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A mudança histórica revela que a assimilação aceita no passado deu lugar à recusa dos imigrantes em renunciar às suas próprias tradições | Foto: Shutterstock
Edição 303

A Europa de Maomé

Há 60 anos, os imigrantes muçulmanos renunciavam a parte de suas tradições e aceitavam usos e costumes locais. Hoje, a assimilação foi banida

Theo Van Gogh estava pedalando em direção ao seu trabalho na rua Linnaeus, zona leste de Amsterdã, como fazia todos os dias às 9h da manhã. Naquele 2 de novembro de 2004, ele nunca chegaria ao escritório. No meio dos carros estacionados, surgiu um homem que atirou oito vezes contra o diretor de cinema. Caído no asfalto, Van Gogh ainda estava milagrosamente vivo. Mas Mohammed Bouyeri, cidadão holandês-marroquino de 26 anos, não teve piedade. Guardou a pistola, puxou um facão e o degolou. Parente distante do pintor Vincent Van Gogh, Theo faleceu no local.

Sua “culpa”: ter dirigido o filme Submissão, que relata a violência contra a mulher em sociedades islâmicas. O título da obra é uma tradução da palavra “Islã”.

O assassino do diretor fugiu atirando em várias pessoas que transitavam no local, após ter deixado um bilhete em cima do corpo ameaçando países ocidentais, os judeus, e fazendo referências a ideologias da organização terrorista egípcia Takfir wal-Hijra.

A morte violenta de Van Gogh gerou uma profunda indignação na Holanda e em toda a Europa. O Velho Continente parecia ter acordado de seu torpor. A crua realidade: o berço do Ocidente estava se islamizando. E os muçulmanos não só rejeitavam a integração como atacavam qualquer pessoa considerada “blasfema”. As políticas de portas abertas para a imigração se mostraram um fracasso. Era urgente inverter a rota. Não foi o que ocorreu.

A morte violenta de Van Gogh expôs o fracasso da integração, mas a Europa ignorou a urgência de mudar a rota das políticas de portas abertas | Foto: Shutterstock

Mais de vinte anos depois, o número de fiéis islâmicos na Europa continua crescendo, as mesquitas se multiplicam, as tradições judaico-cristãs que forjaram a civilização continental estão retrocedendo e, principalmente, o número de atentados não para de subir.

Em 2025, o fenômeno começou a se tornar ainda mais complexo, com inteiras porções de territórios europeus onde as forças policiais não entram e as leis não se aplicam. Só vigora a sharia, o conjunto de preceitos islâmicos que regula a vida dos fiéis. É o chamado “separatismo interno”, denunciado repetidas vezes pelo presidente francês, Emmanuel Macron.

Além disso, está se formando uma aliança entre partidos de esquerda e islamismo radical, definido pelos franceses como “islamogauchismo”, que já elegeu políticos extremistas, abertamente antissemitas, que não escondem seu ódio contra o Ocidente e mantêm ligações com grupos terroristas como Hamas ou Hezbollah. Um fenômeno que não se limita à Europa continental, mas que já está desbordando no Reino Unido e nos Estados Unidos, como demonstra a recente eleição de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York, ou Sadiq Kahn, como prefeito de Londres, ou Humza Yousaf, ex-primeiro-ministro da Escócia.

Rastros de sangue

Os ataques de 11 de setembro de 2001 foram um trauma para os Estados Unidos que persiste ainda hoje, mesmo sem terem sido realizados outros grandes atentados dessa magnitude em território americano no quarto de século seguinte.

Ao contrário, a Europa sofreu choques em intervalos regulares. Começando pelos atentados de Madri, em 2004, que devastaram a estação de Atocha. Ou os de Londres, no ano seguinte. O massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo em Paris. Os ataques contra o Bataclan e o Estádio da França. O caminhão lançado contra os turistas no calçadão de Nice. Os carros que invadiram os mercadinhos de Natal em várias cidades da Alemanha. Mesma modalidade assassina praticada na Rambla de Barcelona. O terrorista suicida que se explodiu no aeroporto de Bruxelas. O tiroteio contra o centro judaico na capital belga. E o homem-bomba no meio do público do show da cantora Ariana Grande em Manchester. Somente para citar alguns casos ocorridos desde o começo do século.

O massacre no Charlie Hebdo e os ataques ao Bataclan compõem uma lista extensa de tragédias que abalaram o continente desde o início do século | Foto: Shutterstock

A partir do ano 2000, a Europa enfrentou o maior número de ataques terroristas desde a década de 1970, quando grupos comunistas como a RAF alemã ou as Brigadas Vermelhas na Itália aterrorizaram o continente. Naquela época, os assassinos agiam em nome de uma ideologia, e hoje, de uma religião, o Islã.

Em vez de tentar resolver o problema limitando o acesso de novos imigrantes muçulmanos, monitorando os sermões nas mesquitas e expulsando os imãs radicais, os governos europeus decidiram fazer o oposto.

Wir schaffen das” (“Nós vamos conseguir”). Foram essas as palavras pronunciadas pela então chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em agosto de 2015, em plena crise dos imigrantes. O país estava recebendo milhares de pessoas vindo do Oriente Médio, principalmente da Síria. A sociedade alemã se questionava sobre a capacidade de absorver tanta gente em tão pouco tempo. A então líder do governo, mesmo sendo da CDU, um partido de centro-direita, decidiu jogar para a plateia, anunciando uma “nova cultura do acolhimento”.

Sessenta dias depois dessa declaração, haviam entrado na Alemanha cerca de 3 milhões de pessoas, quase todas muçulmanas. Foi o maior fluxo migratório da história desde as invasões bárbaras, há mais de 1,5 mil anos. A crise se instalou imediatamente, com os serviços sociais incapazes de gerenciar tanta gente em tão pouco tempo, hospitais sobrecarregados, disparada da criminalidade, escassez de habitações (tanto que os imigrantes acabaram sendo alojados até no ex-aeroporto de Berlim-Tempelhof) e um custo exorbitante.

Quatro meses depois da declaração de Merkel, ocorreu o Estupro de Colônia. Durante as comemorações do réveillon de 2016, cerca de 1,2 mil mulheres sofreram agressões sexuais em espaços públicos, onde foram cercadas e agredidas por grupos de homens de origem norte-africana e árabe. Muitas outras tiveram medo ou vergonha de denunciar. A maioria desses episódios ocorreu nos arredores da Catedral de Colônia, pouco distante de um abrigo público para migrantes. Foi o maior caso de violências sexuais registradas na Alemanha desde a chegada das tropas soviéticas em Berlim, no final da Segunda Guerra Mundial.

No mesmo ano, um imigrante tunisiano jogou deliberadamente um caminhão contra o mercadinho de Natal da Igreja Memorial Kaiser Guilherme em Berlim, matando 12 pessoas e ferindo outras 56. O pior ataque terrorista da história da Alemanha em quase meio século.

Hoje, na Alemanha, 25% dos habitantes não nasceram no país ou têm pelo menos um dos pais imigrantes. No Brasil, esse número é de apenas 0,5% da população.

Nos últimos dez anos, o país europeu registrou uma longa série de ataques terroristas de matriz islâmica. Algo desconhecido até então pelo público alemão. Os governos que se sucederam não conseguiram garantir a segurança da população, que reagiu nas urnas, votando em partidos mais à direita, como o Alternativa Para a Alemanha (AfD). O partido denuncia abertamente a islamização galopante e preza pelo fechamento das fronteiras e até mesmo pela “re-emigração”, ou seja, a deportação dos estrangeiros que não se integrarem à sociedade alemã, aceitando suas regras e seus valores. Em uma década, a AfD passou de 2% para 20% dos votos.

O crescimento da AfD para 20 por cento dos votos reflete a resposta das urnas à incapacidade do governo em conter a onda de terrorismo islâmico | Foto: Shutterstock

Imigração descontrolada

O desembarque em solo europeu de pessoas oriundas de países muçulmanos não é novidade. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha precisava desesperadamente de homens aptos ao trabalho e resolveu convidar cidadãos turcos. Chegaram centenas de milhares de Gastarbeiter (“trabalhadores convidados”, na tradução do alemão) da Turquia, do Marrocos e de outros países. A partir da década de 1960, centenas de milhares de algerianos foram morar na França, após o fim do domínio de Paris sobre aquela porção de Magreb. Muitos paquistaneses e bengalis se transferiram para o Reino Unido após as várias guerras que interessaram o subcontinente indiano. No entanto, eram migrações controladas, com números absorvíveis em comparação à população daqueles países.

A partir dos anos 1990 e ainda mais dos anos 2000, a entrada de islâmicos na Europa começou a ser em massa, com milhões de pessoas chegando em questão de semanas.

Em 1999, os imigrantes muçulmanos presentes na Alemanha eram cerca de 3,5 milhões, hoje são quase 6 milhões. No Reino Unido eram 1,5 milhão, hoje são aproximadamente 4 milhões. Na Itália eram menos de um milhão, hoje beiram 3 milhões. Na França, passaram de 4 milhões para cerca de 10 milhões em 25 anos. Essas estatísticas subestimam o real tamanho do fenômeno, pois muitos muçulmanos são clandestinos e não aparecem nos números oficiais. O que é certo é que Mohammad se tornou o nome mais usado em recém-nascidos de vários países europeus.

“Um dia, milhões de homens abandonarão o Hemisfério Sul para invadir o Hemisfério Norte. E certamente não como amigos. O invadirão para conquistá-lo, e o conquistarão povoando-o com seus filhos. Serão os ventres de nossas mulheres que nos darão a vitória”, declarou Houari Boumedienne, presidente da Argélia, durante um discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974.

O discurso de 1974 na ONU previu que milhões deixariam o Hemisfério Sul para conquistar o Norte usando a demografia como arma de vitória | Foto: Reprodução

Integração não é assimilação

Além dos números, a diferença com o passado foi também de natureza cultural. Há 60 anos, os imigrantes muçulmanos aceitaram se assimilar às populações dos países europeus onde escolhiam viver, renunciando a parte de suas tradições e adotando usos e costumes locais. Por exemplo, manter a religião uma questão privada ou respeitar a igualdade entre homens e mulheres. Era esse o pacto tácito. Muitos desses islâmicos estudaram em faculdades públicas europeias, tornaram-se empresários de sucesso, profissionais liberais ou altos funcionários públicos, e prosperaram.

Hoje a assimilação foi banida, muitas vezes por pressão das forças de esquerda europeias que a consideravam uma imposição pós-colonial. No seu lugar apareceu a integração, uma forma de convivência em que culturas diferentes não apenas são aceitas como também ostentadas. E a religião se torna um pilar central na identidade dos cidadãos.

Por isso, nas ruas da Europa começaram a aparecer burcas e véus islâmicos, as escolas foram pressionadas para não festejar mais o Natal e em muitos bairros foram instaladas placas em árabe. Se em 1965, em todo o território francês, existiam apenas cinco mesquitas, em 2000 eram pouco mais de 1 mil, e em 2025 esse número passou para quase 3 mil.

Demorou pouco tempo para que o identitarismo islâmico se tornasse ódio contra o país de acolhimento. Na França, 33% dos muçulmanos acreditam que a sharia, a lei islâmica, deve ser aplicada em todo o mundo, mesmo aos que têm outra fé. Mais de um terço dos islâmicos franceses demostraram apoio ao movimento integralista Irmandade Muçulmana. Pesquisas de opinião recentes mostram como os mais jovens são os mais fervorosos radicais religiosos. O número de ataques contra judeus explodiu. Cemitérios hebraicos e sinagogas são regularmente profanados. E todas as vezes que a seleção de futebol francesa joga contra um time árabe, na hora do hino nacional, a melodia da “Marselhesa” é atropelada por uma avalanche de vaias.

Os franceses perceberam o tamanho da encrenca e tentaram remediar. Há mais de 20 anos, foi aprovada uma lei que proíbe a exibição de símbolos religiosos em locais públicos. Uma tentativa de impor a laicidade à força. Não adiantou.

Em maio de 2025, os serviços secretos franceses publicaram um relatório sobre a situação das comunidades muçulmanas no país que chocou a opinião pública. Após três anos de pesquisas, a conclusão foi que o objetivo de boa parte dos muçulmanos que moram na França é o “separatismo ou até mesmo a subversão” e estabelecer o “islamismo político” no Ocidente. Segundo a inteligência francesa, muitas mesquitas, centros islâmicos e clérigos muçulmanos recebem recursos de governos estrangeiros, como a Turquia ou o Irã, que alimentam o extremismo religioso com sermões cada vez mais radicais para desestabilizar as sociedades ocidentais.

O relatório da inteligência francesa conclui que o objetivo de parte da comunidade muçulmana é promover o separatismo e a subversão no país | Foto: Shutterstock

Nos últimos anos, a França foi traumatizada com homicídios truculentos, como o do professor Samuel Paty, assassinado por um extremista islâmico na frente de sua escola depois de uma aula sobre liberdade de expressão, na qual ele mostrou caricaturas do profeta Maomé a seus alunos. Este ano, as tradicionais celebrações do réveillon na Champs-Élysées foram canceladas pela Prefeitura de Paris por riscos de um ataque terrorista.

“Sou contra a islamização da França”, declarou a atriz Brigitte Bardot em várias entrevistas no passado. A recém-falecida diva do cinema francês, que nos anos 1960 foi um símbolo de liberdade usando minissaias e consagrando sua vida aos prazeres do corpo, viu sua pátria retroceder ao obscurantismo. Ela não tinha dúvidas: os muçulmanos são “invasores, cruéis e bárbaros”.

A diva que foi símbolo de liberdade sexual nos anos 60 classificou a mudança demográfica como um retrocesso da França rumo ao obscurantismo | Foto: Reprodução

Como ela, muitos outros franceses decidiram reagir. O Reagrupamento Nacional, partido de Marine Le Pen, tornou-se a primeira força política na França. Nas eleições de 2025, um eleitor a cada três votou nele. Só não obteve a maioria absoluta na Assembleia Nacional por causa de manobras palacianas, que não poderão evitar uma vitória no próximo pleito.

Existem soluções

“Sabem por que temos zero ataques terroristas na Polônia? Por não termos imigração ilegal”, resumiu o eurodeputado polonês Dominik Tarczyński, do Partido Lei e Justiça. A Polônia recebeu milhões de refugiados ucranianos após a invasão russa. Mas zero imigrantes muçulmanos. “E isso não tem nada a ver com a religião ou com a islamofobia. É apenas uma questão de segurança”, argumentou ele em uma entrevista recente.

Dominik Tarczynski destacou a experiência que teve sob o comunismo na Polônia para criticar as ações de Moraes | Foto: Reprodução/Instagram
O eurodeputado atribui a ausência de ataques terroristas na Polônia à política de tolerância zero contra a imigração ilegal e muçulmana | Foto: Reprodução/Instagram

Assim como a Polônia, quase todos os países da Europa oriental se recusaram a aceitar fluxos de islâmicos. A União Europeia, que aboliu o “Feliz Natal” em suas comunicações internas para não ofender os muçulmanos em prol de um mais neutro “Boas Festas”, tentou impor a distribuição de imigrantes em proporção à população de cada país. Eles resistiram e preferiram ser sancionados do que abrir suas fronteiras. Todos os governos que mantiveram uma linha dura anti-imigração islâmica foram reeleitos. Como Viktor Orbán na Hungria ou Robert Fico na Eslováquia.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni decidiu também dar um basta à entrada descontrolada de muçulmanos. Um desafio titânico considerando a oposição de forças poderosas, como a própria UE, ONGs e até mesmo a magistratura.

No final de dezembro, uma megaoperação da polícia italiana desmantelou uma rede de apoio financeiro e logístico ao Hamas. Entre os presos está o líder dos palestinos na Itália, Mohammad Hannoun, acusado de desviar milhões de euros de doações em prol do grupo terrorista islâmico palestino. Em inúmeras fotos, Hannoun aparece com líderes políticos de partidos de esquerda italianos, entre os quais a ex-presidente da Câmara dos Deputados. No mesmo dia da prisão, o procurador-geral contra a máfia e o procurador de Gênova soltaram uma nota denunciando os “crimes de guerra cometidos pelo governo de Israel”. Se não fosse um perigo, pois são juízes, seria apenas delírio.

Leia também “A anatomia de uma fraude”

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3 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Brilhante artigo Carlo Cauti.
    Muitos países europeus dominaram parte significativa da África, Oriente Médio, Índia entre outros.
    Assumiram o discurso da esquerda e decidiram fazer a tal “reparação histórica”, sem qualquer critério ou controle.
    Estão pagando o preço da irresponsabilidade de governos que não souberam controlar suas fronteiras facilitando a entrada de imigrantes ilegais.
    A solução, se houver, será demorada e angustiante.

  2. Danielle Tocantins Moura Costa
    Danielle Tocantins Moura Costa

    Excelente reportagem, Cauti. Que Deus abençoe o mundo inteiro, nesse momento em que parece que vivemos um desvario coletivo.

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