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Velas e cartas são exibidas em uma exposição durante a abertura da "Exposição do Nova Music Festival", uma instalação comemorativa dedicada às vítimas do ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que será aberta ao público em 7 de outubro de 2025, no histórico Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, Alemanha (5/10/2025) | Foto: Reuters/Nadja Wohlleben
Edição 291

7 de outubro: uma guerra pela alma do Ocidente

Dois anos após o pogrom do Hamas, a luta pela civilização nunca pareceu tão urgente

Nesta semana há dois aniversários: o 7 de outubro, dois anos desde que um exército de sete mil antissemitas invadiu Israel numa campanha genocida de estupro e terror contra os judeus de lá; e o 8 de outubro, que marcará dois anos desde que a juventude e os escolarizados do Ocidente cantaram louvores àquela abominação fascista. Dois anos desde que pessoas em nossas próprias cidades foram às ruas dançar com alegria incontida por aquela Kristallnacht (Noite dos Cristais) islamista. E para chamá-la de “dia de celebração” e gritar “Glória aos nossos mártires”, ou seja, aos homens que tinham acabado de degolar judeus.

Faremos um desserviço a Israel, aos mortos e enlutados do 7 de outubro e a nós mesmos se não recordarmos a atrocidade física do massacre de famílias judaicas por islamofascistas armados até os dentes e a atrocidade moral do apologismo e até mesmo do festejo em aclamação a esses horrores aqui no Ocidente. Pois, se a primeira acendeu uma guerra pela sobrevivência da nação judaica, o segundo confirmou que também estamos numa guerra pela alma do Ocidente. Dois anos após aquele punhal fascista cravado no coração da civilização, as apostas são demasiado altas, como sempre, tanto para Israel quanto para a humanidade.

Membros da comunidade do kibutz de Kfar Aza caminham entre bandeiras e placas colocadas em homenagem enquanto comparecem a um memorial do aniversário de dois anos do ataque mortal de 7 de outubro de 2023 contra Israel pelo Hamas a partir de Gaza, no kibutz Kfar Aza, sul de Israel (7/10/2025) | Foto: Reuters/Ronen Zvulun

A memória mais importante a ser honrada hoje é a dos mortos, dos feridos, dos sequestrados e dos enlutados. Há uma tendência a minimizar o 7 de outubro. O evento chegou a ser envolto em eufemismos. A escória da esquerda o chama de “resistência”, mas mesmo na sociedade “sensata” impera uma espécie de covardia linguística. Há uma relutância em reconhecer a magnitude do que ocorreu naquele dia. Chamam de “ataque”. Dizem que foi “terrorismo”. Entra para a história como o ato impulsivo de um povo desesperado — o “muro [caiu]” sobre a “gigante prisão a céu aberto” e um enxame de humanidade oprimida correu pela fronteira, como diz Ta-Nehisi Coates. Foi orgânico, horrível, “uma tragédia”.

Isso é uma espécie de negacionismo. Palavras evasivas que enterram a selvageria do abalo histórico que os atos contra os judeus há dois anos representam. A verdade é que o 7 de outubro foi um pogrom militar bem planejado e bem executado, impulsionado pela intenção genocida de obliterar judeus. Foi o equivalente aos pogroms militarizados que varreram a Europa Oriental sob o domínio nazista. Em torno de sete mil militantes islamistas participaram. Invadiram Israel por terra, mar e ar. Isso incluiu 3,8 mil das forças de elite Nukhba do Hamas e de suas Brigadas Al-Qassam, e 2,2 mil indivíduos de outros exércitos terroristas, como a Jihad Islâmica Palestina. Mais mil pogromistas permaneceram em Gaza para lançar mísseis sobre Israel. O Hamas estava planejando a invasão desde 2018 — ou “incursão” (mais um termo insidioso usado pela mídia para obscurecer o fato).

Militantes palestinos em um veículo militar israelense que foi apreendido por homens armados que se infiltraram em áreas do sul de Israel, no norte da Faixa de Gaza, em 7 de outubro de 2023 | Foto: Reuters/Ahmed Zakot

Longe de uma corrida espontânea nascida do desespero, o 7 de outubro foi um ato de terror fascista altamente disciplinado. O número de mortos foi de 1.182. Outras quatro mil pessoas ficaram feridas. Dos mortos, 863 eram civis. Foram sequestradas 251 pessoas, 210 delas vivas e 41 mortas. Imagine: 41 cadáveres, na maioria judeus, arrastados para território inimigo como troféus do pogrom para serem zombados e destroçados a pauladas por turbas. Quando as pessoas chamam isso de “ataque”, elas estão, para todos os efeitos, mentindo. A carnificina de judeus e o desfile de seus cadáveres para o aviltamento jubiloso pela multidão não é um “ataque” — é neonazismo, é um pogrom.

Mas nem mesmo os números conseguem expressar com clareza a profundidade da devassidão do 7 de outubro. Para entender a verdadeira natureza daquela ruptura selvagem em nossa civilização, é preciso olhar para as histórias daquele dia. O fato de a vítima mais jovem ter apenas 14 horas de vida. Uma menina baleada ainda no útero da mãe. Ela nasceu, viveu por meio dia e então pereceu. Ou o fato de a vítima mais velha, de 92 anos, ter sido um sobrevivente do Holocausto — Moshe Ridler, que morreu quando um militante lançou uma granada por foguete de propulsão num abrigo seguro onde havia se refugiado. Ridler sobreviveu à fúria exterminadora do nazismo, mas não à cruzada antissemita do Hamas. Ou o fato de que um casal idoso teve que ser identificado pelo único fragmento de osso que restava de seus corpos. Sua casa foi incendiada pelos fascistas invasores. Eles foram reduzidos a cinzas. Arqueólogos levaram três semanas peneirando a fuligem para encontrar algo humano que pudesse ser submetido ao exame de DNA.

Um pôster com uma foto de Oded Lifshitz, 84, que foi sequestrado durante o ataque mortal de 7 de outubro de 2023 pelo Hamas, é colocado em uma cadeira, no dia de um memorial comemorativo, no Kibutz Nir Oz, sul de Israel. Lifshitz foi morto mais tarde em cativeiro (6/10/2025) | Foto: Reuters/Amir Cohen

Era 2023 e, mais uma vez, estavam queimando judeus até a morte. Mais uma vez, a humanidade se viu vasculhando os escombros fumegantes de um prédio incendiado em busca de algum vestígio dos judeus que ali viveram. Aqueles que chamam de “ataque” esse dia de racismo bárbaro perderam o direito de serem levados a sério. Aqueles que o chamam de “resistência” expuseram ao mundo sua própria simpatia demente pelo assassinato de judeus. Como disse a romancista alemã Herta Müller, até chamá-lo de “terrorismo”, lamentavelmente, parece um diminutivo. Foi um “desvio total da civilização”, diz ela. Havia um “horror arcaico nesta sede de sangue que eu não pensava mais ser possível nesta era”.

É disso que hoje devemos fazer um memorial. Não um “ataque”, não uma “tragédia” — mas um ato de selvageria nazista. Uma queima genocida de judeus. Uma brutal invasão dos crimes da história ao nosso século complacente. A homenagem mais justa que poderíamos prestar aos enlutados do 7 de outubro neste segundo aniversário seria dar a esta atrocidade o seu devido lugar nas páginas sombrias da história humana. Reconhecer, finalmente, que foi um crime contra a humanidade que marcou uma época, o herdeiro primitivo da era do Holocausto. Insistir na negação da verdade do 7 de outubro faz com que o luto de Israel só aumente.

Então chegamos a 8 de outubro. O outro dia lúgubre, dois anos atrás, quando multidões dançaram em frente à embaixada de Israel em Londres, expressando alegria pelo assassinato em massa de judeus. Quando islamistas se reuniram na Ópera de Sydney para gritar “F…dam-se os judeus”. Quando os “justos” tiraram suas bandeiras da Palestina da gaveta e as agitaram livremente, horas depois de mulheres terem sido estupradas e crianças terem sido assassinadas sob aquela bandeira. Quando estudantes na América gritaram “Glória aos nossos mártires”. Quando professores disseram que se sentiram “exultantes” com o que tinha acontecido. Quando esquerdistas o chamaram de “dia de celebração”. Quando aquela aliança suicida de ativistas de gênero fluido e islamistas que odeiam judeus saiu às ruas para pedir mais “Jihad” contra o Estado Judeu. Um pogrom não foi suficiente. Mil judeus mortos não foram suficientes. Eles queriam mais.

Um homem passa por uma pichação com os dizeres “7 de outubro, faça de novo” em uma loja de varejo em Melbourne, Austrália (7/10/2025) | Foto: AAP/via Reuters

Este horror, esta atrocidade moral que se seguiu à atrocidade física, continua até hoje. No sábado, meras 48 horas depois de dois judeus serem assassinados num ato de terror antissemita em Manchester, a turba estava de volta às ruas gritando “Viva a intifada”. Não estamos apenas em negação sobre a desumanidade histórica do 7 de outubro, mas também sobre o deleite que isso acendeu entre aqueles que se autodenominam “progressistas”. Nós nos lembraríamos se as pessoas tivessem ido às ruas de Londres para celebrar a Kristallnacht (Noite dos Cristais) — então devemos nos lembrar de que celebraram o 7 de outubro, um pogrom em que dez vezes mais judeus foram massacrados.

O 7 de outubro confirmou que Israel enfrenta uma ameaça existencial em suas fronteiras. O 8 de outubro confirmou que o Ocidente enfrenta uma ameaça existencial dentro de suas fronteiras. Vinda de um establishment cultural, de uma elite liberal, de uma esquerda e de uma turba islamista que viraram as costas para as virtudes da civilização, enfeitiçadas pela barbárie. Israel está vencendo a guerra contra os fascistas que invadiram suas terras há dois anos. Nós, lamentavelmente, não estamos vencendo a guerra pela alma do Ocidente. Lutamos até mesmo para admitir que estamos nessa guerra. Dois anos depois, a digna embarcação de Israel navega estável enquanto o navio do Ocidente ainda se agita no mar aberto de um Contrailuminismo.

Manifestantes pró-palestinos protestam pela libertação de todos os participantes da Flotilha Global Sumud detidos por Israel e pedem o fim da ocupação israelense dos territórios palestinos, no dia do aniversário de dois anos do ataque mortal de 7 de outubro de 2023 contra Israel pelo Hamas a partir de Gaza, em frente à Embaixada dos EUA em Brasília, Brasil (7/10/2025) | Foto: Reuters/Adriano Machado

Há mais uma coisa que recordarei hoje: o heroísmo dos jovens no 7 de outubro. Alexander Lobanov, que ajudou a evacuar pessoas do festival de música Nova, o que levou à sua captura e, mais tarde, ao seu assassinato. Hersh Goldberg-Polin, que pegou as granadas que o Hamas jogou num abrigo antiaéreo e as atirou de volta, fazendo-o perder um braço. Almog Sarusi, que se recusou a deixar a namorada depois de ela ter sido baleada, o que levou à sua própria captura e ao seu próprio assassinato. Shiri Bibas, que segurou seus bebês ao peito e os confortou enquanto eram arrastados para o inferno de Gaza, governada pelo Hamas. E ainda muitos outros a lembrar. Existe um universo alternativo onde o Ocidente ainda não abandonou a razão, onde nossos jovens usam camisetas com os rostos dessas pessoas, e gritam seus nomes, e clamam para que sejam erguidas estátuas em homenagem a esses judeus valentes que resistiram ao terror fascista da melhor forma que puderam, assim como seus antepassados nos guetos. Tornar esse universo alternativo uma realidade é a tarefa de todos nós, dois anos depois do 7 de outubro.


Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy

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