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Filipe Martins | Foto: Divulgação/Redes Sociais
Edição 293

A justiça como arma, a verdade como escudo

Filipe Martins é vítima de uma máquina que inverte a lógica: primeiro o veredito, depois os “fatos”

“Mostre-me o homem, e eu encontro o crime.” A frase de Lavrentiy Beria, chefe da polícia secreta de Stalin, ressoa como um alerta sombrio no Brasil de 2025. O lawfare, a manipulação do sistema judicial para esmagar adversários políticos, não é só uma denúncia — é uma prática que transforma tribunais em armas de poder e uma ameaça que erode os alicerces da democracia.

Em um país onde a democracia enfrenta testes diários, com ecos da repressão stalinista, o caso de Filipe Martins emerge como um grito de alerta: o lawfare ameaça não apenas um homem, mas a própria essência e legitimidade da justiça. 

Em 2025, o Brasil assiste a Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro, tornar-se símbolo da perseguição judicial política. Preso injustamente em 2024 por ordem do ministro Alexandre de Moraes e sem provas concretas, Martins ficou seis meses na cadeia e agora segue em prisão domiciliar. Além da tornozeleira eletrônica, Filipe está proibido de usar redes sociais e dar entrevistas. Mais que sua liberdade, o que está em jogo é a própria legitimidade da justiça brasileira.

Ministro Alexandre de Moraes, relator Ação Penal 2.694 – Núcleo 4 (21/10/2025) | Foto: Rosinei Coutinho/STF

Ao conversar com especialistas sobre o caso, um aliado inusitado aparece: Cristiano Zanin. Curiosamente, são as palavras do ex-advogado de Lula, hoje ministro do STF, que podem ajudar na defesa de Martins. Para Zanin, quando o Estado manipula processos, ignora evidências e fabrica narrativas, a justiça se torna arbítrio. A defesa de Lula, tão elogiada por ministros como Gilmar Mendes, trouxe o que é chamado de “conduta ultrajante”, termo tirado do direito americano: outrageous government conduct. Zanin apontou que a conduta ultrajante contamina o processo e expõe ações estatais arbitrárias que violam a consciência jurídica, contaminando o processo e exigindo sua nulidade.

E o processo contra Martins é uma farsa frágil de ser mantida. Antes da prisão, o STF ordenou a quebra de sigilo de geolocalização e dados da Uber, medidas requeridas pela acusação. Esses registros comprovam que Martins estava no Brasil em janeiro de 2023, com voos domésticos, transações locais e uso de aplicativos. Ainda assim, a Polícia Federal insistiu na falácia de que ele havia “fugido” do Brasil — uma mentira desmascarada por evidências irrefutáveis.

Quando a defesa tentou acessar os dados fornecidos para a acusação, enfrentou barreiras. Quando os obteve, a justiça os relativizou ou postergou. “Quando o Estado conhece a verdade e prefere a ficção, não é erro; é desvio de finalidade”, argumenta a defesa de Filipe Martins, ecoando o ministro Zanin. Essa inversão não é burocrática, é uma manipulação deliberada, na qual evidências que desmontam a acusação são ignoradas para sustentar uma tese preconcebida. Essa “inversão do método científico”, como Zanin defendeu em 2018, é o cerne do lawfare. No caso de Martins, o processo começa com a conclusão de culpa e seleciona “fatos” que a confirmem, descartando o resto. Exatamente como o chefe da polícia secreta soviética operava.

O ministro Cristiano Zanin profere seu voto no julgamento da Ação Penal 2.694 – Núcleo 4 (21/10/2025) | Foto: Rosinei Coutinho/STF

O núcleo desse problema vai além do absoluto desrespeito às leis e ao processo legal. O cerne é cognitivo e moral: quando a elite operadora da lei perde o vínculo com o real, sofre o que o professor Olavo de Carvalho chamava de “paralaxe cognitiva” — a “verdade” passa a ser aquilo que serve ao poder. No caso de Martins, a acusação e o juiz do caso, Alexandre de Moraes, decidiram ignorar que ele estava no Brasil na data de sua suposta fuga do País — com evidências irrefutáveis — e que a tal “minuta do golpe”, atribuída a ele, jamais foi encontrada ou apresentada nos autos.

No dia 10 de outubro, outro problema para a acusação chegou do Norte. A carta do CBP, órgão da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, desmonta completamente a mentira inicial da acusação de que Filipe havia fugido do Brasil e da nossa (in)justiça. De acordo com a agência do governo americano, não há registro de entrada e o texto condena o uso de dados falsos para justificar a prisão de Martins.

E, como num rebote, a conduta ultrajante do sistema foi mais uma vez escancarada, desta vez em um novo ofício da Polícia Federal assinado pelo delegado Fabio Shor. O documento agora alega que Filipe Martins — pasmem! —, na verdade, “forjou” uma entrada nos EUA para enganar as autoridades brasileiras (e ser preso mais tarde por isso!).

A revelação do CBP expõe a fragilidade da acusação, mas a conduta arbitrária do delegado Fabio Shor vai além da caçada a Filipe Martins. No ofício, o delegado ameaça todos os que ousam questionar as investigações, rotulando-os como parte de uma “milícia digital”, e pedindo inquérito contra advogados, jornalistas e influenciadores que destacam as inconsistências e fragilidades do caso. Mais uma escalada que transforma o contraditório em crime e reforça o lawfare.

marcel van hattem
O deputado Marcel Van Hattem mostrou foto do delegado Fabio Alvarez Shor | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

A conduta ultrajante é a instrumentalização da justiça por uma classe dirigente desconectada da realidade, que antecipa vereditos, seleciona fatos e sufoca o contraditório. Como Beria, que fabricava crimes para Stalin, o sistema contra Martins escolhe o homem e constrói o delito. A tradição filosófica ensina que a justiça só é justa quando submetida, à força, à verdade. Quando o Estado exige que o réu prove sua inocência contra uma narrativa fabricada, e mesmo assim ignora os resultados, abdica do Direito enquanto ciência e produz um simulacro.

A acusação contra Filipe Martins, através da ótica do advogado Cristiano Zanin, merece nulidade: um processo viciado não pode seguir — a justiça deve proteger a pessoa, não esmagá-la. A conduta ultrajante, como ele mesmo trouxe para o debate jurídico no Brasil, exige a completa anulação do processo quando o Estado fabrica a culpa. Martins é vítima de uma máquina que inverte a lógica: primeiro o veredito, depois os “fatos”.

O remédio para essa ruptura é restaurar a hierarquia dos bens: verdade acima do poder, pessoa acima do aparato. A conduta ultrajante exige nulidade do processo viciado, responsabilização de quem manipula e transparência total na cadeia decisória. Uma reforma urgente do Judiciário é essencial: igualdade de armas, acesso a provas e juízes que resistam à tentação de dirigir resultados. Sem isso, o Brasil arrisca ecoar Beria, onde a justiça serve ao poder, não ao povo. 

Deputados da 1ª convocação do Soviete Supremo da URSS (Câmara das Nações). Na primeira fileira estão os líderes da União Soviética (da esquerda para a direita): Lavrentyi Beria, Mikoyan, Andreev, Molotov, Kalinin, Voroshilov, Stalin, Kaganovich, Yezhov, Zhdanov (1938) | Foto: Domínio Público

Libertar Martins é mais que um ato jurídico — é um exame de consciência nacional e humildade judicial. O Brasil não pode se alinhar a Lavrentiy Beria, que moldava processos para servir o Kremlin, mas ouvir Cristiano Zanin de que o Estado não pode errar produzindo provas.

Em 2025, com a democracia sob teste, libertar Martins não é favor — é um exame de consciência nacional. Nulidade do que nasce viciado, responsabilização de quem manipula, luz total sobre a cadeia decisória — e uma reforma do judiciário urgente.

 Quando a justiça vira arma, a verdade inteira é o único escudo.

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13 comentários
  1. Emilio Sani
    Emilio Sani

    o comportamento de Shor parece o de alguém que foi responsável pela farsa encomendada e agora está desesperado porque seu chefe mandou ele assumir a culpa sozinho…

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Bota esses caras do STF tudo pra cadeia, não estão vendo que é tudo bandido ladrão traficante terrorista mentirosos

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Artigo brilhante, quando Moraes escolheu Filipe Martins como vítima pensou em focar em um homem que facilmente cairia em armadilhas e faria um delação premiada,inciminando Bolsonaro. Se deu muito mal,conheceu um homem forte com princípios,caráter e coragem. Provou com fatos em toda sua defesa,o indefensável. Passou seis meses preso e foi torturado dez dias em solitária. Manteve-se calado e resiliente, sua defesa fala por ele. Não caiu nas artimanhas de Moraes.

    1. Teresa Guzzo
      Teresa Guzzo

      Um comentário a parte Ana Paula, o programa Leste a Oeste está excelente. Guzzo seria o primeiro a alogia-la efusivamente com seus característicos emogis.

  4. Aeduardo
    Aeduardo

    Artigo incisivo porém agradável na leitura de Ana Paula Henkel, a cada dia mais e mais demonstrando não só a grande e inesquecível atleta do vôlei, mas também uma ‘expert’ na arte da leveza densa informativa de seus textos! Beleza demais e caso clássico de contaminação: Convívio na beberagem com Augusto Nunes e Guzzo acrescentando pronta para substituir o grande jornalista que nos deixou recentemente.
    Sucessos muitos a você grande mineira das gerais!

  5. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
    JOÃO RICARDO ASTOLPHI

    Tudo isso é de um ato vergonhoso e deplorável imenso, apenas demonstra o grau de psicose, psicopatia e sandice de um assassino que ainda tem muito sangue nas mãos! Lógico que não faz nada sozinho, tem o apoio inconteste da mídia comprada, de sua polícia política e de grande parte da população: inerte, ignorante, passiva e leniente!

  6. Elias José de Souza
    Elias José de Souza

    Ana, parabéns por mais um belo artigo.
    Na minha opinião o problema se resolveria com uma simples mudança nos regimentos internos das duas casas legislativas, os presidentes das duas casas legislativas não podem segurar pautas cuja mais da metade de seus integrantes assinaram por pautar um projeto e os presidentes deram de ombro. Na camara dos deputados, o Motta simplesmente ignorou a vontade da maioria e não pautou o projeto da anistia. No senado o Alcolumbre fez o mesmo com relação ao pedido de Impeachment do Alexandre de Moraes.

  7. João Antônio Dohms
    João Antônio Dohms

    Quantos mais Felipes Martins serao alvo de um STF opressor disfarçado de justo ,
    E o pior que contam com a amabilidade e aquiescência de vários ministros do supremo .
    Que vergonha !
    Michel Temer jamais imaginaria ser o start de toda essa patifaria !

    1. Julio José Pinto Eira Velha
      Julio José Pinto Eira Velha

      Desculpe a ingtromissão, mas Temer é o própio patife.

  8. Gilberto Novaes
    Gilberto Novaes

    É preciso celeridade nas investigações do governo dos EUA para revelar o mecanismo e os protagonistas da fraude.
    Filipe Martins, no seu silêncio, se tornou um novo Ghandi e conquistou a empatia de milhões de pessoas.
    Ironicamente, ele pode ser a causa da prisão de seus algozes.

  9. SANIA MARA GUADANINI PEREIRA
    SANIA MARA GUADANINI PEREIRA

    Que Deus tenha misericórdia de todos os perseguidos políticos.🙏🙏

  10. Adriana Fossa
    Adriana Fossa

    Aqui virou o país da inversão das provas. Ora, quem acusa é quem deve provar. Só que não mais. O que irrita é o silêncio dos veículos.Até quando?

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