— Mais um ano terminando… Foi bom pra você?
— Muito bom.
— Opa! Maravilha. Muitas conquistas?
— É, não posso me queixar.
— Qual foi a principal? Sem querer me intrometer…
— Imagina. Minha vida é um livro aberto.
— Um best-seller!
— Sem falsa modéstia, é mesmo.
— Então abre aí no capítulo 2025, só pra dar um gostinho.
— 2025 foi o ano da democracia.
— Você acha?
— Não é que eu ache. Foi.
— Sem discussão?
— Discutir verdade absoluta é perda de tempo, concorda?
— Acho melhor eu concordar.
— Você é sensível.
— Obrigado. Conta mais sobre o ano da democracia.
— Ah, foi lindo. Uma felicidade só. As coisas chegaram à perfeição lá em casa.
— Felicidade começa em casa.
— Mas não pensa que foi fácil. Tive que tomar uma série de medidas corajosas.
— Coragem é tudo.
— O pessoal lá em casa é testemunha. Comecei acabando com as polêmicas na hora do jantar.
— Como foi isso?
— Determinei que a última palavra era a minha. E a primeira também.
— Interessante. E entre a primeira e a última eram permitidas outras palavras?
— Claro! Estamos numa democracia. Qualquer palavra que concordasse com a primeira — e, consequentemente, com a última — poderia ser pronunciada livremente.
— Liberdade é tudo.
— Concordo: liberdade é tudo. Mas o preço é a eterna vigilância.
— Você reforçou a vigilância na sua casa?
— Totalmente. Coloquei de plantão em volta da mesa de jantar um Pitbull, um Doberman e um Rotweiller.

— São treinados?
— Sim. Treinados para atacar quem atentar contra a democracia durante a refeição.
— Funcionou?
— Maravilhosamente. Nunca mais ouvi um discurso de ódio na mesa.
— Só amor.
— Amor e silêncio, que eu não quero falatório depois de um dia cansativo de trabalho.
— Perfeito. A voz dos outros irrita mesmo.
— Já que você concorda comigo, vou te confessar: eu nem sei por que existe a voz dos outros, se a minha já é mais do que suficiente.
— …
— Que bom que você me entendeu.
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Maravilhoso texto! Isso tem que ser aberto para o “dar de presente”. Eu queria compartilhar para algumas pessoas que não são assinantes!
Espetacular. Perfeito. Parabéns Fiuza.
Fiuza, você utilizou um Pitbull, um Doberman e um Rotweiller o que muito criativo.
Para infelicidade geral da nação, estamos entregues a ditadores que dilaceraram a Constituição Federal e as Leis.