“Minha previsão é que o trabalho será opcional.”
O autor desta frase bombástica é Elon Musk, que não costuma errar suas previsões no campo da tecnologia. E o empresário não se refere a um futuro distante. Seu prazo para a realização dessa profecia é coisa de “uma ou duas décadas”.
Essa declaração foi dada no dia 19 de novembro no Fórum de Investimento Saudi-Americano ocorrido em Washington. Segundo Musk, as pessoas não terão necessidade do trabalho. Poderão fazer apenas o que mais desejam — e quando quiserem.
Mesmo não tendo sido aprofundada, a declaração talvez seja a mais revolucionária concepção das relações econômicas no último século e meio. Ou, quem sabe, de todos os tempos.

Em 1776 o economista Adam Smith (em A Riqueza das Nações) definiu a riqueza como o conjunto de bens e serviços que aumentam o bem-estar humano. Essa riqueza, segundo Smith, é criada pelo trabalho produtivo, especialmente quando ampliado pela divisão do trabalho e pelo livre mercado. Sua definição: “Todo homem é rico ou pobre de acordo com o grau em que consegue desfrutar das coisas necessárias, das coisas convenientes e dos prazeres da vida”.
Em 1867, Karl Marx lançou o primeiro volume de O Capital, declarando que toda riqueza material é criada pelo trabalho humano. Mas que no capitalismo essa riqueza é apropriada de forma desigual, gerando a chamada mais-valia — o altar sagrado da mitologia comunista.
A maçã, o mercado e o motorista
E então surge Elon Musk com sua visão desconcertante de economia. Segundo ele, a riqueza vai ser criada por robôs e sistemas de inteligência artificial. Ele ousa dizer mais: que esta será uma era de prosperidade jamais vista.
Segundo a revista TechLife, “Musk afirmou que ‘a inteligência artificial e os robôs humanoides irão, de fato, eliminar a pobreza’, apresentando a automação como o único caminho para a riqueza universal. Ele relacionou isso aos seus próprios esforços em robótica, incluindo o programa Optimus, da Tesla, que descreveu como um elemento de um ecossistema mais amplo de trabalho automatizado e produtividade de máquinas”.
Pense no agricultor que plantou e colheu uma maçã. Ao vender a maçã para o mercado, ele criou riqueza. O mercado pega a maçã, higieniza, coloca numa embalagem e entrega na sua casa. E assim, também gera riqueza.
Você comprou a maçã porque, ao trabalhar no seu emprego (digamos, como motorista de Uber), você também gerou riqueza e pôde comprar a maçã produzida pelo agricultor e entregue pelo comerciante. Essa cadeia, quanto maior e mais complexa, mais riqueza produz.
O lado revolucionário da declaração de Elon Musk parte do seguinte princípio: e se a maçã fosse plantada e colhida por um robô? E se o mercado que levou a maçã até você funcionasse à base de inteligência artificial e robótica? E se o seu carro da Uber, ou de outro serviço semelhante, fosse autônomo, ou seja, não precisasse de motorista?
Acontece que as pessoas continuarão precisando de maçãs e de transporte. Teoricamente, a roda da economia vai continuar funcionando. Mas você não vai precisar trabalhar para que ela funcione. A produtividade foi automatizada. A riqueza continuará a ser produzida — agora por robôs e modelos de IA.

O mundo sem dinheiro
Musk disse no fórum que uma parte das pessoas vai precisar continuar trabalhando. Mas para outra parte, talvez a maioria, o trabalho vai ser opcional. Você não vai precisar desperdiçar sua vida num emprego que detesta. Segundo ele, vai poder fazer o que gosta.
Mas como essa riqueza vai ser distribuída à população se as pessoas não estão trabalhando e, portanto, não ganham salário? Aí vem outra previsão de Elon Musk, tão ousada quanto a primeira: não vai ser necessário distribuir a riqueza porque não haverá mais dinheiro. “Acho que, se a inteligência artificial e a robótica continuarem a melhorar, em algum momento o dinheiro se tornará irrelevante”, declarou ele no encontro em Washington.
Como ficaria a vontade que está impregnada em nossas existências sintetizada na frase “preciso trabalhar mais e ganhar mais para ter o que desejo”?
Mas como vamos comprar a maçã sem o salário? Segundo a lógica de Musk, não vamos mais precisar comprar. Ela estará disponível para que o consumidor a apanhe no centro de distribuição (operado por robôs).
É um absurdo? Não: é utópico. Um rearranjo radical das forças econômicas como este não estaria disponível para toda a população global de um momento para outro. Mesmo porque a maior parte da população vive em condições de atraso, muitos em plena Idade Média.

Futuro em aberto
A matéria da TechLife News — a maior disponível sobre o assunto — levanta algumas questões e dúvidas importantes sobre a declaração de Elon Musk. Além da disponibilização gratuita dos produtos, como seria distribuída a riqueza produzida nesse novo cenário?
Não se pode confundir essa situação com nada semelhante ao Bolsa Família e a outros programas assistenciais. O Bolsa Família pega o dinheiro do cidadão brasileiro (por meio de impostos) e o devolve em forma de caridade estatal. Não produz riqueza, só dependência. A economia robotizada proposta por Musk não tem nada a ver com isso.
“Se os empregos se tornarem opcionais”, diz a matéria da TechLife News, “a questão de como o valor e os salários serão distribuídos nesse ínterim permanecerá sem solução. Alguns observadores temem que, em vez de eliminar a pobreza, o acesso desigual aos benefícios da automação possa exacerbar a disparidade entre proprietários de tecnologia e trabalhadores. O papel das políticas públicas, da tributação, das redes de proteção social e da adaptação da força de trabalho provavelmente se tornará central”.
Um modelo desses deverá inicialmente ser experimentado em pequenas comunidades antes de se expandir. Aos nossos olhos de hoje pode parecer absurdo. Como há 50 anos parecia absurda a possibilidade de pagar produtos e serviços com um dinheiro invisível apertando botões num aparelho que carregamos no bolso.

O fator ambição
A utopia de Elon Musk pode trombar com algumas características intrínsecas do ser humano. Como o desejo de querer sempre mais e melhor. Como isso seria resolvido numa sociedade sem dinheiro? Como ficaria a vontade que está impregnada em nossas existências sintetizada na frase “preciso trabalhar mais e ganhar mais para ter o que desejo”? Como quebrar em uma década ou duas o movimento automático de acordar e ir para o emprego sonhando com um aumento? Onde fica nossa permanente ambição?
“A espécie humana prospera porque imagina futuros e tenta materializá-los”, disse o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Sapiens. “A ambição é a resposta humana ao caos”, completa o psicólogo conservador Jordan Peterson. “É o impulso de construir algo melhor do que aquilo que recebemos.”
Elon Musk é o homem que ousou sugerir que a espécie humana precisa de um segundo lar em Marte. Ele pensa longe, muito longe. Sua concepção de uma sociedade em que robôs e a inteligência artificial criam riquezas e os humanos não precisam mais nem trabalhar nem usar dinheiro é ousada e altamente controversa.
Pode ser um delírio, como outros planos do seu passado. Mas, para evoluir, a humanidade precisa de gente ousada, que imagine o futuro sem medo de errar.
dagomirmarquezi.com
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Não entendo no que isso possa ser interessante. Já temos uma geração extremamente emburrecida e acomodada. Imagino como ficaria sem precisar sequer se esforçar para nada. Só damos valor ao que conquistamos.
A vida sem trabalho nunca existiu e na minha opinião nunca existirá (pelo menos para a maioria absoluta de nós). Mas a qualificação do trabalho, que oportunize as pessoas dividirem melhor seu papel laboral com as responsabilidades familiares, sociais, beneficentes/espirituais, de autocuidado, etc, é muito bem vinda. E claro, essa qualificação dependerá massivamente de tecnologia e inovações como as pensadas por E.Musk…
Ainda bem que existem pessoas como o Elon Musk. Pode parecer loucura, viagem, mas o cara é genial.
Muito bom o artigo, como sempre, Dagomir. Mas penso que isso nunca ocorrerá
Penso que para chegar a ser uma utopia ainda falta um pouco de ciência econômica. Para dar enredo ao filme…