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Personagens da série "Kpop Demon Hunters", da Netflix | Foto: Reprodução/Netflix
Edição 288

O K-pop e a escola Netflix

A lista dos filmes mais assistidos no streaming mais popular revela uma anemia artística

Uma princesa é jogada numa caverna onde existe um dragão. Um casal de ex-agentes da CIA vai salvar a princesa quando percebe que o mundo aparentemente acabou, dominado por alienígenas tomados por demônios que não podem ser cheirados ou reagem com violência. A princesa encontra uma versão mais jovem dela que avisa que um cometa está para cair na Terra, mas ninguém liga. O casal de ex-agentes da CIA decide seguir para a Coreia do Sul para coordenar uma ação contra os alienígenas. Na Coreia, os espiões formam uma banda com a princesa, sua versão mais jovem e o dragão — e todos cantam num megashow uma música K-pop que magicamente afasta os alienígenas dominados por demônios. Aguarde a Parte 2.

Este poderia ser o enredo de um filme ideal para os assinantes da Netflix. Ele mistura os conteúdos dos dez filmes mais vistos nesse streaming em todos os tempos. E a Netflix é a campeã de audiência. Tem cerca de 301 milhões de assinantes globais. A Amazon Prime vem em segundo, com 200 milhões, e a Disney+ chega em terceiro, com 128 milhões.

A lista dos dez mais dá uma ideia do que o grande público quer assistir. Aqui nem cabe comparar ao que o cinema já representou em outros tempos. Cada época reflete uma cultura diferente. 

Mas a Netflix se especializou em produzir e divulgar filmes de consumo imediato, que seguem fórmulas fáceis. Já existe até um apelido para isso — é um “filme tipo Netflix”. Um fast food a que assistimos para passar o tempo e geralmente esquecer dez minutos depois do final. Não existe uma perspectiva histórica. A Netflix se nega a programar filmes minimamente mais antigos. É tudo recente — e fácil de esquecer.

Uma medida disso são as notas dadas aos filmes no mais importante site de cinema do mundo, o IMDb, por milhares de usuários. A nota média dez filmes é 6,6.

O poder dos coreanos

A campeã absoluta da lista da Netflix é Guerreiras do K-Pop. O filme foi lançado em 20 de junho e, em pouco menos de três meses, já tem 236 milhões de visualizações ao redor do mundo. É mais do que a população do Brasil.

O filme é reflexo do fenômeno K-pop, que significa “pop (sul-)coreano”. Nasceu em 1992, com o grupo Seo Taiji and Boys, e revolucionou ao misturar hip-hop, rock e sons eletrônicos com letras que falavam aos jovens. Na década seguinte, expandiu-se para o resto do mundo com o YouTube. Virou treding global. Os ídolos passaram a lotar estádios em shows muito artificiais de som e luz. A fama se espalhou através de canais dedicados apenas ao K-Pop, como o Studio Choom. 

O artificialismo é a base da estética do K-Pop. São orientais fingindo serem negros americanos, dublando músicas feitas em laboratório, dançando coreografias extremamente elaboradas. As meninas são sempre muito jovens e procuram parecer sexy sem vulgaridade. Os garotos tentam projetar uma masculinidade, mas são maquiados com toques femininos. 

É dessa mistura que surgiu a supercampeã Guerreiras do K-pop. A animação mistura com esperteza a estética do K-pop e elementos do Musok, o xamanismo tradicional coreano. A história: três garotas formam o trio Huntrix. Elas fazem megashows mas também se dedicam a caçar demônios. Um dia, são ameaçadas pelos Saja Boys, que são demônios disfarçados de banda pop. Eles lutam no palco pelo sucesso, e fora dele, pela conquista das almas dos fãs.

O filme — produzido pela Sony Pictures Animation — foi muito bem dirigido pelo americano Chris Appelhans e pela coreana-canadense Maggie Kang. É um doce para os olhos de adolescentes, feito com fúria e hiperatividade. Sua trilha sonora — de canções que não duram dez segundos na memória — é um sucesso. Não tenha dúvida de que a continuação está sendo preparada a toque de caixa. O filme é a projeção cultural de um país que saiu de duas guerras brutais para a penetração global. É muito provável que você, no Brasil, assista Guerreiras do K-pop numa TV fabricada na Coreia.

E os outros nove campeões da Netflix? 

O Projeto Adam, por exemplo (2002, quinto lugar, 157,6 milhões de visualizações) é apresentado como “uma mistura de ficção científica, ação e coração”. A ideia é boa. Adam (Ryan Reynolds) viaja no tempo e encontra a si mesmo com apenas 13 anos. Viajantes do futuro atacam. Os dois Adams fogem fazendo piadinhas sobre o fato de serem a mesma pessoa. 

Alerta Vermelho (2021, segundo lugar, 230,9 milhões de visualizações) segue a linha “mistura de comédia com ação em ambientes luxuosos”. Dwayne Johnson é um agente do FBI que quer apanhar uma ladra de obras de arte (Gal Gadot) e precisa contar com a ajuda de um vigarista (Ryan Reynolds, de novo). Cenas de ação, piadas, mais ação, mais piadas, e você esquece do filme antes que os créditos finais acabem.

Em De Volta à Ação (2025, sétimo lugar, 147,2 milhões de visualizações), Jamie Foxx e Cameron Diaz são ex-agentes da CIA que se casaram, tiveram dois filhos e levam uma vida normal. Até que são obrigados a cumprir o título do filme e voltam à ação. Repetem Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis em True Lies (1994) e Brad Pitt e Angelina Jolie em Sr. e Sra. Smith (2005).

O fim do mundo segundo o tudum

Filmes de apocalipse também fazem sucesso na Netflix. Em O Mundo Depois de Nós (2023, oitavo lugar, 143,4 milhões de visualizações) Julia Roberts e Ethan Hawke levam os filhos para uma bela casa de praia e aparentemente o mundo acaba. O casal dono da casa exige que eles a desocupem. A internet para de funcionar, a luz é cortada e os casais brigam pela posse da casa.

Mais apocalipse: Bird Box (2018, sexto lugar, 157,4 milhões de visualizações) se parece muito com Um Lugar Silencioso, de John Krasinski. Em Um Lugar Silencioso as pessoas não podem fazer barulho, senão despertam alienígenas violentos. Em Bird Box, Sandra Bullock não pode ver os alienígenas, ou eles atacam. Mas não se pode dizer quem copiou quem, pois os dois foram lançados no mesmo ano. 

Não Olhe Para Cima (2021, quarto lugar, 171,4 milhões de visualizações) também está na linha apocalíptica. É um filme profundamente desonesto. Reuniu a nata da Hollywood woke (Leonardo DiCaprio, Meryl Streep etc.) para um panfleto esquerdista descarado. 

Um cometa — que simboliza o aquecimento global ou a necessidade de vacinas contra a covid-19, escolha a causa — se dirige para a Terra. Fora os heróis, ninguém liga. Representam os “negacionistas”. Jonah Hill faz o papel de um jovem idiota que representa Donald Trump. O sucesso dessa piada ruim se deve principalmente à massiva campanha de publicidade grátis veiculada pela mídia “progressista”. 

Completando a lista temos uma fantasia de princesa e dragão com mensagem de “empoderamento feminino” (Donzela, 2024, décimo lugar), a espionagem Agente Oculto (nono lugar — o livro é mil vezes melhor) e o eficiente, mas improvável suspense Bagagem de Risco (terceiro lugar). 

Devemos à Netflix o pioneirismo na libertação dos grandes estúdios de cinema. A empresa possibilitou a abertura de um grande mercado de trabalho global nos serviços de streaming

Mas hoje “filme da Netflix” virou sinônimo de diversão vazia e descartável com ideias recicladas. Podemos ainda encontrar coisas boas por lá, mas está na hora de seu domínio de mercado dar lugar a algo mais sólido e artisticamente mais honesto. A Amazon Prime, a Max (futura Hulu) e a Apple TV estão na cola com conteúdos mais substanciais.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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