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Ilustração: Revista Oeste/Feito por IA
Edição 299

O ano do desengano

Vou te confessar: eu nem sei por que existe a voz dos outros, se a minha já é mais do que suficiente

— Mais um ano terminando… Foi bom pra você?

— Muito bom.

— Opa! Maravilha. Muitas conquistas?

— É, não posso me queixar.

— Qual foi a principal? Sem querer me intrometer…

— Imagina. Minha vida é um livro aberto.

— Um best-seller!

— Sem falsa modéstia, é mesmo.

— Então abre aí no capítulo 2025, só pra dar um gostinho.

— 2025 foi o ano da democracia.

— Você acha?

— Não é que eu ache. Foi.

— Sem discussão?

— Discutir verdade absoluta é perda de tempo, concorda?

— Acho melhor eu concordar.

— Você é sensível.

— Obrigado. Conta mais sobre o ano da democracia.

— Ah, foi lindo. Uma felicidade só. As coisas chegaram à perfeição lá em casa.

— Felicidade começa em casa.

— Mas não pensa que foi fácil. Tive que tomar uma série de medidas corajosas.

— Coragem é tudo.

— O pessoal lá em casa é testemunha. Comecei acabando com as polêmicas na hora do jantar.

— Como foi isso?

— Determinei que a última palavra era a minha. E a primeira também.

— Interessante. E entre a primeira e a última eram permitidas outras palavras?

— Claro! Estamos numa democracia. Qualquer palavra que concordasse com a primeira — e, consequentemente, com a última — poderia ser pronunciada livremente.

— Liberdade é tudo.

— Concordo: liberdade é tudo. Mas o preço é a eterna vigilância.

— Você reforçou a vigilância na sua casa?

— Totalmente. Coloquei de plantão em volta da mesa de jantar um Pitbull, um Doberman e um Rotweiller.

Ilustração: Júlia Xavier/Revista/Feito por IA

— São treinados?

— Sim. Treinados para atacar quem atentar contra a democracia durante a refeição.

— Funcionou?

— Maravilhosamente. Nunca mais ouvi um discurso de ódio na mesa.

—  Só amor.

— Amor e silêncio, que eu não quero falatório depois de um dia cansativo de trabalho.

— Perfeito. A voz dos outros irrita mesmo.

— Já que você concorda comigo, vou te confessar: eu nem sei por que existe a voz dos outros, se a minha já é mais do que suficiente.

— …

— Que bom que você me entendeu.

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3 comentários
  1. André luís de Barros
    André luís de Barros

    Maravilhoso texto! Isso tem que ser aberto para o “dar de presente”. Eu queria compartilhar para algumas pessoas que não são assinantes!

  2. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Fiuza, você utilizou um Pitbull, um Doberman e um Rotweiller o que muito criativo.
    Para infelicidade geral da nação, estamos entregues a ditadores que dilaceraram a Constituição Federal e as Leis.

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