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Edição 301

Homens e porcos

Na guerra fria civil brasileira, se ouve quase todos os dias o grito de "Viva a ignorância!"  Porque a ignorância mantém a servidão, o domínio, o poder, ao contrário do conhecimento, que liberta

Desde cedo aprendi com meu avô que ética é discernir entre o que é certo e o que é errado, e optar pelo certo. Que o certo resulta em bem, e o errado resulta em mal. Nesses últimos 85 anos, a vida foi me ensinando a afinar esse discernimento e a ter força para ser certo e evitar o erro, que também é humano, mas é pouco inteligente, porque o erro só gera mais erros. As décadas de testemunho e vivência da história contemporânea do nosso país me demonstram que a falta de ética não gera bem-estar, nem segurança, nem justiça social. Só o oposto, ainda que o país seja privilegiado no primeiro dos fatores econômicos do desenvolvimento e bem-estar, que é a natureza. Natureza exuberantemente rica no solo, na água e no ar. Mas no fator trabalho, no capital e na tecnologia, há mediocridade, para usar um termo bondoso. Não conseguimos converter a riqueza em que habitamos em nosso bem-estar.

Incrível que este país mostre um vácuo na mais alta de suas cortes de Justiça, a ponto de seu presidente Fachin sofrer resistência ao buscar um código de ética — que não seria necessário, se estivesse lapidado em cada neurônio de cada ministro. Meu colega de Jornal do Brasil em outros tempos, Fernando Gabeira, na página de opinião de O Globo, fez uma pequena lista de pecados graves contra a ética, praticados na Suprema Corte de Justiça do nosso país. Por exemplo, ministros do Supremo não precisarem se julgar impedidos para julgar ações provenientes de bancas de advocacia de seus parentes — na verdade, de seus próprios escritórios. Meu avô, quando eu tinha uns 12 anos, me ensinou que isso não se faz. É grave imoralidade. 

Ministros Alexandre de Moraes e Edson Fachin em sessão plenária do STF | Foto: Antonio Augusto/STF

Gabeira lembrou que a primeira grande crise se deu quando se soube das contas das mulheres de Gilmar e Toffoli, ocasião em que Toffoli, presidente do STF, inventou um inquérito sem Ministério Público e nomeou relator, sem sorteio, Alexandre de Moraes, nascendo, naquele março de 2019, o imorrível Inquérito do Fim do Mundo, como o batizou o ministro Marco Aurélio Mello. Lembra Gabeira que a censura à revista Crusoé, por reportagem sobre o “amigo do amigo de meu pai”, é daquele tempo. Também recorda a advocacia da mulher de Toffoli para a JBS e o perdão que o ministro decretou para as multas da empresa de Joesley. E, óbvio, o contrato do escritório da família de Moraes com o Master, rendendo R$ 3,6 milhões por mês — para inveja dos maiores escritórios de advocacia do planeta.

Enfim, em tudo isso está a falta de ética, justamente onde mais a ética deveria estar — numa Suprema Corte. E quando acontece no topo da organização de um Estado, a tragédia é maior porque, com mau exemplo vindo de cima, fica fácil para moradores da beira da estrada julgarem que nada fazem de errado quando saqueiam caminhões acidentados, ou quando grupos invadem imóvel alheio, ou quando o indivíduo furta mercadoria na loja. De nossa parte, aceitamos tudo isso porque também é parte da nossa cultura permissiva oferecer propina para quem nos vai multar, passar sinal fechado, achar que é vantagem ser esperto e furar a fila, colar na prova, aproveitar qualquer oportunidade para ganhar, ainda que fora da lei e prejudicando outrem. Os que acham que está tudo errado são anestesiados pela pet media; aí, apelam a Trump ou a Deus; não sabem que a solução está em nós, a origem do poder, a origem do voto, a origem da crise.

A ética é a raiz da civilização; falta de ética leva à selvageria, converte país rico em pobre, a justiça em vingança, a democracia em feudalismo.

Mas votar e eleger quem tem rabo preso não adianta. Elege-se um refém do Judiciário. Ou se elege quem não tem a menor formação ética. Um presidente da República que se vangloria de ter aprendido que a mentira voa e a verdade engatinha, voa sem peso de consciência em suas asas. E se o eleitor-mandante-pagador de impostos não tem exigência ética, vai continuar tudo igual, e vamos cometendo o pecado grave de não aproveitar a riqueza sobre a qual pisamos. “Normalizamos” a anulação de processo penal de gente que confessou crime e devolveu o que roubou; convivemos com contratos milionários de famílias de agentes públicos com banqueiros vigaristas, com desvios de dinheiro público e emendas para asfaltar estrada de deputado/ministro, aceitamos mentiras, hipocrisias dos que elegemos para administrar nossos impostos. Somos cúmplices da nossa infelicidade ou, na nossa alienação, somos infelizes e não sabemos.

Na Guerra Civil Espanhola, o general Millán-Astray ficou célebre pelo grito de “Viva la muerte!” Na guerra fria civil brasileira, se ouve quase todos os dias o grito de “Viva a ignorância!”  Porque a ignorância mantém a servidão, o domínio, o poder, ao contrário do conhecimento, que liberta. O conhecimento joga luz sobre o errado e permite que se encontre o certo. A ética é a raiz da civilização; falta de ética leva à selvageria, converte país rico em pobre, a justiça em vingança, a democracia em feudalismo. Sem ética é um lugar em que, como na confraternização final da Revolução dos Bichos, de Orwell, não se distinguem homens e porcos.

Foto: Reprodução/Amazon

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10 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Prefiro a guerra a viver sob o domínio dos tiranos

  2. Paulo Roberto Pazinatto
    Paulo Roberto Pazinatto

    O dilema é como romper o ciclo vicioso da votação em gente errada por gente ignorante. Os errados eleitos não investem em educação de qualidade por que sabem que o conhecimento liberta !

  3. Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen
    Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen

    Parabéns Mestre Alexandre Garcia, grande texto! Tenho três anos a menos e tive a mesma educação, infelizmente, ética e honestidade são artigos raríssimos atualmente! Nosso querido Brasil foi destruído, a corrupção se infiltrou na corte mais alta e no judiciário. Os poucos, decentes, não conseguirão reverter a situação sem a ajuda do Povo que está anestesiado, Hoje, para os porcos, todos os dias são de banquetes!

  4. Matias ALEGRUCCI Figueiredo
    Matias ALEGRUCCI Figueiredo

    Parabéns mais uma vez. Uma fotografia da nossa lamentável sociedade.

  5. ELIAS
    ELIAS

    Infelizmente no Brasil, apelar para o senso ético das pessoas chega ser motivo de chacota e é apontado como ingenuidade. A vilania foi normalizada e a modificação desse triste quadro leva gerações. Em outras palavras, para a nossa geração e a dos nossos filhos o Brasil é um caso perdido.

  6. Célio Antônio Carvalho
    Célio Antônio Carvalho

    Muito bem meu Caro Alexandre, Garcia! Eu tenho o privilégio de ter podido trocar umas palavras contigo, ainda que rapidamente e a trabalho aqui em Brasília.
    Graças a Deus você está aqui!
    Eu também aprendi com o meu Avô, o meu Pai e a minha saudosa Mãe: “se não é seu, não pegue”! E até hoje sigo esse “ditado”. Repliquei-o para os meus filhos.
    Você tem razão, somos permissivos, coniventes sim com tudo isso aí. Oras bolas, nós votamos nesses caras! Precisamos saber escolher, senão, a democracia não serve para nada! Vamos olhar quem é, de onde vem, se tem boa família, pai, avô, etc.
    Ou mudamos ou pereceremos juntos, todos.

  7. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Parabéns Mestre Alexandre Garcia, seu texto é imbatível.

  8. carlos
    carlos

    Falando em porcos lembrei de uma frase lapidar, do livro de ficção, misterio e suspense “A Salamandra, de Morris West”, que li há muitos anos, fazendo referencia a um tiranete da trama, segundo a qual “todo porco tem seu dia de banquete”.

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