O ambiente é uma sala de reunião com estilo moderno. De uma porta interna de vidro fosco, o presidente do Einstein Hospital Israelita, Sidney Klajner, 57 anos, entra para a entrevista. O local reflete uma elegância discreta. Klajner, como funcionário do hospital, teve de acrescentar conceitos de administração à sua experiência de renomado especialista em aparelho digestivo. Ele tem responsabilidade sobre um corpo de profissionais com mais de 13 mil colaboradores fixos e 9,4 mil médicos. O complexo inclui tratamento, ensino — com uma faculdade própria — e pesquisa. Muitos de seus profissionais atuam em programas do setor público.
Ao completar 70 anos em 2025, o Einstein mantém parcerias com hospitais em Israel e em outros países. Com mandato até 2028, Klajner revela, em entrevista a Oeste, como a organização se concentra em um setor transformador da medicina: a terapia celular. Um exemplo está na produção e aplicação de células Chimeric Antigen Receptor T-cell (CAR-T), do sistema imunológico, capazes, por engenharia genética, de combater o câncer. Klajner tem convicção de que esta área vai ser determinante para todas as áreas médicas. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual é a maior preocupação de sua gestão?
Atuar na gestão é atuar em tudo. Primeiro: tenho que saber um pouco de tudo. Segundo, tenho um corpo de executivos competentes para fazer o operacional. E, terceiro, minha maior obrigação é a garantia do legado e, principalmente, o exercício e a transmissão da cultura da instituição.
Como descreve essa cultura?
É pautada em valores judaicos desde a fundação e se materializa num propósito de entregar vidas mais saudáveis, independentemente do setor e de quem quer que seja.
O senhor costuma publicar mensagens nas redes sociais sobre sua rotina, sobre o hospital, dicas de qualidade de vida, que se tornaram referência até para o vice-presidente e editor-chefe global do LinkedIn. Como vê isso?
Percebemos que o Einstein deveria deixar de ter uma empresa terceirizada de comunicação para ter um time internalizado. Isso faz parte da operação para eu entregar informação confiável de saúde. É importante para as pessoas se cuidarem melhor, entenderem melhor, não acreditarem em qualquer informação. Por isso, resolvemos ter uma comunicação extremamente forte, vinda de dentro.

O Einstein é uma empresa?
O Einstein é uma organização muito maior do que uma empresa. Atua como empresa, mas é uma organização de saúde sem fins lucrativos. Sua estratégia se apoia em três pilares: assistência, ensino e pesquisa. São várias empresas. É uma organização que tem diversas formas de atuação e todas buscando entregar vidas mais saudáveis.
É possível desvincular a imagem do hospital de algo que é apenas pesado e triste?
O humanismo é um valor central, ao lado da excelência que transforma e do conhecimento que constrói. O Einstein atua além do hospital, com foco em prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde. As pessoas se curam, e muitas internações poderiam não ocorrer se houvesse mudança de hábitos. Há estudos que indicam que cerca de 30% das internações podem ser evitadas com prevenção. O cuidado começa antes da doença.
Cite exemplos práticos de medicina de vanguarda do hospital.
O principal exemplo é o transplante de medula óssea, realizado tanto na rede privada quanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Einstein mantém o maior programa de transplantes do SUS, com 97% dos procedimentos feitos para pacientes da rede pública. A atuação ocorre por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). Esse modelo permite alta complexidade com acesso público.
E onde o transplante de medula entra?
Na parte da assistência. Eu estou assistindo aos pacientes do SUS. Mas o programa não é só medula; é transplante de fígado, de rim, de córnea. O programa é feito aqui no Morumbi (sede). Mas, como no Brasil a lista de candidatos a transplante tem regras e é única, os pacientes que são atendidos no nosso ambulatório entram na fila e essa fila é respeitada conforme o Ministério da Saúde.
O paciente não paga nada?
Não. É como se ele estivesse no SUS.
E em outras áreas?
Cirurgia robótica. Atuamos no Hospital Municipal Vila Santa Catarina, que é uma parceria municipal. É um hospital quase exclusivamente oncológico. Se falamos de equidade em saúde, um paciente com câncer de próstata no SUS lá não pode ter tratamento diferente de quem vem aqui. A cirurgia de ponta hoje é a robótica, e ela é feita lá. Temos 15 robôs, alguns para treinamento e certificação. Estamos certificando mais de 1,5 mil cirurgiões, inclusive da América Latina. Os robôs são importados. O robô é um instrumento de cirurgia laparoscópica (pouco invasiva) controlado pela mão do cirurgião fora do paciente.
Como é a parceria com entidades de Israel?
A maioria envolve questões relacionadas à pesquisa ou ensino: troca de alunos, projetos de pesquisa em comum. Exceto a mais recente aproximação que tivemos: uma parceria bastante sólida com o Sheba Medical Center, o oitavo melhor hospital do mundo pelo ranking da revista Newsweek (o Einstein ficou na 22ª colocação).
“Realizamos missões na Polônia, em função da guerra na Ucrânia, e demos auxílio em alguns atendimentos em Israel, depois do 7 de outubro.”
Como é a relação do Einstein com startups?
O Einstein criou o setor de inovação em 2014. Em 2017, criamos a primeira incubadora e aceleradora de startups de saúde exclusiva, a Eretz.bio. Através dela, já vimos quase 3 mil startups exclusivas de saúde que vieram mostrar suas ideias. Algumas foram incubadas aqui dentro; algumas já são relevantes no mercado; outras concluíram a parceria.
Cite alguma pesquisa adotada como prática clínica.
Cada pesquisa passa por etapas, até a aprovação. Uma pesquisa que ganhou o mundo há cerca de três meses foi um trabalho também desenvolvido e encabeçado pelo Einstein, apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia. É o estudo chamado NeoMindset, que mostrou que você não pode suspender a aspirina depois de um infarto tratado, como vinha sendo proposto por algumas instituições. O estudo provou que é preciso manter a aspirina. Para os cardiologistas, isso é um game changer (muda a prática clínica). Foi publicado no Brasil e no New England Journal of Medicine.
Em relação à biotecnologia e à terapia celular, o que há de concreto?
O CAR-T Cell, que é uma evolução do tratamento em oncologia, especialmente em onco-hematologia, reprograma a célula para ser um agente que leva o tratamento direto onde o tumor precisa ser tratado. No Brasil, existem quatro entidades aprovadas para trabalhar com pesquisa nessa área: o Einstein, o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade de São Paulo (USP), no campus de Ribeirão Preto. Já tratamos 14 pacientes, com resultados muito bons. Os desafios agora são a escala e o preço. Queremos que seja acessível para todos.
Vocês buscam parceiros neste setor?
Criamos o Biotech Design Lab, um laboratório dentro do setor de inovação, para atrair parceiros que desenvolvam biotecnologia. Inauguramos a graduação em Engenharia Biomédica, que terá sua primeira turma formada no próximo ano. Temos ainda parcerias com a Universidade Stanford.
Como converter o potencial biológico do Brasil em tratamentos e medicamentos?
Criamos o Biotech Design, que atrai a indústria farmacêutica, e também o Hub de Inovação em Manaus, aproveitando a biodiversidade local e a estrutura da Zona Franca, que reúne mais de 600 indústrias. A combinação de biodiversidade e pesquisa já resultou em novos tratamentos em desenvolvimento.
“Estamos assumindo três novos hospitais estaduais no município de São Paulo. Queremos expandir nossa área de atuação junto ao setor público.”
Qual tem sido a estratégia da instituição para assumir demandas que o poder público não consegue atender?
Por meio de parcerias público-privadas, onde identificamos que podemos mudar o cenário e impactar mais pessoas com a expertise que temos. A telemedicina é um exemplo. Atuamos em toda a região Norte e no Centro-Oeste, principalmente para populações ribeirinhas que não têm acesso a especialistas. O médico de família faz o encaminhamento, a consulta é agendada por telemedicina e o paciente não precisa se deslocar. Existem hoje 465 pontos de Unidades Básicas de Saúde equipados com computador e internet. Desde o fim de 2021, foram realizados cerca de 480 mil atendimentos, com resolutividade de 95%.
E em relação à assistência a comunidades?
A parceria público-privada permite agilidade para entregar tecnologia e conhecimento que o SUS, pelo seu tamanho, tem dificuldade de oferecer. É o que fazemos em Paraisópolis, por exemplo. A atuação do Einstein ali começou antes mesmo da inauguração do hospital. A comunidade surgiu junto com a construção do estádio do Morumbi, do Palácio dos Bandeirantes e do próprio hospital. É uma população que veio trabalhar aqui, e temos uma relação histórica de cuidado e acolhimento.
Até onde as equipes médicas têm chegado para realizar atendimentos?
Enviamos, entre outras, equipes para regiões como a Cabeça do Cachorro, no Amazonas. Lá funciona o Centro Cirúrgico Montalvo, mantido pelo Einstein, onde realizamos atendimentos especializados a indígenas, em locais remotos. Também realizamos missões na Polônia, em função da guerra na Ucrânia, e demos auxílio em alguns atendimentos em Israel, depois do 7 de outubro.
O Einstein realiza a gestão do Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, em M’Boi Mirim, que é público. Há planos de expansão para que esse trabalho não fique restrito a poucos lugares?
Estamos assumindo três novos hospitais estaduais no município de São Paulo: Heliópolis, Ipiranga e Darcy Vargas. No mesmo modelo do Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, do Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia e do Hospital Municipal Vila Santa Catarina. Queremos expandir nossa área de atuação junto ao setor público.
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