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Edição 302

O despertar cristão

Sempre que acharam que a Igreja estava prestes a sucumbir, ela deu a volta por cima e se mostrou resiliente. Não será diferente desta vez

O Brasil é o maior país católico do mundo. Com o avanço dos evangélicos, houve uma queda relativa na proporção da população nos últimos 25 anos, segundo o Censo. Em 2000, cerca de 74% se declaravam católicos, e em 2022, esse número caiu para 57%, algo como cem milhões de católicos no país. Essa tendência se deve principalmente ao crescimento dos evangélicos (de cerca de 15% em 2000 para quase 27% em 2022). O número de cristãos em geral, portanto, é de 84% da população.

Globalmente, o catolicismo cresceu em números absolutos nos últimos 25 anos, acompanhando ou ligeiramente superando o crescimento populacional mundial, mantendo uma proporção estável em torno de 16% a 18% da população global. São cerca de 1,4 bilhão de católicos batizados no mundo. Em termos absolutos, o aumento foi de 300 milhões, com crescimento em todas as regiões, em especial na África. Já cristãos em geral chegam a 2,6 bilhões de pessoas.

Tem ocorrido um aumento da perseguição aos cristãos também. Países como a China já fazem isso há bastante tempo, pois o comunismo é incompatível com o cristianismo. Na Nigéria, o mundo tem assistido calado a chacinas, decapitações e estupros de cristãos (leia a reportagem A esperança movida pela fé). O presidente Donald Trump finalmente resolveu lançar luz na questão.

Enterro de cristãos assassinados na Nigéria | Foto: Reprodução/Revista Show da Fé

No seu relatório sobre liberdade religiosa no período 2023-2024, divulgado em outubro, a Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, na sigla em inglês), uma fundação pontifícia da Igreja Católica, registrou a onda de violência crescente impulsionada em grande parte por grupos terroristas islâmicos, como o Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (Iswap, na sigla em inglês), com matanças e raptos.

Entre os casos destacados pela ACN, estiveram duas chacinas, em 29 de maio e 23 de junho de 2023, quando pelo menos 1,1 mil cristãos, incluindo 20 pastores e sacerdotes, foram mortos por integrantes do grupo étnico fulani e outros que realizaram ataques coordenados no estado de Plateau. “Os Estados Unidos não podem ficar de braços cruzados enquanto tais atrocidades acontecem na Nigéria e em inúmeros outros países. Estamos prontos, dispostos e aptos a salvar nossa grande população cristã em todo o mundo!”, disse Trump, em post na rede Truth Social.

Todos queremos um propósito na vida. Desejamos pisar em solo firme, construir nossas casas em rochas sólidas.

Se os números ainda não mostram isso, as evidências anedóticas ilustram o despertar cristão pelo mundo. As igrejas parecem lotadas, cada vez mais jovens buscam a fé cristã, os movimentos conservadores não escondem mais que sua defesa das liberdades individuais depende da perna moral que vem da religião. As liberdades não sobrevivem num vácuo de valores, muito menos num ambiente de relativismo moral.

São vários os fatores que podem estar levando a esse despertar cristão. Para começo de conversa, a ameaça islâmica. Além disso, o próprio relativismo moral da era secular moderna. Os jovens carecem de certezas, querem verdades absolutas, e o mundo “progressista” não oferece isso. Seitas como o ambientalismo ou o veganismo podem atrair uma parcela da população, mas não preenchem a busca por sentido mais elevado.

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Todos queremos um propósito na vida. Desejamos pisar em solo firme, construir nossas casas em rochas sólidas. Quando buscamos Deus em nossos corações, sabemos que existe o certo e o errado, e o relativismo serve apenas como uma fuga para quem quer insistir no erro, rejeitar uma régua moral mais rígida. Não se tratando de um psicopata, a consciência pesa, pois sabemos estar no erro, no pecado. O Diabo quer abolir o pecado justamente por isso. Se ao menos os homens puderem bancar Deus…

Mas a velha promessa prometeica está fadada ao fracasso. A serpente enganou Adão e Eva. Victor Frankenstein criou um monstro em vez de enganar a morte. O mundo não pode se salvar, e por isso precisa de Deus. A mensagem cristã traz a serenidade da vitória contra a morte, mas não neste mundo. Exige humildade de quem se sabe pecador e dependente de Deus, contra a soberba de quem quer bancar Deus, assumir seu papel.  

Num mundo cada vez mais caótico, arrogante, sem valores morais rígidos, os jovens se sentem perdidos. Fogem para drogas, antidepressivos, ideologias dogmáticas, mas nada parece aplacar as angústias. Falta Jesus Cristo em suas vidas. Se a tendência do cristianismo foi de certa estabilidade nos últimos 25 anos, arrisco prever que teremos um crescimento substancial nos próximos 25 anos. É uma análise misturada com torcida. Sempre que acharam que a Igreja estava prestes a sucumbir, ela deu a volta por cima e se mostrou resiliente. Não será diferente desta vez. A Verdade pode ser ofuscada, mas não pode desaparecer.

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6 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Belíssimo artigo. Vc sempre escreve muito bem, mas dessa vez foi tocante.

  2. Zulene Reis
    Zulene Reis

    Que depoimento lindo, querido Consta! Você é testemunha do poder da fé cristã e das orações. Para nós, católicos, ainda é Natal; portanto, eu lhe desejo todas as bençãos do Menino Jesus!

  3. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Lindo texto, Constantino. Com certeza a maioria das mazelas do mundo de hoje são decorrentes da falta de Deus no coração e de um vazio decorrente da falta de propósito. Principalmente entre os jovens.
    Mas Deus está no controle e o bem vencerá o mal.

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Rodrigo Constantino, um poema escrito para quem ainda crê. Obrigada pelas palavras tão bem escritas, um consolo de esperança que agradeço. Sou católica e minha família também, acredito que nunca seremos calados.

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