publicidade
Membros da unidade especial da Polícia Militar detêm suspeitos de tráfico de drogas durante uma operação policial contra o narcotráfico na favela da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025 | Foto: Aline Massuca/Reuters
Edição 294

Experimento social fracassado

Claro que não é sintoma de uma sociedade saudável festejar as mortes dos bandidos, em vez de torcer pela prisão dessa turma. Mas eis o ponto: o Rio não é um local saudável

Há pouco mais de uma década, tomei a decisão de ir embora do Brasil, ou melhor, do Rio de Janeiro. A decisão teve ligação com a reeleição da Dilma, mas também com a violência do meu Estado. Nunca aceitei normalizar o absurdo, como tanto carioca faz. Carro blindado, locais proibidos, carteira do bandido e muitas outras adaptações que vamos fazendo e achando que isso é vida normal. Não é. O Rio é um experimento social fracassado.

Sede da Globo, é no Rio que os artistas se criam e o Psol consegue eleger seus poucos deputados. Claro que nenhum problema é isolado do Rio, mas ali tudo parece exacerbado. E o principal ponto é justamente a vitimização dos marginais, algo que Lula repetiu esses dias. No Rio, a polícia é demonizada por parte da elite, enquanto a bandidagem acaba sendo até enaltecida.

O povo cansou disso. Daí a repercussão positiva da operação que ceifou a vida de mais de uma centena de bandidos. O abismo ficou evidente: a esquerda obcecada com a “letalidade policial”, e o povo comemorando os “CPFs cancelados”. Falta a essa turma do andar de cima mais contato com a realidade do povão.

Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Claro que não é sintoma de uma sociedade saudável festejar as mortes dos bandidos, em vez de torcer pela prisão dessa turma. Mas eis o ponto: o Rio não é um local saudável. E, após tanto tempo de abusos e terror, o povo vibra: “bandido bom é bandido morto”. É preciso tentar compreender o fenômeno, e ele tem ligação direta com a impunidade.

A polícia prende, a Justiça solta. Assim tem sido faz tempo. A sensação é de enxugar gelo. Marginais armados com fuzis ficam em média oito meses atrás das grades apenas, e há relatos de bandidos presos dezenas de vezes, apenas para serem soltos novamente. A esquerda criou um enorme aparato de impunidade, desde a audiência de custódia até as saidinhas, tudo conspirando contra o povo honesto e trabalhador.

É só nesse contexto que podemos compreender a reação da população carioca, que clama por um Bukele para combater a criminalidade de verdade. Ninguém aguenta mais tanto desaforo! Milhares são alvos dos marginais todos os anos, verdadeiros Estados paralelos surgiram como consequência da ausência estatal, e isso vem desde Brizola até Fachin, com a ADPF 635. Tudo que vai dificultando o combate ao crime é convite para mais crime.

Fachin linguagem neutra escolas
Edson Fachin, ministro do STF | Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

As elites cariocas parecem não ter entendido ainda o conceito da janela quebrada e da tolerância zero. Essa turma mora em condomínio fechado com segurança, anda de carro blindado, mas não consegue fugir totalmente das consequências de suas próprias ideias nocivas. Afinal, até pela sua geografia, o crime organizado tomou conta de favelas dentro de bairros nobres. Não dá para escapar totalmente do crime.

Não obstante, essa elite se recusa a tratar esses vagabundos como responsáveis por seus atos, ignorando que a criminalidade é uma escolha. O Nobel de Economia, Gary Becker, mostrou que há um cálculo racional feito pelos marginais, ou seja, o custo da marginalidade precisa aumentar para coibir a adesão de mais jovens ao crime. Isso se faz combatendo a impunidade.

Mas é difícil executar essa estratégia quando se romantiza a criminalidade, quando tantos “especialistas” que nunca chegaram perto de uma arma resolvem sair em defesa dos marginais. Eles se dizem experts em segurança pública, mas estão apenas no papel de proteger bandidos, de enxergar o “ser humano por trás do fuzil”. Nunca priorizam suas vítimas inocentes.

Há também o fator corrupção, especialmente no Judiciário. O Tribunal de Justiça do Rio é conhecido pelos escândalos de vendas de sentenças. Não podemos descartar a ideologia: não são poucos os juízes e desembargadores que adotam a mesma visão “progressista” sobre a criminalidade. Eis o caldeirão que cria o cenário de guerra que vemos no Estado.

Pessoas passam em moto na praça da Vila Cruzeiro ao lado de barricadas que foram colocadas para conter o avanço de policiais durante a Operação Contenção | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Mudar isso é muito difícil, pois a bandidolatria está enraizada em instituições e na mentalidade de parte da elite. Os policiais ficam praticamente isolados, atuando como heróis e ainda sendo tratados como “fascistas” pela turma Global. Qualquer mudança mais estrutural passa pela mudança de mentalidade dessa turma. Mas esperar tal mudança é muito otimismo, e basta ver as reações dos suspeitos de sempre após a operação desta semana.

Pobre Rio de Janeiro! Abandonado às traças, dominado pelo crime organizado, basicamente um narcoestado. E o governo federal sequer aceita definir tais grupos como terroristas, sendo que suas ações se configuram claramente como atos terroristas. Aliás, atentado contra o Estado de Direito é dominar territórios e usar drones com bombas, não usar batom em estátua.

O Rio precisa de um reset. O problema é que muito carioca se julga malandro, e onde há malandro demais para otário de menos, as coisas costumam desandar. Como um carioca que escolheu fugir do Rio, posso atestar: aquilo é um experimento social fracassado. Ou se muda quase tudo desde o começo, com ideias básicas sobre a natureza humana, ou a tendência é a situação só piorar.

Leia também “Boulos, ministro”

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Essas Facções criminosas são terroristas, terroristas tem que ser tratados como terroristas

  2. Adriana Fossa
    Adriana Fossa

    Constantino, perfeita (como sempre) sua coluna. Gostaria aqui de acrescentar uma observação sobre os juízes com viés progressista: na verdade, um entrevista concedida no último final de semana, por uma juíza paulista da Vara de Execuções Penais (e membro de mais um conselho inútil). Indagada sobre os excessos relativos às audiências de custódia, disse que a população é vítima de ‘fake news’ (ou a tal ‘desinformação’) e que, pasme, não há outra alternativa para crimes com pena mínima de 4 anos de detenção. No entanto, a maioria dos crimes aqui em SP (como roubos de celular e alianças), como o próprio nome diz, diz respeito ao crime de roubo, cuja pena mínima é 4 anos de reclusão. Isso para o roubo simples, que quase nunca ocorre, pois a maioria dos casos são roubos qualificados, ou seja, mediante uso de arma de foto e/ou violência (o que já enseja um aumento na pena em 1/3). Ou seja, uma juíza mente de foram descarada em rede nacional para justificar essa soltura deliberada de bandidos que passam por porta giratória. E, ao final da entrevista (se é que pode assim ser chamada), diz que a solução é a educação. UAU! Colocar os bandidos na escola, que lindo não é ? Na verdade, estarrecedor. Enfim, um desabafo ao absurdo de entrevista que parei para assistir e que corrobora seus argumentos quanto ao viés progressista dos julgadores (especialmente em primeira instância, onde são realizadas essas audiências). Faz muito bem morar longe daqui. Minha filha já foi. Eu, quando aposentar, cairei fora se Deus quiser. Estou na fase da perda total (de esperança) com isso aqui. Abraços.

Anterior:
Celebração da ignorância
Próximo:
Réveillon fora de época
publicidade