A guerra iniciada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 foi vencida por Israel e provocou uma dramática mudança no equilíbrio de forças local em favor do Estado Judeu. Isso não significa que os confrontos terminaram — e há quem duvide que terminarão um dia —, mas representa o mais importante avanço no Oriente Médio das últimas décadas. Se não em direção à paz, pelo menos no sentido da estabilidade.

Além de Israel, saem fortalecidos da guerra os países moderados da região. “A maioria das nações árabes abandonou há tempos a luta contra Israel. Elas não apenas aceitaram que não têm capacidade para destruí-lo, como também entenderam que compartilham dos mesmos interesses geopolíticos”, explica Dan Schueftan, um dos principais especialistas israelenses em segurança nacional e diretor do National Security Studies Center da Universidade de Haifa.
Do lado oposto, estão as ideologias radicais que envenenam a geopolítica regional, nunca tão isoladas e vulneráveis como agora. Enfraquecê-las ainda mais tornou-se um dos grandes objetivos compartilhados principalmente por Israel, as nações árabes moderadas e Donald Trump. Para Washington, para quem a teologia tem muito menos importância do que a segurança, o controle de ideologias destrutivas é tão fundamental quanto o controle militar. “Nesse momento, está claro para todos que lutar contra o extremismo é o caminho para a paz”, resume Yaakov Amidror, ex-diretor do Departamento de Pesquisa da Inteligência Militar de Israel e atual membro-sênior do Jerusalem Institute for Strategic Studies.
Busca pelo equilíbrio
Por décadas, líderes radicais dominaram o universo árabe. Israel sentiu essa realidade na carne, enfrentando guerras sangrentas e sempre iniciadas por vizinhos pouco amistosos. O primeiro país a desistir de sua empreitada antissionista foi o Egito, que assinou um acordo de paz com Israel em 1979. Em 1994, a Jordânia fez o mesmo e, em 2020, os Acordos de Abraão, concebidos durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump e assinados por Israel, Marrocos, Emirados Árabes, Bahrein e Sudão, consolidaram a estratégia de cooperação. Outros países, como o Cazaquistão, começaram a se unir a esse grupo, o qual provavelmente será seguido pela maior nação muçulmana do mundo, a Indonésia.
Também o discurso dentro do Oriente Médio está em transformação. Diversos líderes árabes, antes calados, agora se posicionam abertamente contra o extremismo nos bastidores. Algo notável, mesmo que, perante seus cidadãos, ainda se sintam obrigados a defender seus “irmãos árabes” em troca de paz nas ruas.
“Países como Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados e Marrocos não podem enfurecer seu público local celebrando abertamente o enfraquecimento de seus inimigos. Todavia, eles sabem que a resiliência, a estratégia e a tenacidade dos israelenses contra grupos radicais são fundamentais para sua segurança — e, por vezes, sua própria existência”, afirma Schueftan.
A solidez dos Acordos de Abraão comprova essa afirmação. “Nenhum dos países se retirou dos acordos durante a guerra entre Israel e Gaza porque não apoiam o ideal, a ética ou o extremismo do Hamas. Nos bastidores, seus líderes abertamente pediram a Israel para destruí-lo”, comenta Amidror. Os Emirados Árabes e a Arábia Saudita continuam exercendo pressão ao se recusar a participar do esforço de reconstrução de Gaza enquanto o Hamas não cumprir sua parte no Plano de 20 Pontos de Trump, entregando armas e governança.

Moderados versus radicais
Enquanto a região buscava seus próprios caminhos para a modernização ao longo das últimas décadas, as nações árabes encontraram dois caminhos. Alguns deles, a exemplo de Iraque, Síria e Líbano, aderiram à ideologia extremista que desencadeou guerras devastadoras. Outros, como Marrocos, Tunísia e Egito optaram pela via diplomática e conciliatória. Parte deles tornou-se de fato símbolo de prosperidade e estabilidade.
Esses países hoje constroem, aberta ou veladamente, uma relação saudável com Israel e o Ocidente. Os Emirados Árabes são um bom exemplo, segundo Schueftan. “Há poucas semanas, ministrei um curso sobre a História do Extremismo no Oriente Médio em uma universidade emiradense. Ali, os alunos aprendem a partir de uma percepção de tolerância. Na capital, Abu Dhabi, o governo construiu uma igreja, uma sinagoga e uma mesquita, todas com igual destaque, para mostrar que todos os filhos de Abraão, o patriarca das três religiões, são respeitados.”

Um elemento comum entre muitos desses países moderados é a monarquia. “As diferentes tribos locais e correntes fés usufruem de convivência harmoniosa sob o monarca, figura paternal e tradicional. Foi a forma como o Islã encontrou seu lugar no mundo e se adaptou à modernidade”, afirma o saudita Aimen Dean, diretor executivo do Five Dimensions Consultants, consultoria estabelecida em Dubai que conduz pesquisas sobre o financiamento do terror.
Ele acrescenta: “As monarquias mantêm um contrato social paternal com a população, o que explica a ausência de diásporas significativas, bem diferente do que ocorre com a Síria ou Líbano, por exemplo. Foram as famílias reais que limparam estes países de suas jihads (guerras santas islâmicas). Claro que não são um paraíso de liberdade de expressão ou de consciência, mas há algo de singular e cômodo nesse sistema”.
A contenção dos bárbaros
Embora reis e emires possam garantir alguma paz interna e acordos acelerem o desenvolvimento da região, hoje entende-se que a estabilização dependerá da contenção da agressividade iraniana e também da capacidade bélica do Hamas. Israel aprendeu, em 7 de outubro de 2023, que não pode permitir o fortalecimento de extremistas que pregam a destruição — sua ou de outros.
Schueftan classifica como bárbaros todos os braços militares do Irã: Houthies, Hezbollah, Hamas ou outras milícias. Para ele, negociações com esses grupos são inócuas: a única saída, acredita, é a erradicação. “Há algo de profundamente errado que, de fora, não se conserta. A radicalização do Islã os tornou catastroficamente autodestrutivos. Por isso, quando falamos em Gaza, acredito que eventualmente as casas possam ser reconstruídas, mas não a sociedade”.
Para a Irmandade, governos seculares são suspeitos e a versão fundamentalista do Islã deve reger a vida pública e privada.
E o que cabe a Israel fazer diante de um panorama irremediável colado em suas fronteiras? “O desafio do país é continuar sendo uma sociedade construtiva, aberta, pluralista e disposta a lutar contra bárbaros sem, no entanto, usar da mesma violência obscena que eles usam”, resume.
Um desafio e tanto, ainda mais pelo fato de existir um outro inimigo feroz na região, forte, astuto e bem financiado, ainda pouco discutido fora do Oriente Médio: a Irmandade Muçulmana.
Ummah, a grande nação árabe
A Irmandade Muçulmana foi fundada em 1928 no Egito, então sob governo britânico, como reação à influência ocidental no Oriente Médio — o que torna Israel o seu principal alvo. O movimento defende a criação da Ummah, ou seja, a grande nação árabe unificada que seria regida por uma única liderança religiosa sob a Sharia, o sistema islâmico de leis.
Seu slogan defende que “a jihad é o nosso caminho e a morte em nome de Deus é a nossa maior aspiração”, e evidencia a religiosidade e a militância que marcam o movimento. Para a Irmandade, governos seculares são suspeitos e a versão fundamentalista do Islã deve reger a vida pública e privada.
Amidror explica que o movimento opera em dois campos. “O primeiro é chamado de Dawa, e representa o suporte a todos os aspectos da vida: educação, saúde, caridade etc. O segundo é seu forte approach militar, bastante visível na sociedade palestina, por exemplo”.
Como principal patrocinador do Hamas, o movimento demonstrou como pode transformar um território em uma nação extremista e jihadista — algo que também tentou fazer com o Egito. Durante um breve governo, entre 2012 e 2013, seu representante, o ex-presidente Mohammed Morsi, apresentou uma nova versão de Constituição que cerceou a liberdade de imprensa, pressionou minorias e oprimiu dissidentes. Morsi foi deposto em um golpe de Estado.

Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito, assombrados por esse projeto, baniram a Irmandade Muçulmana de seus territórios. O grupo então moveu suas lideranças para a Turquia e o Catar, que hoje acolhem os personagens políticos que formatam a narrativa radical islamista.
Perseguido no Oriente Médio, o movimento migrou para o Ocidente, onde poucos líderes entendem o porte da ameaça que ele representa. É fácil adivinhar onde estão os seus maiores hubs: são justamente aqueles que elegem o maior número de legisladores islâmicos, são palco de constantes atentados terroristas e se destacaram nos noticiários dos últimos dois anos com acampamentos e manifestações pró-Hamas. Entre eles, Londres, Birmingham, Munique, Dublin e Paris. Trump está ingressando nessa batalha, começando pelo desafio de romper a intrusão do Catar e a disseminação da ideologia jihadista nas principais universidades do país.
A exportação do radicalismo
O único país ocidental a criar um mecanismo para prevenir a invasão dos islamistas foi a Áustria, que baniu a Irmandade Muçulmana em 2021. O termo “invasão” é válido uma vez que, nas nações em que ingressam, esses grupos extremistas não procuram assimilar-se à sociedade local, mas se diferenciar e impor seus próprios princípios.
“Se derem ao Islã mais 50 anos, toda Nova York será regida por tribunais de Sharia”, opina Youssef.
Não se trata de uma simples inadequação cultural. “Valores islâmicos e ocidentais são incompatíveis. Por isso os jovens que pertencem à segunda ou terceira geração de imigrantes, como eu, vivem uma crise de identidade: somos muçulmanos ou somos ocidentais? Não é possível sermos os dois e por isso vimos tantos deles se juntando ao ISIS em 2015”, conta Ismail Youssef, ativista social canadense criado dentro da fé islâmica. Ele a abandonou após viver sua própria crise, que o levou à conversão ao cristianismo e ao seu ativismo contra o extremismo religioso.
Youssef exemplifica o choque de valores citando outros aspectos culturais islamistas desconhecidos no Ocidente como a Taqiya, que pode ser traduzida como “dissimulação preventiva”. “A mentira é aceita quando é empregada para fins específicos como, por exemplo, em ações que visem à expansão do domínio islâmico. Um islamista pode mentir sem ser considerado como pecador quando afirma publicamente que aceita a homossexualidade, cuja condenação, no Islã, é a pena de morte”, conta.
Não à toa, a eleição do novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, causa grande preocupação entre os mais letrados no tema. “Ele está visivelmente praticando a Taqiya. Se derem ao Islã mais 50 anos, toda Nova York será regida por tribunais de Sharia”, opina Youssef. Suas palavras são reforçadas pela declaração de Fouad Izadi, professor de Política Internacional da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade de Teerã: “O regime iraniano está celebrando a eleição de Mamdani”. Não por acaso, Amidror afirma sem medo de errar: “Quem rastrear os seus patrocinadores, certamente encontrará conexões com a Irmandade Muçulmana”.
A batalha contra os radicais está apenas começando.

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