze, a pessoa ideal para esconder suas fortunas multimilionárias. Alguém teve a “ brilhante “ ideia de entregar ao Vorcaro fortuna multimilionária, no desespero para escondê-la usando um Contrato mambembe com data retroativa, onde os três milhões e seiscentos mil reais pagos pelo Banco Master fossem o meio de lavar parte da fortuna multimilionária do casal Moraes. O único trabalho registrado da advogada Viviane Barci de Moraes resultou em fracasso estrondoso. “Queixa-crime foi movida contra Vladimir Joelsas Timerman em outubro de 2024. Assinada por Viviane, a ação acusa o fundador e gestor da Esh Capital de calúnia e difamação. Vorcaro perdeu em primeira e em segunda instância”. Não consta que a advogada Viviane Barci de Moraes tenha ido à Receita Federal, COAFI, Banco Central ou quaisquer outras instituições consignadas no Contrato mambembe. Luís Roberto Barroso emudeceu, como emudecem os covardes, mas Alexandre de Moraes seguiu tocando o terror, na certeza que Vorcaro fosse UM CAIXA FORTE INEXPUGNÁVEL, mas o angu desandou, a festa acabou, Alexandre de Moraes sentiu o peso, o tranco, a chacoalhada, engoliu o choro e fabricou outro INQUÉRITO DO FIM DO MUNDO. Experimentado na arte cafajeste, é inocência achar que se o Banco Master do Vorcaro foi liquidado, Vorcaro financeiramente tenha ido à lona. Já tem prepostos do Vorcaro na imprensa tradicional, influenciadores que farejam dinheiro como um tubarão fareja sangue, tratando Vorcaro como um injustiçado, que o Banco Central liquidou o Master arbitrariamente, que Vorcaro não tem dinheiro para despesas básicas, que está implorando a amigos dinheiro emprestado. Isso só torna mais densa a cortina de fumaça. Fornido na bandidagem do mercado negro do dinheiro e contas secretas, é pueril achar que Vorcaro não tenha aportado muito dinheiro em paraísos fiscais discretos, criptomoedas, ouro, dólares, euros e outros ativos, assim como que ele não tenha GUARDADO PROVAS que expostas derrubariam mais da metade da República, ele guardasse essas provas apenas aqui no Brasil. Não tem sentido, não tem nexo, não dá liga. As provas arquivadas não estão na nuvem, por óbvio, mas em lugares nada convencionais em diversos endereços mundo afora. Com 42 anos de idade, mesmo se for preso, Vorcaro terá dinheiro, paciência e resiliência bandida para viver muito bem fora do Brasil. A teia do Vorcaro é seu seguro de vida, mas também garante toneladas de nitroglicerina que engomadinhos da Republiqueta Bananeira não pagarão para ver. O LULA vendo seus comparsas expostos, como sempre se protegerá, mas a calça está muito curta e mostra acima dos joelhos. É como Baile da Ilha Fiscal, ou profecia do Barão de Itararé. “ “Restaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos”

  3. Josenildo Nascimento Melo
    Josenildo Nascimento Melo

    Excelente livro. Fiúza está correto ao evitar os extremos. A virtude está no centro já dizia o bom Aristóteles. Gostei da entrevista. Reservo um dia da semana pra ler a revista inteira. Geralmente faço isso logo que a nova edição é publicada. Parabéns a todos pelo trabalho árduo de nos dias de hoje; bem informar e com qualidade ao informar.

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