Num país normal, numa economia saudável e sob um governo responsável com as contas públicas, os recordes da Bolsa de Valores de tempos atrás seriam uma notícia a ser comemorada. No Brasil atual do governo Lula, não. Como não se cansam de contratar uma nova crise fiscal ao desrespeitar o próprio arcabouço, que deveria conter os gastos fora de controle, a alta da Bolsa brasileira virou apenas um dado estatístico que não representa pujança econômica nenhuma. Deveria, mas não o faz porque a matemática não aceita desaforo. E o governo Lula é um desaforado com o suado dinheiro dos pagadores de impostos. Ao país, sobra a conta da irresponsabilidade, hoje e no futuro.
Voltemos ao exemplo sintomático da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. Na primeira semana de dezembro, a B3 atingiu a histórica marca de 164.455 pontos. Foi o recorde entre os recordes. A alta atingiu a incrível marca de 37% de valorização do Ibovespa no ano, revertendo com folga a desvalorização de 2024 do principal índice do mercado de capitais, quando caiu 10,36%. Um misto de investidores externos projetando a queda dos juros americanos — o que acabou acontecendo nesta última quarta, 10 de dezembro — e um rally de alta com cara de bolha especulativa são parte da explicação da fotografia do momento. Mas o cenário completo chama a atenção pela contradição: a Bolsa brasileira está, na verdade, definhando. Pelos dados da própria B3, 16 empresas deixaram de negociar seus papéis no pregão deste ano. O número pode ser maior e subir para 29 se considerarmos outras deslistagens, além das empresas que fecharam o capital via Ofertas Públicas de Ações (OPAs) ou fusões.
A debandada é grave porque o mercado de capitais do país havia ensaiado um crescimento, anos atrás. Um otimista desavisado diria que uma fusão, por exemplo, não deveria ser computada como uma saída. Mas isso não faz lá muita diferença porque um segundo fato negativo corrobora a tese do definhamento da B3. O último IPO, quando uma empresa decide abrir capital e negociar seus papéis na Bolsa, ocorreu em setembro de 2021, há mais de quatro anos. Por que ninguém mais decidiu buscar o mercado de capitais brasileiro como fonte de financiamento de seu negócio, sendo que o modelo garante o crédito mais barato da praça? Porque no Brasil de juros básicos a 15% (taxa Selic), de completa ausência de austeridade fiscal em Brasília, com alta taxação da renda do negócio e dos dividendos, o próprio governo é um concorrente desleal que lhe obriga a ser comedido, conservador no investimento e na expansão do negócio. E o gestor faz isso não com medo da competição e do mercado em que atua, mas pela insegurança jurídica e asfixia tributária que cobra pesado quem quer produzir e crescer.

Em economia, comparação é vida. No mínimo, um mensurador normalmente conclusivo do porquê uma coisa dá certo em um lugar e a outra, em outro lugar, não. Veja que o valor de mercado de todas as empresas listadas na Bolsa brasileira não chega a 20% do valor da Nvidia, de quase US$ 4,4 trilhões. Apenas a gigante americana fabricante de chips, vitais para produtos de inteligência artificial ou tudo que tem cara de high-tech, vale mais de cinco vezes a B3, apesar de toda a valorização recente. E olha que na Bolsa de São Paulo estão todos os grandes bancos — como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil —, a Vale e a Petrobras. Alguém poderia dizer que são mercados diferentes, por se tratar de uma empresa de alta tecnologia negociada na Nasdaq, a coqueluche do momento. É verdade, mas nem tanto. Se usarmos a Bolsa de Nova York como referência, de empresas mais tradicionais, só o índice Dow Jones, que reúne as trinta maiores empresas de lá, vale US$ 22,4 trilhões. A Bolsa inteira, US$ 31 trilhões.
Mas a economia americana é a maior do mundo, insistiria alguém, alegando que a comparação é indevida. Não se fizermos pela questão da proporcionalidade, usando a relação PIB versus mercado de capitais. Veja lá. Segundo a Austin Rating, o PIB dos EUA é de aproximadamente US$ 30,6 trilhões. Só a Bolsa de Nova York, com seus mais de US$ 31 trilhões em valor agregado de todas as empresas listadas, já é maior. Se juntarmos a Nasdaq, de US$ 35,5 trilhões, o mercado das bolsas nos EUA é mais que o dobro do PIB norte-americano. A comparação com o Brasil avilta as diferenças, mesmo guardando a relação interna de valores. A B3 vale em torno de US$ 800 bilhões para um PIB brasileiro de US$ 2,3 trilhões, segundo a mesma Austin Rating. No fim do dia, isso mostra que nosso mercado de capitais representa, no máximo, 35% de todas as riquezas geradas no Brasil anualmente. Os números são a evidência empírica do quanto os EUA atraem capital interno e externo para financiar suas empresas. E igualmente o oposto no Brasil. Por quê?
Desde 2023, o presidente e seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad — apelidado jocosamente de Taxad — aumentaram ou criaram novos tributos, taxas ou reverteram isenções por 28 vezes.
O que nos diferencia da maior potência econômica do planeta é a falta de inovação das empresas aqui, a burocracia ou os retrocessos de simplificação conquistados até bem pouco tempo, na gestão do ministro da Economia Paulo Guedes, no governo Bolsonaro. Junte-se a isso a falta de foco em eficiência e produtividade de um governo, como o de Lula, inchado e incompetente, que arrebenta as contas públicas. Ao gastar mais do que arrecada como profissão de fé para atrasar o Brasil, provoca inflação e insegurança econômica que obrigam o Banco Central a manter os juros básicos no patamar de 15%, sem sinais claros de redução, a se levar em conta o comunicado do Comitê de Política Monetária divulgado nesta última semana.
A renda fixa mais atrativa tira o investidor da Bolsa de Valores porque antes tira do empresário o desejo de investir. É um círculo vicioso que torna o crédito escasso e caro, que tem um governo endividado como seu concorrente vendendo títulos da dívida pública. Como a Bolsa brasileira poderia crescer num mercado tão hostil? Não cresce. Ou bate recordes, explicitando o êxodo de empresas. Não me parece um recorde a se comemorar, lamentavelmente, porque não é sustentável no médio ou longo prazo. Uma síndrome de voo de galinha. Pior. Empresas brasileiras têm preferido abrir seu capital nos Estados Unidos, como fez a XP anos atrás, para espanto dos entusiastas do mercado de capitais local.
Levando a conversa para a política, num ano pré-eleitoral, isso demonstra o quão relevante será a eleição do ano que vem. Porque o modelo atual é indefensável. A Bolsa de Valores é um sintoma, assim como o câmbio. Mas, estruturalmente, que é o que garante um chão firme, a situação atual é ruim sem gerar expectativa sólida de futuro. Fato é que, naquilo que a economia cresceu sob Lula, cresceu por reformas e fatores vindos de governos anteriores. Já os problemas são de agora, de Lula 3. Basta ver que, na discussão do orçamento do ano que vem, segundo o Instituto Fiscal Independente, uma entidade do Senado Federal, o governo deve conseguir retirar R$ 90 bilhões do cálculo do arcabouço fiscal.
Até o final de 2026, juntando os números de 2023 para cá, serão mais de R$ 170 bilhões de gastos por fora, com autorização do Supremo ou do Congresso, para fingir um lampejo de legalidade. Ninguém mais cai na esparrela. Gasto é gasto. As licenças para gastar ou retirar da conta do teto são para evitar uma punição pela Lei de Responsabilidade Fiscal que poderia gerar um processo de impeachment por pedaladas de toda ordem. E são gastos do pior nível do perdularismo crônico do lulopetismo, visto que não apresentam nenhuma justificativa plausível ou melhora da vida da população, cada vez mais dependente do populismo de Lula — e explorada eleitoralmente por ele. Quase 100 milhões de brasileiros recebem algum cheque de ajuda social do governo. Convenhamos que nenhuma economia pode estar indo bem com tamanha dependência do assistencialismo estatal.

E tudo tem um preço. No caso da terceira gestão de Lula, muito caro. Desde 2023, o presidente e seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad — apelidado jocosamente de Taxad — aumentaram ou criaram novos tributos, taxas ou reverteram isenções por 28 vezes. Mas nem tamanha sanha arrecadatória conseguiu evitar que o governo acumulasse um déficit fiscal (mais gastos que arrecadação) de R$ 365,8 bilhões, a dívida pública batesse perigosamente na marca de quase R$ 10 trilhões e a relação dívida/PIB subisse para 78,6%. No final do governo Bolsonaro, era de 71,7%. Com tamanho e irresponsável endividamento, além de prever um orçamento ainda mais inchado no ano que vem, já deixou a porteira aberta para aumentar o imposto de importação em 2026 e arrecadar mais R$ 14 bilhões. Detalhe que essa porteira se abre apenas com decisão do governo federal, sem necessidade de autorização do Congresso. Como será um ano eleitoral, imagina o estrago que pode fazer o governo eleitoreiro de Lula?
Além de indefensável, a gestão atual é insustentável. Que os brasileiros façam a conta.
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Essa esquerda tem que voltar para a oposição em 2026 caso contrário acabam de vez com o país
Como sempre os artigos do Piotto são muito bons!
Pena que Silvio Navarro foi dispensado por não concordar com quem manda.
Censura também na Oeste?