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Foto: Revista Oeste/IA
Edição 303

A Era da Ladroagem

No primeiro quarto de século, o PT manteve a média de um escândalo por ano

Entre a fundação em 1980 e o fim do século 20, o Partido dos Trabalhadores reivindicou o monopólio da honradez, caprichando na expressão de mocinho de faroeste americano. Provocados pela primeira leva de prefeitos filiados à sigla, rasgões na fantasia não bastaram para escancarar a farsa: disfarçado de templo das vestais, havia um bordel onde avançavam os trabalhos de parto da corrupção em escala industrial. Quando Lula venceu a eleição de 2002, estava tudo pronto para a institucionalização da roubalheira facilitada pela participação ou protegida pela anuência do governo federal. Com o bando de volta ao local dos crimes, o primeiro quarto deste século será lembrado, na História Nacional da Infâmia, como a Era da Ladroagem.

Neste dezembro, a Revista Oeste fez a pergunta ao ChatGPT: poderia relacionar todos os casos de corrupção produzidos pelo PT no primeiro quarto de século? Resposta: “Posso — mas ‘todos’ (no sentido literal) é praticamente impossível, porque há centenas de casos municipais/estaduais, representações eleitorais, inquéritos, ações de improbidade etc.” Muita gente imaginava que a inteligência artificial só não encontraria respostas para três perguntas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Sabe-se agora que a IA ainda não consegue memorizar todas as roubalheiras consumadas pela seita que tem num ex-presidiário o seu único deus.

O PT não inventou a corrupção. Maracutaias de distintas dimensões ocorrem desde a chegada das caravelas de Cabral. Mas criou a figura do condenado à eterna impunidade e anexou o roubo que não dá cadeia aos usos e costumes nacionais. Tampouco se pode afirmar que Lula foi o primeiro presidente comprovadamente corrupto. Jânio Quadros, por exemplo, apossava-se sem constrangimento de boladas que recebia de financiadores ricaços. Os doadores não se queixavam. “Jânio é eleito por eles e governa para nós”, explicou-me o banqueiro Gastão Vidigal. “Nós” eram eles, os endinheirados. “Eles” éramos nós, o povo.

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PT não inventou a corrupção | Foto: Divulgação/Site do PT

Também não custa lembrar que o PT frequentemente agiu em parceria com outras siglas. Em 2002, a entrada de José Alencar na chapa encabeçada por Lula custou R$ 4 milhões, pagos a Valdemar Costa Neto, então presidente do Partido Republicano, o PR. Sim, ele mesmo, o político que continuou no comando quando o PR virou Partido Liberal, ou PL, e hoje apoia Jair Bolsonaro. Aquilo era um dinheirão quando o negócio foi fechado. Parece dinheiro de troco desde que as propinas negociadas pelos quadrilheiros do Petrolão passaram a ser calculadas em bilhões. Enfim, não custa ressalvar que o PT, líder disparado no ranking da corrupção por equipe, não abriga em suas fileiras o recordista individual Sérgio Cabral. Pertence ao MDB o ex-governador do Rio que se declarou “viciado em roubar”. No palanque, o parceiro Lula afirmou que todos os fluminenses tinham o dever moral de reeleger o amigo larápio.

Condenado a mais de 400 anos de prisão, Cabral foi socorrido pela mão amiga do Supremo Tribunal Federal e já está em liberdade. Faz sentido: o direito de ir e vir foi devolvido a todos os protagonistas e coadjuvantes das ladroagens que começaram há mais de 20 anos, sobreviveram à inesperada interrupção decorrente da entrada em cena da Operação Lava Jato e retomaram o ritmo inicial. Os integrantes do elenco do grande faroeste à brasileira recuperaram o direito de ir e vir. Já faz tempo que muitos vêm e vão no coração do poder reconquistado por Lula. Outros percorrem com animação o caminho de volta ao Planalto Central. Perto dos 80 anos, José Dirceu é candidato a deputado federal. Quer ressurgir em companhia do quase setentão João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados quando explodiu o escândalo do Mensalão. Foi o maior da primeira passagem de Lula pelo Planalto. Mas outros de menor calibre já haviam confirmado que a longa espera — o reizinho do partido disputara três vezes a Presidência — havia aguçado a gula dos súditos.  

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Condenado a mais de 400 anos de prisão, Cabral foi socorrido pela mão amiga do Supremo Tribunal Federal e já está em liberdade | Foto: Redes Sociais/Reprodução

A vocação para a gatunagem já se manifestara nas grandes cidades governadas pelo partido. Em Ribeirão Preto, o prefeito Antonio Palocci mostrou, ainda nos anos 1990, que até contratos com empresas coletoras de lixo podem render gordos lucros clandestinos. No início de 2002, o assassinato do prefeito Celso Daniel revelou a existência de uma máfia do transporte urbano. Em 2003, um diretor dos Correios, estatal entregue ao controle do PTB, foi filmado enfiando no bolso um maço de cédulas com a serenidade de quem está abrindo a janela da sala. A cena geraria tensões que resultaram na instauração em 2005 da CPI dos Correios, que se transformaria em CPMI do Mensalão depois de confirmado que o  Planalto montara um esquema de compra de parlamentares.                     

Entre a filmagem da propina entregue na sala dos Correios e a devassa das catacumbas do Mensalão, fez bastante sucesso o vídeo que registra uma conversa a dois ocorrida em meados de 2002, mas divulgada só em fevereiro de 2004. Convidado por Waldomiro Diniz, então presidente da estatal que administrava as loterias do Rio, Carlinhos Cachoeira, que começara como bicheiro e fizera fortuna como multimeliante em Goiás, topou encontrá-lo numa sala do aeroporto de Brasília. Precavido, tratou de gravar a conversa com uma câmera oculta. Com cara de pedinte profissional, Waldomiro tenta convencer Cachoeira de que faria um bom negócio se ajudasse a bancar a campanha de Rosinha Garotinho e Benedita da Silva. Em troca, entraria na lista dos autorizados a delinquir sem sustos no Rio de Janeiro. 

“Um por cento é pra mim”, confessa Waldomiro no momento mais picante e patético do encontro. Um por cento de quanto, isso nunca se soube. O que se sabe é que o negociante perdeu o cargo de assessor para Assuntos Parlamentares da Casa Civil, chefiada pelo amigo José Dirceu, com quem já dividira um apartamento em Brasília. Julgado no Rio, foi sentenciado a oito anos de cadeia. Dirceu teve de ceder o posto de capitão do time de Lula, mas permaneceu no comando da chefia da Casa Civil até ser colhido pela onda de cassações de mandatos que abalou a Câmara na primeira etapa do Mensalão. Em 21 de junho de 2005, ao entregar o cargo à “camarada de armas” Dilma Rousseff, o guerreiro do povo brasileiro prometeu percorrer o país para mobilizar suas tropas. Em 1º de dezembro, por 293 votos contra 192, teve o mandato cassado pela Câmara — e foi ganhar a vida em São Paulo como facilitador de negócios escusos.

O Brasil foi tão longe na ladroagem que pode estar perto de uma segunda e incontrolável Lava Jato.

Longe do palco do Mensalão, Dirceu compreendeu que o escândalo jamais se afastaria dele em 2012, quando começou o mais longo julgamento da história do Supremo. Com 38 réus, milhares de páginas e mais de 200 sessões, só terminou em março de 2014. Por quase dois anos, a TV Justiça equiparou-se em audiência às maiores redes de televisão. Encerrados os embates, 24 dos 38 réus foram condenados por crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Além de Dirceu, o grupo de punidos incluiu celebridades recentes como Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, e o operador financeiro Marcos Valério. Neste final de 2025, todos estão soltos.

Neste primeiro quarto de século, o PT viu em Dirceu o sucessor escolhido por Lula, o negociador trapalhão, o campeão de escolhas erradas e o pensador do partido. No momento, vê no guerrilheiro que só disparou balas de festim o futuro líder da bancada na Câmara. Habituado a bruscas oscilações, viveu com a mesma fisionomia temporadas no xadrez e períodos de liberdade. Na segunda década do século 21, o ministro Gilmar Mendes dispensou-o de vez do cumprimento de penas que, graças aos pontapés na lei desferidos tanto no caso do Mensalão quanto na roubalheira do Petrolão, somavam 31 anos. Perto disso, os 500 e tantos dias de gaiola amargados por Lula são o mesmo que nada. 

Enquanto os craques do time tentavam livrar-se da Justiça, esforçados principiantes suaram a camiseta vermelha para manter a média de um escândalo por ano. Em 2006, por exemplo, foram três, começando pela máfia dos sanguessugas. Comprovou-se que 112 parlamentares condicionaram a entrega de verbas federais a prefeitos nordestinos à utilização do dinheiro na compra de ambulâncias vendidas pela mesma empresa, a Planam — que retribuía a gentileza com propinas. Hamilton Lacerda, assessor do senador Aloizio Mercadante, foi preso quando tentava distribuir um falso dossiê que vinculava José Serra e Geraldo Alckmin à quadrilha dos sanguessugas. “Coisa de aloprados”,  disse Lula. Caso dos aloprados — assim foi batizado o escândalo. Também em 2006, as ocorrências numa casa em Brasília, batizada de “República de Ribeirão Preto”, frequentada por Antonio Palocci, resultaram na queda do ministro da Fazenda. A primeira.

A segunda seria consumada no primeiro ano de Dilma Rousseff na Presidência. Palocci caiu fora da Casa Civil 24 dias depois da divulgação do milagre financeiro: seu patrimônio crescera 20 vezes entre 2006 e 2010. Quando dezembro chegou, outros seis haviam deixado o governo. Alfredo Nascimento foi derrubado do Ministério dos Transportes por superfaturamento e pagamento de propinas. Nelson Jobim se foi do Ministério da Defesa por ter criticado publicamente companheiros de governo. Wagner Rossi caiu do Ministério da Agricultura, empurrado por irregularidades na Companhia Brasileira de Abastecimento. Pedro Novais perdeu o Ministério do Turismo por usar funcionários públicos para fins particulares. Orlando Silva voltou à planície por desvio de dinheiro do Programa Segundo Tempo. Carlos Lupi deixou o Ministério do Trabalho por ser Carlos Lupi. Oficialmente, nenhum foi demitido. Todos pediram para sair. E Dilma nunca teve ministros corruptos. Ela só admite que alguns tenham cometido “malfeitos”. 

Dilma Rousseff | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Lula concorda. Ministros usam aviões da FABtur até para confraternizar com cavalos? Nada de mais. Outros recebem em audiência uma visitante conhecida pelo codinome “Dama do Tráfico”? E daí? Uma ministra amiga da primeira-dama põe o próprio show na conta da Lei Rouanet? É a vida. O irmão mais velho anda afanando aposentados? Primogênito merece respeito. O filhote Lulinha engorda a capivara com mesadas doadas pelo Careca do INSS? Generosidade de amigo. Como ocorreu no caso do triplex do Guarujá. Ou no sítio em Atibaia. Como é que o Pai dos Pobres ficou tão rico? A sorte é justa; como passar ao largo de quem acabou com a fome no Brasil?

Os primeiros 25 anos do século, examinados de perto, resumem o programa da companheirada: todo militante leal aos chefes do partido merece ganhar muito dinheiro num cargo de confiança. De preferência, sem trabalhar demais. Sem extremista de direita por perto, o roubo é livre.    

Em 13 de junho de 2013, especialistas em política despencaram do alto dos seus egos com o despertar das ruas. Um protesto contra o aumento de R$ 3 para R$ 3,20 nas passagens dos ônibus de São Paulo, reprimido com truculência pela Polícia Militar, serviu de estopim para o maior levante popular desde o descobrimento. “Não é pelos 20 centavos”, avisaram aos berros milhões de manifestantes espalhados por 500 cidades pelo país. Era a reação do Brasil que presta à desfaçatez dos poderosos patifes, então empenhados em tungar bilhões de reais desperdiçados na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. 

O levante de 2013 tornou inevitável o impeachment de Dilma Rousseff e encurtou a gestação da Lava Jato. A reportagem publicada por Oeste em 10 de junho de 2022, com o título “O mais obsceno faroeste à brasileira”, mostra o que houve no Brasil entre novembro de 2014, quando foram presos em Curitiba empreiteiros bilionários, e outubro de 2018, quando Lula foi resgatado da cadeia. Nesse período, os brasileiros enfim acreditaram que todos eram iguais perante a lei. Ninguém imaginava que a esperança seria assassinada pelo STF. Dói pensar que faltou muito pouco para que o Brasil escapasse de ser o que é. É desolador descobrir que a corrupção endêmica chegou sem vacinas ao Supremo. O Brasil foi tão longe na ladroagem que pode estar perto de uma segunda e incontrolável Lava Jato. Não há diferença entre propinas repassadas por empreiteiros e doações espantosas entregues a ministros com a camuflagem de honorário advocatício. 

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14 comentários
  1. Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen
    Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen

    Augusto Nunes , sempre fenomenal! Um triste retrato de todo o mal que o Ladrão e o PT fizeram com o nosso Brasil!

  2. Welder Valsini Calazans Medeiros
    Welder Valsini Calazans Medeiros

    Essa coluna do brilhante Augusto Nunes não deveria ficar restrita apenas a assinantes.

  3. Osvaldo Pasqual Castanha
    Osvaldo Pasqual Castanha

    Imaginem se toda essa dinheirama roubada fosse aplicada para o bem da população.

  4. José Garcia
    José Garcia

    Gente, depois de ver esta matéria do competente Augusto Nunes, e rever, e relembrar a grande quantidade de mutretas, bandalheiras, trambiques. roubalheiras, corrupção, crimes, assassinatos e tudo o quanto há de pior e mais nojento, aqui mostrados neste texto, que envolve a organização criminosa, PT, vulgo, prostíbulo dos traficantes e a sua quadrilha de bandidos canalhas, que tal incluir no “Livro Guinness dos Recordes”, (Guinness World Records), esses podres e nefastos acontecimentos nos 25 anos, do Brasil nas mãos dessa corja de ladrões ?
    Pelo menos nesse quesito, o Brasil se destacaria como o país mais corrupto dos últimos 25 anos, no cenário mundial da corrupção e da roubalheira.
    Que Deus tenha piedade do Brasil !!

  5. MNJM
    MNJM

    O PT é uma organização criminosa, pior que boa parte do povo idiotizado acredita nesse Partido dos Trambiqueiros.
    Temos uma Suprema Corte que apoia esses cretinos do PT, e alguns ministros não tem nada de “conduta ilibada”. Escândalo de lobby e alguns favoeciemtos nada republicanos.

  6. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    A ficha corrida de Lula de roubo e corrupção,ocupa todo seu currículo, esse nunca pensou de fato no Brasil. De pobre virou bilionário, de Garanhuns para Brasília, sempre com interesses pessoais.Seus filhos são ricos ,nunca trabalharam. Em seu primeiro mandato, quando subiu pela primeira vez a rampa do Planalto, observei pela TV uma figura deslumbrada, o povo ovacionado, ele dando autógrafos para todos,principalmente mulheres,sentia–se um artista consagrado.Nunca votei em Lula,não porque entendia muito de política na época, mas não me convencia.Alem de todos os desastres já apontados minuciosamente no artigo, um fato que na época foi noticiado do seu terceiro mandato, fiquei literalmente estarrecida.A revelação de seu caráter, um detalhe que nos leva de fato a entender quem é Lula.Vou citar,logo depois de tomar posse foi com sua mulher a um evento na Índia, roubou um monte de cantinhos que estavam disponíveis em uma mesa,olhava de um lado para outro para ver se não estava sendo observado, como não tinha como segurar nas mãos todo o produto do roubo,passou imediatamente para sua cúmplice Janja que colocou imediatamente em sua bolsa..Depois disso, meus amigos que seguem a Oeste, o que falar?

  7. Carlos Perktold
    Carlos Perktold

    No meio de seu texto tive vontade de chorar, depois senti náusea e agora tenho nojo. Nojo de políticos brasileiros e dos petistas em especial. Pior de tudo é que o nosso povo em geral não faz nada. Ficamos sabendo das falcatruas e estamos nos acostumando a achar que essa lista de roubalheira é natural.Um horror. Até quando?

    1. Vanessa Días da Silva
      Vanessa Días da Silva

      Eu tenho nojo de todos que sabem disso e continuam votando neles por interesses próprios ou até por ideologia estupida, como grande parte dos artistas e professores

  8. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Com um sistema corrupto endêmico será que um dia o Brasil será um país descente?

  9. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    E alguns idiotas tentam negar todas essas evidencias: corrupção é o modus do PT agir

  10. Daniel BG
    Daniel BG

    Reportagem de primeira, com a assinatura de Augusto Nunes, é água benta para afastar vampiros. A vampirada espoliadora tinha de beber um pouco dessa água.

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