O governo Lula cansa, é deletério, prepotente e hoje condena o país a mais uma crise, fiscal e moral. Mas deixar o Brasil, mesmo sendo compreensível pelo estado de exceção e insegurança jurídica que afugenta gente séria, será o legado da geração atual de empresários, investidores e da sociedade civil organizada?
Começo com uma pergunta: até quando o Brasil da tal sociedade civil organizada vai apenas tentar se salvar e deixar de salvar o país? A bola da vez é a saída para o Paraguai, para onde crescem as migrações de capital, fábricas e de domicílios fiscais. Eu jamais desconsideraria a dor de ninguém, tampouco os números do regime de Maquila do presidente paraguaio Santiago Peña, um economista liberal e político conservador com formação acadêmica sólida. Para atrair investidores e recuperar o Paraguai das décadas de atraso, implementou um programa com forte redução de impostos, clareza tributária e ambiente favorável aos negócios. Um Estado menor que privilegia a iniciativa privada, o oposto de Lula. É fato que todos têm um limite e o Brasil se tornou um lugar inseguro, não apenas para os investimentos, mas para as garantias essenciais como a liberdade de expressão. Se o Paraguai deixou de ser a piada pronta e jocosa de brasileiros, o mérito é deles. Mas o fantasma da Venezuela dentro do Brasil de hoje é real.
No momento em que começava a preparar esta coluna, fomos os brasileiros surpreendidos com a decisão liminar do ministro Gilmar Mendes, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), de restringir ao procurador-geral da República a prerrogativa de protocolar um pedido de impeachment de ministros do Supremo. Os brasileiros foram rebaixados à segunda classe de cidadãos numa canetada. Não foi a primeira vez. Mas, desta vez, trata-se de um golpe na Constituição que gerou reação coletiva multipartidária no Senado contra o STF. E são justamente os senadores que têm o direito constitucional de processar e julgar ministros da mais alta Corte do país. É verdade que nunca o exerceram, embora não faltem razões.
Pedidos de investigação de ministros do STF dormem na gaveta do presidente da Casa, mas perder a prerrogativa de julgar um impeachment protocolado por qualquer cidadão, como determina a lei, foi um pouco demais, até para o atual Senado, em sua maioria dócil ou sob a coleira do foro privilegiado que os leva para serem julgados por ministros do STF, os mesmos que agora pretendem não serem mais julgados pelos senadores. O primeiro objetivo de um político é ficar vivo no jogo. O segundo, ser relevante. Gilmar Mendes quis acabar com ambos. Daí que a reação dá um certo alento. Não ficou mais fácil retomar o país e libertar o Brasil da ditadura da toga, assumida com esse ato tresloucado — até desesperado de Gilmar Mendes —, mas parece que os excessos supremos começam a incomodar mais gente. E na democracia é gente que faz a diferença, é com maioria que se ganha.

Por isso que, levando-se em conta a debandada ou a desistência de investidores, empresários e toda e qualquer pessoa que desista de lutar pelo país, quantos vão sobrar para fazer maiorias que mudem a realidade? Quando ouço pessoas dizendo que os brasileiros precisam reagir, me pergunto de quem falam senão da ausência de si mesmos? Brasileiros somos todos nós. Como eu permaneço aqui e faço o que faço, expondo-me ao debate público no papel que o jornalismo me dá, apesar dos riscos pessoais diante dos ataques à liberdade de imprensa do consórcio Lula-STF, e trabalhando na Revista Oeste, uma empresa que é perseguida politicamente e chegou até a ser desmonetizada, pergunto: O que cada um está realmente fazendo no campo em que atua? Como teremos maioria com gente deixando de fazer o que poderia ou indo embora?
O Brasil, apesar de tudo o que você vê e que te deixa para baixo, é vital para o mundo. Conseguimos fazer com que o mundo dependesse de nós. E isso é uma conquista imensa, que não foi feita por ninguém do PT ou do lulismo deletério que hoje envergonha o país ao jogar contra as conquistas que são nossas, dos brasileiros. E falo aqui do agronegócio, resultado de talento e pesquisa, de tempo dedicado no longo prazo e resiliência. Hoje, alimentamos 1 bilhão de pessoas no mundo, o que significa dizer que produzimos excedente para alimentar, além dos pouco mais de 200 milhões de brasileiros, outros 800 milhões de pessoas ao redor do planeta. É gente que depende do Brasil para comer. Com tamanha influência na segurança alimentar do planeta, como desistir do país?
O Brasil também representa hoje parte imensa da transição energética do mundo. Nos anos 1970, éramos uma promessa. Hoje, somos a realidade de uma potência global que, no que decidimos ser relevantes — a produção de alimentos — somos imprescindíveis. Na necessidade de energia renovável, imprescindíveis. Em pouco mais de 50 anos, o Brasil foi de um país grande para um grande país. É a importância econômica que nos fez ser uma das dez maiores economias do mundo. E isso vem do agro, da produção de petróleo, da geração de energia limpa e de termos hoje a terceira maior empresa de indústria aeronáutica do planeta, o suprassumo da engenharia industrial.
A Embraer, assim como a Embrapa, a fonte maior da pesquisa que fez o Brasil ser a potência agropecuária de hoje, são criações do regime militar. Ninguém vai deixar de discutir os problemas dos anos de chumbo, os crimes contra os direitos humanos da ala radical do regime. Mas duas coisas precisam entrar na cabeça de todos nós como correções históricas: a visão estratégica dos governos militares nos trouxe conquistas perenes como nação que nos permitiram avançar. E uma imensa parte do outro lado da disputa política não lutava pela democracia, mas pela implantação de uma ditadura comunista. Então, toda vez que você se imaginar obrigado a relativizar a defesa de seu país por questões históricas, repense.
Tentar se descolar da política e se concentrar só no seu negócio, como muita gente acredita ser a solução, não é mais efetivo. O Brasil de Lula e do STF não mais permite isso.
E na história que estamos escrevendo nos dias atuais, o governo Lula está explodindo as contas públicas do país uma vez mais. Sob gestões desastradas com denúncias de corrupção, está arrebentando as estatais. Na política, voltaram os escândalos, liberação de emendas para “comprar” apoio parlamentar e perseguição a opositores. Na economia, alta carga tributária, um Estado inchado e insegurança jurídica que afugenta o empreendedor. Segue à risca o roteiro de Dilma e de desgoverno que a esquerda latino-americana e, em especial, a brasileira, praticam sem pudor. Mesmo assim, muita gente se deixa levar pelo barulho político que o lulopetismo gera toda vez que chega ao governo. E o faz justamente para tirar a atenção da sua incompetência na economia, da falta de conexão com o Brasil que dá certo. Não por acaso, Lula chama o agronegócio de fascista. O maior ativo de soft power do país é ofendido com mentiras pelo presidente.

Até outro dia, apostou na polarização com Bolsonaro. Como não consegue mais esconder as evidências do julgamento absurdo e a perseguição política do STF, recorreu novamente à luta de classes. Mais uma vez, insiste na indigente manipulação do “nós contra eles”, do rico contra o pobre. Tenta ganhar tempo com isso porque ele, Lula, não pensa no Brasil nem no cidadão, pobre ou rico. Lula pensa nele, em seu projeto de poder e em mais nada. E para isso não se importa em quebrar os Correios pela segunda vez e produzir um déficit nas estatais que, de acordo com projeções do próprio governo, pode chegar a R$ 9 bilhões até dezembro. O endividamento do país atinge níveis alarmantes e de comparação só com o período da pandemia. Já chegou a 78,6% do PIB e a quase R$ 10 trilhões em todo o setor público. Dívida pública é paga pelo pagador de impostos. O rombo dos Correios já obrigou o governo a contingenciar R$ 3 bilhões dos ministérios para tentar fechar a conta. Mas o contínuo comportamento permissivo do governo com os gastos hoje terá de ser pago no futuro. Como sempre advertiu o ministro Paulo Guedes, que entregou o país com superávit primário de R$ 54 bilhões no final do governo Bolsonaro, a irresponsabilidade fiscal de hoje se transforma em dívida que será paga pelos jovens lá na frente. Os jovens pobres e os jovens ricos, todo mundo.
Então, vale a pergunta de novo: o que vai fazer a sociedade civil organizada brasileira? Essa gente de federações, universidades, associações e entidades de classe? Vai todo mundo se abster do debate e deixar o país para quem o está destruindo justamente porque muita gente cedeu e abriu mão da sua importância política, de estar à frente do debate? A venezuelização do país, não vou negar, é uma realidade, mas não imparável. Todos vão continuar achando que proteger seu patrimônio no Paraguai ou em outro lugar no exterior basta, enquanto caem na armadilha do barulho político, ignorando o caos econômico e jurídico do governo Lula e do Supremo Tribunal Federal que empurra o país para o buraco? Esperar até a eleição do ano que vem pode ser muito arriscado. Falta muito tempo ainda. É preciso fazer melhor, mais e agora!
Sem menosprezar as dores de quem pode estar cansado, a necessidade de preservar o capital e o negócio, o meu ponto é que com todo esse cenário real de oportunidades que temos, com o mundo da geopolítica em ebulição, a relevância do Brasil — que teve a competência de se tornar essencial ao mundo em segurança alimentar e energética — voltaremos umas dez casas se este empresário e suas associações não agirem em defesa do país já. Tentar se descolar da política e se concentrar só no seu negócio, como muita gente acredita ser a solução, não é mais efetivo. O Brasil de Lula e do STF não mais permite isso. As coisas estão diferentes. O pós-pandemia criou um mundo novo. Não há salvação automática lá fora, como quando o poeta Manuel Bandeira descreveu o refúgio ideal e escreveu “vou-me embora pra Pasárgada”. Ainda mais quando você abre mão do país que hoje é vital para o planeta. E que foi você, seus pais e avós que fizeram isso tudo acontecer.

No Brasil, o problema e a solução estão aqui. Somos dos poucos lugares que conseguem resolver seus problemas internamente. Isso é um privilégio, não que não seja dolorido e demorado. Mas não se faz nada sem gente presente aqui e disposta a fazer a maioria que se junta para ir para o lugar certo. Desistir ou ir embora é algo meio antiquado. Não apenas porque não caberia todo mundo na Flórida, em Paris, em Portugal, no Uruguai e também não caberá no Paraguai. Depois da globalização, estamos hoje sob a geopolítica feroz da preservação de espaços, influências e interesses, o que chamo de nacionalismo de sobrevivência. Entender isso é fundamental. Veja o comportamento de Donald Trump, de Xi Jinping ou de qualquer governante que não abre mão de ser quem decidiu ser. A pergunta é se vamos fazer o mesmo ou ficar novamente assistindo, sem protagonizar o que devemos protagonizar porque fizemos por onde.
Leia também “Só a redemocratização do Brasil nos salva”



Achei bonito, porém os que tentam lutam estão presos ou sendo cassados.
Não adianta ir a manifestações, são inócuas. É cada um por si. Os miseráveis do bolsa família que mais se prejudicam são os que mais apoiam essa quadrilha, bem como os bandidos e universitários acéfalos.
Acho que a única solução atual é o separatismo. Acabaria com Brasília e cada estado poderia prosperar por si sem ficar dependente da boa vontade do governo central
Grande Pioto. Grande. Forte abc.
Piotto, no período 1964-1985 lembro da propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Há 50 anos poderia fazer algum sentido deixar o país. Éramos dependente de quase tudo, inclusive de alimentos.
Em 1969 nasceu a Embraer, hoje referência mundial, através do esforço do Marechal Casimiro Montenegro Filho e do Coronel Ozires Silva.
Em 1972 o General Médici juntamente com o Ministro da Agricultura Luiz Fernando Cirne Lima, lançaram a EMBRAPA que com árduo trabalho de pesquisadores, desenvolveram ciência levando ao homem do campo conhecimento que revolucionou a agricultura nacional.
São dois grandes legados deixados pelos militares. Hoje com mais informação e muitas oportunidades não podemos arredar o pé e deixar que os “camaradas” se apropriem do país em detrimento do povo.
Vou lutar com todas as armas e forças para deixar aos meus netos algum legado, mesmo que não seja do tamanho de uma Embraer ou uma Embrapa.
Caro Adalberto, qualquer luta precisa não só da participação de todos, como você bem coloca, mas também de uma liderança que indique rumos e ofereça algum tipo de suporte aos seus seguidores.
Quem é esta liderança no Brasil hoje ?
Não temos nada.
Congressistas inúteis, governadores covardes ou acomodados, partidos que são gangues, instituições cooptadas e caladas, militares traidores ….
Se caras com poder real como Tarcísio, Castro, Zema, Caiado, Ratinho, Jorge Melo, não fazem absolutamente PORRA NENHUMA, vou fazer eu sozinho aqui no meu negocinho ?
É triste mas a única saída é a estrada ou o aeroporto .
Caríssimo Adalberto Piotto,
Extremamente louvável seu apelo, mas ponha-se no lugar do brasileiro, em especial do empreendedor que responde por inúmeros empregos e VIDAS. Está difícil ser brasileiro e, mais ainda, patriota. Este que lhe escreve está presidente de uma Associação dos Proprietários, Possuidores e Interessados em Imóveis nos Municípios de Araquari e Região Norte (Santa Catarina), a ASPI (CNPJ 07.334.973/0001-06). Lutamos, há mais de 20 anos, contra pretensões indigenistas que se aproximam de 100 milhões de metros quadrados. Não havia indígenas aqui nem na Constituição de 1988 (artº 231) e tão pouco no Marco Temporal. Foram plantados. Provamos isto na Justiça Federal em decisão confirmada e unânime no TRF4, no entanto, como bem frisou Pedro Malan “- No Brasil até o passado é incerto” e vivemos dramas permanentes, presentes e em avanço. Estou lhe falando de uma das regiões mais prósperas e produtivas do país, 25% do PIB catarinense, berço de empresas de reconhecimento mundial como Tupy, Embraco, Lunelli, WEG, Rovitex. Buddemeyer, Incofios, Tigre, Karsten, Altenburg e tantas outras que honram o catarinense, o brasileiro e revelam o empreendedorismo e a relevância desta região. Pois então! Algumas destas marcas já são empresas paraguaias e, como bem disse a presidente Liliana Aufiero ““Não é que a Lupo foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a gente para o Paraguai.” ou como sintetizou certa vez o impagável Arnaldo Jabor “- O Brasil é o país onde tudo acontece e … nada acontece.” ou como também definiu Paulo Guedes “Colocam uma bola de ferro em uma perna do empresário, outra bola de ferro em outra perna e gritam: – Corre que o chinês tá vindo!” Perguntemos aos 8 milhões de venezuelanos que deixaram seu país desde 2014 se não amam sua pátria e se não gostariam de lutar por ela? Quando a subsistência de sua família, o direito aos bens que tanto nos custou ou a sobrevivência de um negócio que responde pelo emprego e renda de milhares se vê ameaçado pela insanidade estatal e institucional ficamos como? O Brasil que tanto amamos e cujas qualidades são louvadas e merecidas no seu texto se criou exatamente porque pessoas tiveram que MIGRAR PRA VIVER. O Brasil que acolheu é o mesmo que está expulsando, infelizmente e, se nada muda, que fazer, morrer como herói deixando órfãos ou buscar alternativas?
Errata: o “quadrilátero do PIB” (regiões de Joinville, Jaraguá do Sul, Blumenau e Itajaí) respondem por 2/3 (67%) da economia do estado de Santa Catarina. Joinville, sozinha, responde por 25%.
Excelente suas colocações. Trista mas é a realidade.
Gosto do otimismo do Piotto, mas tenho que concordar com todas suas colocações, e a insegurança jurídica que o país vive já deve estar sendo percebida pelos reais investidores depois do episódio da ‘tomada’ da Eldorado Celulose do grupo indonésio Paper Excellence pelos ‘campeões’ da safadeza Joesleys. A entrada de dolares que está baixando o dólar e fazendo marola na bolsa só reflete isso, são especuladores que vem pelos estratosfericos juros causados pela política suicida do ladrao e esses sabem dos riscos mas sabem muito melhor quando fugir antes do desastre, são especialistas nisso…
Resumiu tudo que eu penso, sr. Maurício. Piotto é excelente, mas esse otimismo exagerado está fora de cogitação. Eu mesmo não quero ser mártir de ninguém. Quem tiver o mínimo de chance tem mais é que emigrar mesmo. Deixa o brasil pros esquerdistas que lutaram tanto pra transformar isso aqui nesse inferno. O último a sair apague a luz.