publicidade
Ives Gandra, Dircêo Torrecillas Ramos, Gauthama Fornaciari e Manoel Gonçalves Ferreira Filho | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução
Edição 289

Um tribunal sem freios

Juristas afirmam que o STF extrapola funções, pratica ativismo político e toma decisões que ferem a democracia

O Supremo Tribunal Federal (STF) ocupa hoje um lugar central na vida política brasileira — e, para muitos juristas, esse protagonismo tem se transformado em abuso. A Corte, que nasceu para guardar a Constituição, passou a abrir inquéritos de ofício sem consultar o Ministério Público Federal (MPF), suspender leis aprovadas pelo Congresso Nacional e impor limites à liberdade de expressão, assumindo papéis que não lhe foram dados pelo texto constitucional.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui ganhou contornos dramáticos. Em meio à inércia do Poder Legislativo e à radicalização da política, o STF passou a atuar como Poder hegemônico e até “moderador”, de acordo com o ministro Dias Toffoli. Quem perde no Parlamento, recorre ao Tribunal. E, não raro, consegue reverter votações legitimamente aprovadas por 513 deputados e 81 senadores com a decisão de um único ministro, a exemplo da questão do aumento do IOF.

Essa concentração de poder tem efeitos corrosivos. Além de abalar a separação dos Poderes, mina a segurança jurídica e alimenta um clima de instabilidade permanente. Decisões que deveriam ser técnicas ganham conotação política; medidas justificadas como “defesa da democracia” acabam por violar direitos fundamentais; e o tribunal se vê, cada vez mais, no papel de legislador e executor, ao mesmo tempo que julga.

Juristas ouvidos pela Revista Oeste alertam que esse processo pavimenta o caminho para uma “juristocracia” — regime em que 11 ministros, sem voto popular, decidem sozinhos os rumos de 150 milhões de eleitores. Para eles, o STF já ultrapassou os limites da sua função e precisa de contenção, sob pena de a democracia representativa ceder lugar a uma ditadura togada.

Regime em que 11 ministros, sem voto popular, decidem sozinhos os rumos de 150 milhões de eleitores | Foto: Antonio Augusto/STF

A seguir, o que pensa cada um deles.

Manoel Gonçalves Ferreira Filho

Professor emérito de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo, Manoel Gonçalves Ferreira Filho vê o STF como uma Corte que abandonou a contenção e passou a agir como poder supremo do Estado. Para ele, o caso dos inquéritos de ofício é emblemático: “O art. 43 do regimento do STF só permite a abertura de inquérito se a infração ocorrer na sede do Tribunal”, constatou o jurista. “No Inquérito das Fake News, essa limitação foi ignorada, e a relatoria designada sem sorteio. Trata-se de um vício que, em tese, tornaria o processo nulo.”

Na avaliação de Ferreira Filho, o Tribunal passou a legislar e até a governar, valendo-se de princípios vagos para justificar decisões contrárias à lei. “É um ativismo que transforma a interpretação constitucional em mero pretexto para impor preferências ideológicas”, disse. Ele distingue esse ativismo do governismo, quando a Corte atua em sintonia com o Executivo para atender a interesses do governo de plantão. “Há casos em que o STF enxerga constitucionalidade ou inconstitucionalidade conforme o pedido ou a pressão governamental”, observou o professor.

O jurista também aponta as consequências políticas desse comportamento: a radicalização do debate público, a perda de prestígio da instituição e a percepção de que ministros se alinham a quem os indicou, formando “bancadas” internas. “O STF se empenhou na defesa da democracia, mas adotou a máxima maquiavélica de que o fim justifica os meios”, afirmou. “E, ao fazê-lo, instaurou uma juristocracia em lugar de uma democracia.”

Ives Gandra da Silva Martins

Para o jurista Ives Gandra Martins, professor emérito de diversas universidades, o Supremo se afastou da visão originalista, que limitava sua função à interpretação da Constituição, e abraçou uma corrente consequencialista, segundo a qual os ministros se veem no direito de reescrever a Carta conforme suas próprias convicções. “O papel que a Constituição deu à polícia judiciária foi assumido pelo STF, que passou a se tornar investigativo em muitos casos”, diz Martins.

O professor vê nessa mudança uma transformação preocupante. “Hoje, os ministros não são apenas juízes, mas players do jogo político, o que corroeu a imagem de uma instituição que já foi a mais respeitada do País”, afirmou. Martins recordou que, décadas atrás, ministros do STF circulavam livremente sem seguranças, enquanto hoje necessitam de forte aparato de proteção — reflexo do desgaste institucional.

Sobre como conter abusos, Martins rejeita a via do impeachment e defende a autocontenção dos próprios ministros, citando André Mendonça, Luiz Fux e Edson Fachin como exemplos dessa postura. Ao mesmo tempo, entende que cabe ao Congresso Nacional reagir com clareza: “O Parlamento deveria ter a coragem de legislar, delimitando rigorosamente as competências dos Três Poderes, para evitar a contínua invasão de atribuições”, defende.

Na sua análise, a expansão da Corte decorre do enfraquecimento do Legislativo. “Um Congresso fragilizado abriu espaço para que o STF se tornasse o mais forte Poder da República, capaz de condenar todos, sem ser condenado por ninguém”, adverte. Para ele, a democracia deve ser conduzida pelo Executivo e pelo Legislativo, eleitos pelo voto popular, e não por uma Corte formada por ministros nomeados por um único presidente.

Jurista Ives Gandra Martins | Foto: Reprodução/Alesp
Jurista Ives Gandra Martins | Foto: Reprodução/Alesp

Dircêo Torrecillas Ramos

Para o jurista Dircêo Torrecillas Ramos, vice-presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas, o Supremo avançou sobre competências que não lhe cabem. Ele lembra que a Constituição atribui a função de investigar à Polícia Federal e ao MPF, jamais ao Judiciário. “O Regimento Interno do STF até prevê a abertura de inquérito de ofício, mas ele não pode se sobrepor à Constituição”, ressalta.

Para Torrecillas, o Supremo deixou de ser um órgão técnico para se transformar em ator político. “Quando o Judiciário ultrapassa seus limites interpretativos, estamos diante de um ativismo inaceitável, contrário à separação dos Poderes”, critica. “O fenômeno”, acrescenta, “abriu caminho para que decisões judiciais assumissem papel de normas gerais, em prejuízo da democracia representativa”.

O jurista observa ainda que o Congresso dispõe de instrumentos claros para reagir. Torrecillas cita o artigo 49 da Constituição, que determina que cabe ao Legislativo preservar suas próprias competências, e o artigo 52, o qual prevê a possibilidade de processar ministros por crimes de responsabilidade. “Indubitavelmente, o Congresso pode corrigir os excessos do Judiciário, dentro da legalidade, sem romper o equilíbrio entre os Poderes”, diz.

Na sua avaliação, o Supremo tem adotado medidas que não apenas ferem a Constituição, mas comprometem valores democráticos elementares. Torrecillas cita episódios de censura e desmonetização de contas, bloqueio de bens e prisões sem base legal clara. “A prisão em ginásio de esportes, sem separação de homens, mulheres, idosos e enfermos, os inquéritos com presidente indicado sem sorteio, o flagrante permanente fabricado e a Constituição fatiada são práticas que violam normas democráticas e favorecem determinadas ideologias partidárias”, comenta, em alusão aos manifestantes do 8 de janeiro, detidos em 2023 após um quebra-quebra na Praça dos Três Poderes.

O jurista Dircêo Torrecillas Ramos | Foto: Roberto Navarro/Alesp

Gauthama Fornaciari

O advogado Gauthama Fornaciari, mestre em Direito pela FGV, destaca que a Constituição de 1988 instituiu o sistema acusatório, no qual polícia investiga, MPF acusa e o magistrado julga. “O juiz não pode proceder de ofício”, afirma. “Se toma conhecimento de um crime, deve comunicar ao MPF ou à polícia. Quando o STF instaura inquéritos por conta própria, viola a imparcialidade e rompe o equilíbrio do processo penal.” Ele critica atos que extrapolam a função jurisdicional. “Uma decisão politizada é arbitrária e ilegal”, diz. “Quando um tribunal relativiza até a coisa julgada, como no caso recente da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, temos um exemplo claro de ativismo judicial que contraria a segurança jurídica.”

Na sua visão, cabe ao Congresso reagir por meio de leis mais claras ou até pedidos de impeachment, sem descartar a possibilidade de denúncias internacionais em casos de abusos. Fornaciari também salienta que a judicialização da política expôs ministros a holofotes e a comentários públicos sobre temas em julgamento, minando a credibilidade da Corte.

Ele é categórico ao afirmar que o STF tem violado normas democráticas. Para ele, os julgamentos relacionados ao 8 de janeiro são prova disso: “As evidentes violações ao devido processo legal, ao direito de defesa, ao princípio do juiz natural e imparcial, e a aceitação de delações obtidas por meio de prisão provisória são exemplos de decisionismo jurídico que fragiliza a proteção dos direitos individuais no Brasil”, aponta.

O jurista alerta que essa flexibilização pode contaminar todo o sistema de Justiça. “Em vez de afirmar garantias constitucionais, como deveria, o Supremo cria um mau paradigma que acabará por influenciar as demais instâncias, em prejuízo da segurança e da liberdade dos cidadãos”, avalia.

O advogado Gauthama Fornaciari, mestre em Direito pela FGV | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Leia também “Sem mais tempo a perder”

Leia mais sobre:

8 comentários
  1. Edmar Simplício da Silva
    Edmar Simplício da Silva

    Por curiosidade, eu tenho lido vários artigos de diferentes comentarista, alguns são ou se dizem juristas, porém esses senhores que compõe essa matéria são clarissimos diante das violações que foram e ainda são praticadas por essa atual composição do STF. Como todos afirmam, a mudança tem que partir do próprio legislativo, seja aplicando os dispositivos que já existem na nossa carta, ou reformando os que não deixam clareza.

  2. Luiz Gomes Jardim
    Luiz Gomes Jardim

    Parabéns pela matéria! É preciso denunciar diuturnamente o avanço autoritário do Sinédrio judicial. Matérias assim precisam ser repetidas. Temos uma luta quase religiosa, como diria Raymond Aron.

  3. Marco Aurélio Oliveira De Farias
    Marco Aurélio Oliveira De Farias

    Quanta lucidez em poucas palavras.
    O STF se continuar nessa toada, irá destruir o Brasil.

  4. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    Esses juristas são cheios de eufemismos, ficam o tempo todo pisando em ovos como, por exemplo, afirmam que “podemos estar a caminho de uma juristocracia.”. Qualquer cidadão comum, hoje, com um mínimo de informação (e neurônios) sabe que já estamos numa ditadura!

  5. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Cristyan Costa, infelizmente temos um Legislativo onde muitos tem contas a acertar ou já devidamente sanadas com o STF e isso retira seu poder de ação.
    Esta semana tivemos o caso do Deputado Paulinho da Força em claro antagonismo aos anseios do país.
    A família do Presidente da Câmara vive sob o jugo de Alexandre de Moraes e o Presidente do Senado dispensa apresentações.

  6. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    O STF não faz justiça, apenas cuida de seus interesses pessoais. Está abusando de seu poder há anos,é uma corte política, extrapola de seu poder,sem ser contida pela Câmara e pelo Senado.Vivemos a ditadura da toga,que juntamente com o atual presidente, tirou o Brasil dos trilhos do desenvolvimento econômico. Vivemos tempos sombrios de incerteza, nossas vidas estão sendo ceifadas.Parabens Cristyan Costa pelo artigo.

  7. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Quatro exemplos de dignidade e coragem. Você, com sua matéria, ajuda a espalhar a semente do bem, dos valores inegociáveis. Aliás, tem feito isso na sua curta e já sólida carreira.

  8. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Cristyan, imagina se fossem advogados sem notoriedade que assim se manifestassem. Seguramente estariam sendo investigados como graves ameaças à CORTE SUPREMA.

Anterior:
E se explodir?
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, EUA, em 23 de setembro de 2025 | Foto: Reuters/Mike Segar; México e Peru Próximo:
A ONU e Lula continuam os mesmos. Trump e o mundo, não!
publicidade