Em outubro deste ano, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, determinou sigilo de cinco anos sobre a correspondência da embaixada brasileira em Washington que envolva os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS. De uma das campeãs nacionais, com farto financiamento barato pelo BNDES nos primeiros mandatos de Lula, os donos da empresa, em especial Joesley, se tornariam embaixadores de fato do Brasil em assuntos sensíveis que, antes, estavam reservados à diplomacia. Desde a incursão de um dos sócios nas relações internacionais, vários acenos positivos vindos da Casa Branca de Trump destravaram as relações com o inábil e ideológico Palácio do Planalto do PT. De outro lado, estamos vivendo sob a mais deslavada impropriedade institucional que se tem notícia da diplomacia nacional e um ataque silencioso, embora grave e sem precedentes, à soberania do interesse público. A que preço? À época da derrama de dinheiro do BNDES, ao menos se sabiam os valores e a taxa de juros. No governo de sigilos quase eternos de Lula 3, a regra é o obscurantismo.
Em que pesem eventuais exceções, Joesley Batista e seu grupo empresarial fazem parte do roteiro mais manjado dos empresários bilionários ligados ao lulopetismo: ascensão, queda por escândalos de corrupção, prisões, acordos de leniência, vergonha pública e redenção pelo STF — inclusive com recuperação do dinheiro pago em multas bilionárias para reparar danos ao erário. Mas isso tudo no Brasil já parece pertencer a um passado longínquo da vida nacional. Com o desmonte da Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal, a vida de influência e grandes contratos públicos ou negócios com governos voltou a ser uma festa para toda essa gente. Mas a JBS foi além. Joesley Batista ganhou status de adido especial. Talvez, especialíssimo. O Barão do Rio Branco, Ruy Barbosa — seu mais brilhante e histórico diplomata — e a técnica diplomacia brasileira, reconhecida e elogiada internacionalmente até outro dia, não se orgulhariam disso. E daí, diriam os “salvadores da democracia” de agora? O Itamaraty S.A. é uma subdivisão da diplomacia nacional, um negócio com um CEO em missão oficial a bordo de jatinhos privados. Ou é muita devoção à causa do interesse nacional ou vamos ter de pagar essa conta em algum momento. E uma conta sem valores e nota fiscal, sem transparência.

A revogação da sanção da Lei Global Magnitsky ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes, na sexta-feira, 12 de dezembro, é o ápice desse movimento diplomático. A decisão de Donald Trump desnorteou a direita brasileira e alegrou o entorno mais raivoso próximo de Lula. Mas não só. A canetada de Trump foi igualmente uma bofetada nos direitos humanos norte-americanos. Foi o próprio governo de Washington que chamou o ministro Moraes de “abusador de direitos humanos” e responsável por um “complexo de censura” contra opositores políticos em vários comunicados oficiais que justificavam a aplicação da Magnitsky, anunciada em 30 de julho. A extensão à esposa Viviane Barci de Moraes e ao Instituto Lex, de propriedade da família, logo em setembro, confirmaria uma vez mais tal entendimento.
Até hoje, nada disso foi desmentido pela Casa Branca. Tampouco houve recuo em qualquer das graves alegações que sustentaram a imposição da sanção contra o ministro que, não obstante os abusos e perseguições políticas a brasileiros — o que parece não comover mais ninguém no Salão Oval — atingiram empresas e cidadãos americanos em solo americano. Em algum momento, seja nas eleições de meio de mandato no ano que vem (as mid-terms) ou à história, a administração Trump terá de responder. É caso de contradição notória. Mas isso vai ficar circunscrito ao eleitor e pagador de impostos dos Estados Unidos. Aos brasileiros, o Brasil real.

Uma rápida cronologia dos fatos dessa privatização do Itamaraty, resguardada pelo abuso do uso do sigilo diplomático pela administração Lula, mostra que a mistura do público com os interesses privados pode ter cruzado todas as linhas de contenção da impessoalidade exigida na administração pública.
- Em 9 de julho deste ano, o governo de Donald Trump divulga uma carta com graves acusações contra o Brasil. Logo no primeiro parágrafo, chama o julgamento do ex-presidente Bolsonaro pelo STF de “vergonha internacional”. Na sequência, denuncia o país por “ataques insidiosos contra eleições livres e à violação fundamental da liberdade de expressão dos norte-americanos”.
- No dia 1º de agosto, começam a valer as sanções adicionais de 40%, totalizando 50%, sobre as exportações brasileiras aos EUA. O governo Lula fica inerte e politiza internamente a crise. O despreparo era tão grande do lado brasileiro que nem a embaixadora do Brasil estava na capital americana, enquanto praticamente o mundo inteiro mantinha missões de negociadores estacionadas nos arredores dos principais órgãos do governo.
- Dias antes, no dia 30 de julho, a aplicação da Magnitsky a Alexandre de Moraes e a perda de visto de outros sete ministros do STF soaram como uma correção de rota da Casa Branca para aumentar a pressão diplomática. As sanções comerciais atingiram empresas brasileiras que faziam parte da cadeia de suprimentos da própria indústria americana ou que garantiam a oferta local com produtos de alta demanda, como café, suco de laranja e carne. Com o cenário explícito de que, em um futuro muito próximo, a inflação americana cobraria seu preço do eleitorado interno, empresários brasileiros e associações setoriais intensificaram as viagens e negociações com o governo e representantes privados norte-americanos. O objetivo claro era a derrubada das sanções comerciais. Em reservado, a reclamação era da imobilidade do governo brasileiro, da falta de tato e de canais reais de negociação com a Casa Branca. Era notória a incapacidade diplomática formal brasileira, que esbarrava nas escolhas do governo Lula de usar o Brics contra os EUA, de atacar o dólar como moeda e reserva global e no decantado e mofado antiamericanismo petista. Em nome da eleição do ano que vem e dos desejos eleitorais do presidente, os exportadores e os trabalhadores brasileiros pagavam o preço.
O encontro informal de Donald Trump e de Lula nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, ainda no início de setembro, já sugeria uma mudança no cenário. O aceno do republicano pode ter sido tudo, menos coincidência. Uma providencial falha no teleprompter, no momento do discurso do presidente americano, permitiu a ele uma “improvisação” e a famosa fala da química entre ambos. Em química, sabemos porque a ciência é empírica, é preciso misturar elementos distintos para que uma reação surja. Quem juntou os diferentes? Fato é que a reunião na Malásia, logo a seguir, traria um cenário completamente alterado entre os governos dos dois gigantes do continente. O endurecimento do discurso americano contra a Venezuela, com o envio do maior porta-aviões da frota americana ao mar do Caribe, no fim de outubro, é o capítulo da virada do jogo. Guerras são um flagelo para a humanidade. Para homens de negócios, oportunidades.
Numa analogia com o Caso Watergate, o que todos os homens do presidente Lula foram fazer na capital americana? O que conversaram? O que propuseram? O que prometeram? O que cederam?
No dia 23 de novembro de 2025, voando em um Bombardier Global 7500, avaliado em US$ 75 milhões e registrado em nome da J&F Investimentos, a holding da família Batista, Joesley foi à Caracas, na Venezuela, com a missão de negociar a renúncia do ditador Nicolás Maduro. A viagem demorou menos de 24 horas, um bate-volta que não saiu barato, mas que traria muitas novidades no cenário diplomático, comercial e político entre EUA e Brasil. A começar pelo fato de que o voo precisou de autorização dos militares americanos, que controlavam o espaço aéreo venezuelano.
O sigilo do Itamaraty de todas as correspondências da embaixada brasileira em Washington que envolvessem os irmãos Batista, desde outubro, é evidência temporal de que os bastidores diplomáticos estavam em plena efervescência. A questão é o quanto de informações sensíveis de interesses do Estado brasileiro — diplomáticas, inclusive — podem ter sido repassadas a uma pessoa privada. E não se trata de qualquer cidadão privado. O dono da JBS tem negócios no Brasil, na Venezuela e nos EUA. De gigante de proteína animal, o conglomerado dos irmãos Batista se tornou o maior grupo empresarial do Brasil com atuação em 25 países. Nos Estados Unidos, controla a Pilgrim’s Pride, que doou US$ 5 milhões para a festa de posse de Trump, a maior em valor individual. A contratação de escritórios de advocacia e lobby com proximidade ao Salão Oval e ao próprio presidente americano colocou Joesley de vez no entorno exclusivo do núcleo de poder de Trump. O resto são conversas. Quais e como se deram, não se sabe. Só não foram pra boi dormir, convenhamos.

Essa encarnação da diplomacia nacional do governo Lula por homens de negócios, muito além dos limites da regular atuação privada, inclui também o banqueiro André Esteves, do BTG. E a semelhança com Joesley não está apenas nos bilhões da conta bancária. No seu currículo, também exibe uma prisão pela Lava Jato e posterior aproximação com ministros do STF e com os controversos eventos de ministros fora da corte, como o Gilmarpalooza, do decano Gilmar Mendes.
Em 18 de novembro, Esteves foi a Washington e se reuniu com o secretário do Tesouro Scott Bessent. Dois dias depois, no dia 20 de novembro, era anunciada pela Casa Branca a suspensão de parte das tarifas contra os produtos brasileiros. Menos de um mês depois, era revogada a sanção Magnitsky contra Alexandre de Moraes, que fora assinada justamente por Bessent. No mesmo dia, na sexta-feira, 12 de dezembro, o ex-sancionado aparece de cochichos com o presidente Lula e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, no evento de lançamento do SBT News. Apesar da tentativa desesperada do fotógrafo oficial de Lula de tentar impedir que um cinegrafista da emissora filmasse a conversa, a cerimônia acabaria politizada nos discursos dos próprios Moraes e Lula.
Fotógrafo de Lula pede para o cinegrafista do SBT se retirar e parar de filmar Lula e Moraes, no evento do… SBT. É tipo a visita expulsando o dono da casa. pic.twitter.com/i7l16c2wmK
— Nikolas Ferreira (@nikolas_dm) December 12, 2025
Desde o início da aplicação das sanções americanas, era claro entre empresários de diversos setores prejudicados pela decisão que o governo Lula não tinha interesse em resolver rapidamente a crise diplomática. Os supostos ganhos eleitorais para a imagem de Lula justificavam o imobilismo. Adicionando a precariedade técnica da atual gestão do Ministério das Relações Exteriores, nada pragmático e muito ideologizado, o combo da incompetência estava completo.
Os primeiros sinais da efetiva ação dos adidos bilionários apareceram na fala de Trump na ONU. Ainda assim, no governo brasileiro, o discurso era de conseguir alguma melhora no ambiente comercial e um ou outro aceno público do presidente norte-americano como forma de minar a proximidade do republicano com o bolsonarismo e a direita no país. Em nenhum momento, antes da atuação de empresários, a diplomacia formal do Itamaraty pressionou de fato pela revogação das sanções políticas, seja a Magnitsky de Alexandre de Moraes ou o bloqueio dos vistos dos outros ministros do STF. Lula pensa somente nele, como sempre. E a se tomar as pesquisas de opinião como um fato, naquele momento havia conseguido algum alívio na melhora da avaliação.
Mas em que país onde a Suprema Corte governa, como admitiu o próprio Lula ao dizer que era impossível fazê-lo sem o STF, haveria paz política entre os poderosos se o principal ministro da corte, sua família e suas empresas estivessem com a maior sanção de todas nas costas? É aí que o pragmatismo do setor privado entra em cena com o habitual senso de oportunidade. Se institucional ou não, não parece ter sido uma preocupação. Era preciso fazer o que parecia impossível: revogar a Magnitsky, assinada por Scott Bessent, mas operada pelo poderoso secretário de Estado Marco Rubio, um filho de cubanos que entende como poucos a dinâmica deletéria da esquerda latino-americana, onde Lula, com seu Foro de São Paulo, é figura principal.

Ninguém sabe ainda tudo o que o Brasil cedeu e o que os Estados Unidos ganharam com um recuo tão emblemático da Casa Branca em valores humanos defendidos publicamente pelo atual governo republicano. Impossível imaginar que as vantagens geopolíticas ou comerciais tenham sido poucas, a se levar em conta o estilo agressivo de Trump numa negociação. Mas, como disse o senador Flávio Bolsonaro, em entrevista exclusiva ao programa Oeste Sem Filtro, na terça, 16, se fosse muito bom para o Brasil, o governo Lula já estaria tentando ganhar politicamente com isso. Não está. Por quê? Além disso, parte das sanções comerciais ainda continua em vigor, afetando sobretudo a indústria têxtil, calçados, máquinas e equipamentos não isentos e produtos de madeira processada. No fim, era só política e STF.
Numa analogia com o Caso Watergate, o que todos os homens do presidente Lula foram fazer na capital americana? O que conversaram? O que propuseram? O que prometeram? O que cederam? O que negociaram e sob qual autoridade formal? A que informação ou tema sensível diplomático do Estado brasileiro tiveram acesso? O quanto isso pode desnivelar o jogo da concorrência interna e externa com aqueles que não fizeram parte da missão diplomática informal dos bilionários convertidos em adidos de altos assuntos do país?
Quaisquer que sejam as respostas, elas precisam ser divulgadas. Se as sanções comerciais cairiam mais dia, menos dia, dado que eram exageradas e comprometeriam as próprias economia e política americanas — como de fato aconteceu com a inflação e os resultados eleitorais de novembro desfavoráveis aos republicanos — o “ganho” mais expressivo para o Brasil foi a revogação da Magnitsky de um ministro do Supremo Tribunal Federal, com quem o governo Lula firmou um consórcio de poder. Esse consórcio está pacificado novamente pelos homens do presidente tupiniquins que, por ora, evitam um desfecho tal como no original americano. O clássico de Hollywood baseado no livro Todos os Homens do Presidente, dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, termina com a queda do presidente Richard Nixon.
No Brasil de Lula, do Itamaraty empresarial, em que o privado se sobrepõe ao público, só a eleição do ano que vem salva. Se tanto. Até lá, é preciso resistir mais.
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Lula só pensa nele e Trump idem. E ambos se aproximam da indústria privada para obter ainda mais vantagens. Essa tal “ química “ entre os dois vem daí. E o resto é o resto. Danem-se os valores!