Se o concorrido evento que o SBT promoveu na sexta-feira, 12, tivesse o propósito de lançar um canal de relações públicas, teria sido uma perfeita demonstração de força e influência do grupo fundado por Sílvio Santos e hoje dirigido por suas filhas. Na primeira fileira, acompanhando cada palavra inaugural de Daniela Abravanel Beyruti, presidente do grupo, estavam o presidente da República e seu vice, o governador de São Paulo e o prefeito da cidade, entre várias outras autoridades. Nenhuma das cabeças coroadas reluzia mais, no entanto, que a do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Era para ele, e para a esposa, que os olhares, frontais ou de esguelha, se dirigiam. Ninguém esperava que ele estivesse lá. Por um baú de razões.
Em primeiro lugar, porque se tratava da inauguração de um canal de jornalismo, o SBT News, e pelo princípio do respeito à institucionalidade, o Judiciário deveria estar representado pelo presidente do STF, Edson Fachin, que nos últimos dias anda ocupado tentando costurar um código de ética para enquadrar seus pares da Suprema Corte. Moraes foi sem delegação formal de Fachin porque, bem, Moraes é Moraes e faz o que bem quer desde março de 2019, quando assumiu o sinistro “Inquérito do Fim do Mundo” (4.781, o “das Fake News“, prestes a completar sete anos).
Em segundo lugar, a aparição do ministro surpreendeu porque ninguém que quer evitar perguntas difíceis ou embaraçosas comparece à inauguração de um canal de notícias. A menos, claro, que tenha a garantia de que estará blindado e totalmente a salvo da abordagem de repórteres de verdade, ilusão que, no mundo do jornalismo independente, é quase como colocar a cabeça dentro da boca do leão e contar com a benevolência da fera. Mas foi o que fez Moraes, o altaneiro, confiante em que o bicho até tinha juba, mas não tinha dentes. Foi lá, deitou falação sobre o papel da imprensa e não disse uma única palavra sobre o único assunto que poderia dar algum propósito republicano à sua presença ali — a descoberta, pela Polícia Federal, de um contrato absolutamente inexplicável pelo qual o liquidado Banco Master se comprometia a pagar R$ 129 milhões ao escritório da esposa dele, Moraes, para fazer exatamente nada. O que significa fazer tudo. Tudo aquilo que não pode ser descrito objetivamente em um contrato por significar uma confissão de papel passado.
“Só se combate a desinformação”, discursou, “só se combate o discurso de ódio, só se combate essa nefasta polarização com a boa informação. Só se combate isso com a liberdade de imprensa, seriedade de imprensa e competência da imprensa.”
O que era para ser um protocolar afago nos jornalistas durante a fundação de um canal jornalístico acabou sendo uma desmoralização para a imprensa. Ninguém apareceu, nem antes, nem depois do pronunciamento, para fazer a Moraes a pergunta que todo brasileiro consciente, com ou sem diploma de jornalismo, trazia na ponta da língua havia quatro dias.
— E os R$ 129 milhões?
No momento em que o SBT News vinha ao mundo com pompa e glamour, já fazia seis dias que o colunista Lauro Jardim, de O Globo, revelara que o escritório jurídico da mulher de Moraes havia sido contratado pelo Banco Master e suas empresas controladas. E quatro dias haviam passado desde que Malu Gaspar, também colunista de O Globo, havia publicado as bases financeiras do negócio: 36 parcelas mensais de R$ 3,6 milhões, a primeira delas desembolsada em janeiro de 2024. A cada dia, na semana passada, novos detalhes vinham à tona.
O contrato era vago. Viviane Barci de Moraes, que comanda o escritório Barci de Moraes com os filhos, faria gestões no Banco Central e no parlamento brasileiro, encargo mais assemelhado à atividade de lobby que à prestação de serviços advocatícios. Aliás, mesmo advogados ligados a bancas renomadas viram com perplexidade a dinheirama paga a um escritório sem maior expressão jurídica.
Imperturbável, Viviane ouviu o discurso do marido celebrando a “liberdade”, a “seriedade” e a “competência” da imprensa. Depois, circulou com ele durante um coquetel de networking VIP sem que um jornalista “livre”, “sério” e “competente” aparecesse na sua frente para perguntar…
— E os R$ 129 milhões?
Ela parecia feliz, mas contida.
Moraes estava mais do que feliz. Aliviado.
Horas antes, sem justificativas precisas, o governo norte-americano havia divulgado sua decisão de retirar o nome do ministro da lista de sancionados com base na lei norte-americana Global Magnitsky. Desde 30 de julho, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu “De Moraes, Alexandre” no rol de abusadores que, mundo afora, atentam contra os direitos humanos, o ministro arrastava para si, e para a Suprema Corte brasileira, o vexame de figurar numa galeria global de facínoras. Mais do que isso, o bloqueio financeiro e patrimonial sob jurisdição norte-americana punha em risco, direta ou indiretamente, parte de um patrimônio considerável amealhado pela família de Moraes, uma vez que as sanções da Magnitsky foram aplicadas também a Viviane, ao escritório jurídico que ela possui em sociedade com três filhos e, ainda, ao desconhecido Instituto Lex de Estudos Jurídicos, fulminado pelas autoridades norte-americanas por ser uma holding patrimonial familiar que daria suporte financeiro a Alexandre de Moraes.
Do jornalismo, que teve a pauta debaixo do seu nariz e fingiu não vê-la, o que se pode dizer?
Em seu nome e no de sua mulher, Moraes agradeceu publicamente a Lula pelo empenho para a retirada das sanções da Magnitsky. Mencionou, superficialmente, um diálogo que teve com o presidente da República logo após ter sido sancionado. Mas não foi abordado por qualquer jornalista “livre”, “sério” e “competente” para pedir detalhes sobre esta conversa com Lula e nem para fazer a pergunta que a esta altura todos sabemos qual é.
— E os R$ 129 milhões?
No lançamento do mais novo canal de notícias da televisão brasileira, o jornalismo estava se distraindo com amenidades nos estúdios do SBT em Osasco, palco do evento. Como cantava Sílvio Santos com seu auditório nas tardes de domingo, “Festaaa! É ritmo de festaaa!”.
Houve um momento em que um cinegrafista do SBT, dotado, quem sabe, de uma ancestral intuição jornalística, viu uma roda de conversa no coquetel e se aproximou do trio formado por Lula, Moraes e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Viviane estava perto, ligeiramente apartada do núcleo. Cobrindo a boca com a mão, Moraes dizia algo a Lula. Quando a câmera chega mais perto, o fotógrafo oficial de Lula, Ricardo Stuckert, intervém e repele a aproximação do cinegrafista, que se afasta obedientemente.

Não era hora de jornalismo, parecia claro. E pautas não faltavam. Mas não havia quem fizesse perguntas sobre, por exemplo, o que Lula ofereceu a Donald Trump para retirar Moraes da Magnitsky. Ou sobre o aplauso de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, no momento em que a plateia aplaudia a declaração de Alexandre de Moraes creditando a retirada das sanções da Lei Magnitsky a uma vitória “da verdade”, da “soberania” e da “democracia”.
Num reflexo dos novos tempos, em que, se a imprensa não faz perguntas, o público as faz, o fim de semana foi de burburinho nas redes sociais. De um lado, júbilo de apoiadores do governo e do regime STF-PT ante o recuo do governo norte-americano nas sanções que havia imposto a Moraes e família. De outro, estridentes manifestações de indignação com a transformação do evento em um palco político do regime. A ausência de uma voz da oposição elevou a temperatura das críticas. Pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro recebeu convite, mas não foi. Em cima da hora, desistiu de comparecer depois de receber um telefonema — não revelou de quem — sugerindo que sua presença poderia dar margem a constrangimento político, diante da presença de autoridades ligadas ao governo.
A presença de um presidente da República no ato inaugural de uma emissora de TV não tem nada de mais. Lula, em campanha, não desperdiça oportunidades — assim como um veículo com baixa audiência não negaria estribo a um anunciante do peso da Secom de Lula. Esquisita, mesmo, foi a presença de Alexandre de Moraes, e afrontosos foram os sinais exteriores de poder que emitiu, levando-se em conta que é apenas um de 11 ministros de uma Suprema Corte atolada em um pântano moral.
Tudo, porém, parecia fadado a cair na malha da banalidade quando, no início da madrugada de segunda-feira, um brasileiro grogue de sono e amassado pela indignação gravou um vídeo que fez tremer a internet. O cantor sertanejo Zezé Di Camargo exprimiu sua melancolia com a tabelinha Lula-Moraes no palco do SBT, falou em valores e, invocando fidelidade ao sentimento de milhões de brasileiros, pediu que a emissora não exibisse a performance que ele já tinha gravado para o especial de Natal do dia 17 de dezembro. Setores da imprensa incomodados com a mensagem apressaram-se em desmerecer o mensageiro, lembrando a simpatia de Zezé por Lula em 2002.
Além de pueril, por aferrar-se a um fato político de 23 anos atrás, quando Lula ainda tinha moral para prometer um choque de ética na política, o registro mostra que Zezé se manteve coerente com princípios. Se uma análise jornalística preza pelo ingrediente da atualidade, melhor fariam os jornalistas se lembrassem de um fato bem mais recente, datado de 2021. Moraes, sempre ele, arrastou o cantor Sérgio Reis para um de seus múltiplos inquéritos — o dos atos antidemocráticos — pelo vazamento de áudios em que o intérprete de O Menino da Porteira pedia apoio a manifestações de caminhoneiros contra os abusos do STF. Na ocasião, Zezé Di Camargo desafiou a espiral de silêncio da música sertaneja e foi às redes. “Serjão, você não está sozinho. Você é um homem de bem. O Brasil está com você.”
Fez mais: rugiu contra o cancelamento de Reis por parte de artistas próximos da esquerda e se ofereceu para gravar uma música com ele no álbum “Duetos de Reis”.
No apagar das luzes de 2025, Zezé não desafinou.
Do jornalismo, que teve a pauta debaixo do seu nariz e fingiu não vê-la, o que se pode dizer?
PS: A pauta é aquela pergunta:
— E os R$ 129 milhões?
Leia também “A longa marcha enfim começou”




Eugênio Esber, seu primor de artigo escancara a lado podre do Brasil com todas as digitais daqueles que se servem do Estado.
E tudo isso está acontecendo porque muitos brasileiros, principalmente as elites que não se envergonham de seus mal feitos abandonou a ética, a moral e os bons costumes que foi tema do artigo de Alexandre Garcia nesta mesma edição da Revista Oeste.
O rei da babilônia incorporou nele
Lourival, escreveste não um comentário, mas um ensaio. Transparece, no texto, teu alto nível de informação e senso de pesquisa. Cumprimentos. O valor de uma revista é dado pela qualidade dos seus leitores.
E os 129 MILHÕES DE REAIS, da Dona Viviane, sua esposa, Ministro Alexandre de Moraes? Como o fato é público, notório e nem Dona Viviane nem o Ministro Moraes contestaram o CONTRATO MANDRAKE com o Banco Master, é mais um caso de que CALA, CONSENTE. Fico pensando se o caso envolvesse algum “ bolsonarista “ graúdo, o estardalhaço da IMPRENSA ESTATIZADA, o Fantástico da finada Rede Goebbels dedicaria uma edição inteira, a FOLHA, ESTADÃO, UOL, PODER360, METRÓPOLES, ICL, REVISTA FORUM e outros adestrados veículos ditos informativos. Do CONTRATO MEGA ULTRA SUSPEITO, compadrio escancarado, Dona Viviane recebeu algo como R$ 79.200.000,00 o que é uma baita grana. Duvido que o Presidente Nacional da indigente OAB tenha honorários de tal vulto. Acontece, que não é só o Banco Master. Surgem no radar a Hapvida, UniDOM BOSCO, PUERI DOMUS, que elevam o faturamento da “ sortuda “ advogada Viviane Barci de Moraes em patamares salomônicos. Como o banqueiro Daniel Dantas, não topou a empreitada de criar contas em Dubai para os Ministros Barroso e Alexandre de Moraes, vai que os dois entregaram suas fortunas multimilionárias, êta pessoal de sorte, ao banqueiro kamikaze Daniel Vorcaro, que devolveria parte da grana através de marotos Contratos de prestação de serviços. Tudo feito às pressas sempre desanda, mas a perder TUDO, que se perca MENOS. Consta que a “ sortuda “ Dona Viviane atuou apenas UMA VEZ para Daniel Vorcaro em um Processo por injúria, mas PERDEU EM DUAS INSTÂNCIA e a liça acabou. Um graúdo Jaó do DF foi verificar e não existem atuações da Dona Viviane, mesmo esmiuçando, no COAF, RECEITA FEDERAL, BANCO CENTRAL, PF, DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, AGU, TCU, BANCÕES, Clubes Privados exclusivos como Iate Clube de Brasília, e nada, nem uma água mineral Sferriê, a água dos muito ricos de Brasília esquecida de ser paga. Tudo limpinho, nada fora da cortina de fumaça privativa. Lembremos que um caso dessa monta, exposição, visibilidade deveria ao menos constar no discurso do Ministro Alexandre de Moraes defendendo a “ legalidade “ do Contrato da sua sortuda esposa Viviane, uma coisa como DERRUBAR ILAÇÕES, MALEDICÊNCIAS, FAKE NEWS, nadica de nada, mas o SILÊNCIO É MUITO ELOQUENTE e fala por si só. A ÉTICA no STF? Que se danem a ÉTICA, o PUDOR, a VERDADE e mesmo que se dane o Ministro Fachin com seu CÓDIGO DE ÉTICA, ora bolas! “ Nós somos os editores do Brasil “, como disse o “ insuspeito Ministro Toffoli, o “ Amigo do Amigo do Meu Pai “ nas planilhas da ODEBRECHT. “ O código de conduta de Fachin e a conduta de Dino.” “ A movimentação intensifica o tensionamento entre o STF e o Congresso Nacional, especialmente em ano eleitoral, e ocorre em meio ao avanço de operações autorizadas pelo ministro contra parlamentares e ao julgamento de congressistas investigados por desvios de recursos do orçamento secreto, esquema revelado pelo Estadão.” “Embora haja resistência interna à ideia, Fachin deixou claro no discurso proferido no plenário do STF nesta sexta-feira, 19, que não desistirá do debate. O presidente também tem conversado sobre o assunto com dois ministros aposentados do Supremo: Rosa Weber e Celso de Mello.” É muito revelador que Fachin não consulte Marco Aurélio Mello, Joaquim Barbosa, Carlos Velloso, Sepúlveda Pertence, Ellen Gracie, Nelson Jobim. Quanto ao Ministro Celso de Mello, vale a pena lembrar Saulo Ramos, padrinho do Celso. “ “Entendi que você é um juiz de merda” Quando José Sarney decidiu candidatar-se a senador pelo Amapá, o caso foi parar no STF, porque os adversários resolveram impugnar a candidatura. Celso de Mello votou pela impugnação, mas depois telefonou ao seu padrinho, Saulo Ramos, para explicar-se. — Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do presidente. — Claro! O que deu em você? — É que a Folha de S.Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros que enumerou e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S.Paulo. Mas fique tranquilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do presidente. — Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S.Paulo noticiou que você votaria a favor? — Sim. — E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele? — Exatamente. O senhor entendeu? — Entendi. Entendi que você é um juiz de merda. NÃO É DE HOJE QUE O STF ENVERGONHA O BRASIL, EMPOBRECE O DIREITO, RASGA A CONSTITUIÇÃO A DEPENDER DO ALFORGE DO VIVENTE RECLAMANTE. PAGANDO BEM, QUE MAL TEM? A ÉTICA? ORA BOLAS, A ÉTICA ÀS FAVAS, SEM NENHUMA VENIA!
Durante o governo Bolsonaro os ministros do STF eram extremamente rápidos para cobrar explicações sobre quaisquer assuntos, significantes ou não. Agora os aposentados são roubados em bilhões e o governo, além de se eximir de dar explicações, dificulta até onde pode as investigações da CPMI que tenta esclarecer e responsabilizar os promotores desse roubo; e ministros do próprio STF, ao serem pegos em falcatruas, não dão explicações e ainda puxam o grosso cobertor do sigilo absoluto para tentar escondê-las. E há quem chame isso de Democracia.
Expressões como “democracia” e “Estado Democrático de Direito” estão miseravelmente corrompidas, Victório. Hoje, por experiência própria, sabemos um pouco mais sobre como a Venezuela se tornou um país em ruínas e quem se beneficiou, ativa ou omissivamente, com o triunfo da opressão.
Parabéns pelo melhor texto da semana, seguido pelo do Cauti, os dois pondo o braziu a nu
Agradeço, Emilio, pelo estímulo. Concordo contigo sobre a belíssima reportagem de capa de autoria do Carlo Cauti. A edição tem vários pontos altos, mais uma vez.
Sempre admirei o Zezé de Camargo pelas músicas e pela coragem e patriotismo ! Um baita goiano arretado !
Pois é, João Carlos. O vídeo dele é um momento para a história.
Pois é Eugênio Esber, essa pergunta:e os 129 milhões de reais?ninguém perguntou, mas sabemos a resposta e no bolso de quem caiu.
A parte sã deste país há de trazer a decência de volta, Teresa. Que vivamos para ver e festejar quando esse dia raiar!