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Luiz Felipe Pondé | Foto: Reprodução
Edição 287

‘Paulo Francis e Nelson Rodrigues não sobreviveriam hoje’

Para o filósofo Luiz Felipe Pondé, a patrulha ideológica e o ativismo judicial sufocam a cultura brasileira

Luiz Felipe Pondé não é um entrevistado que se lança em respostas apressadas. Antes de falar, fecha levemente os olhos, respira fundo e espera dois segundos. É como se cada palavra precisasse passar por um filtro interno que separa o que merece ser dito do que deve permanecer em silêncio.

A cena se repete várias vezes ao longo da entrevista concedida a Oeste na quarta-feira, 20 de agosto. Entre uma resposta e outra, o filósofo leva o copo de água à boca. Bebe em goles curtos, devolve o copo à mesa e retoma a linha de raciocínio. De tempos em tempos, interrompe uma análise para contar um causo vivido em sala de aula ou nos bastidores da vida intelectual. Nesses momentos, uma farta gargalhada desmonta a imagem que muitos fazem dele: a do filósofo sisudo, sem paciência para trivialidades.

Pondé lê muito — de tudo, o tempo todo. Filosofia, história, ensaios. Mas é na ficção que encontra um de seus refúgios prediletos. Sobre a universidade e o ambiente acadêmico, fala com a autoridade de mais de três décadas em salas de aula. Lecionou na Universidade de São Paulo (USP), na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). No passado, recorda, o ambiente era plural. Professores de esquerda, como Marilena Chauí, deixavam as convicções políticas do lado de fora e se concentravam nos autores clássicos. “Ela falava de Baruch Spinoza”, recorda o professor, ao citar o filósofo racionalista holandês. Hoje, observa, o cenário é outro: censura velada, patrulha ideológica e pensamento único.

marilena chaui
Marilena Chauí, escritora brasileira ligada ao PT | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Não é só o conteúdo que mudou. Segundo Pondé, as redes sociais agiram como ácido sobre a linguagem, corroendo nuances e sutilezas. As palavras foram reduzidas a slogans, e a semântica se empobreceu a ponto de não sustentar mais debates verdadeiros.

Um dos tema que mais o instiga, contudo, é a juventude. Pondé descreve a geração atual como sem energia, temerosa e com medo de viver. “Eles acham o mundo perigoso, e não estão errados”, comenta. “O excesso de informação gera paranoia. Pais superprotetores, relações frágeis, ansiedade diante de tantas opções.” O filósofo se lembra de uma excursão universitária em Minas Gerais, quando um grupo de estudantes foi convidado a escolher um tema para debate. A expectativa era de que falassem de sexo, drogas ou música. Surpreenderam: escolheram o medo. “Receio do trabalho, das relações amorosas, do futuro”, recorda. “É uma geração desvitalizada.”

No fim da conversa, o filósofo agradece sem pressa. Dá mais um gole de água, conta mais um causo e finaliza com uma última gargalhada. Deixa a impressão de alguém que, mesmo sem ilusões, continua disposto a refletir — e a fazer refletir.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O senhor disse que há uma espécie de depressão ou “desvitalização” na juventude atual. A que atribui isso?

Eles acham o mundo muito perigoso. Há mais solidão, famílias atomizadas, menos convívio presencial. Imagina ter gente namorando o ChatGPT, fazendo terapia com inteligência artificial. O excesso de opções gera ansiedade. E as redes sociais pioram esse cenário: os jovens se comparam o tempo todo com outros, acreditando em vidas que muitas vezes são mentira. Isso produz desânimo e angústia. Eles têm medo de muita coisa: medo de colegas gravarem o que falam em sala de aula, medo nas relações afetivas. São muito moralistas. Há um mito de que jovens têm cabeça aberta. Não têm. São moralistas, acham que certo é certo, errado é errado. Com o tempo se descobre que nada é tão óbvio.

O senhor nota essa mudança na universidade?

Sim. Dou aula há 30 anos na PUC e na FAAP. A FAAP sempre foi um espaço mais livre, a PUC mais carregada ideologicamente. Hoje, o ambiente acadêmico está muito pior. Há professores jovens mais radicalizados, influenciando os alunos. Mas também há o aumento impressionante de alunos evangélicos, que são os que mais querem trabalhar. Sempre foram mais estudiosos, mais sérios. Até em cursos de filosofia acompanham melhor, porque têm inquietações ligadas a Deus, ao pecado, à salvação.

Foto: Davizro Photography/Shutterstock

Professores não alinhados à esquerda sofrem resistência?

Comigo, os alunos já sabiam quem era o Luiz Felipe Pondé. Então, não havia confronto direto. Muitas vezes me escondia nos clássicos, falava apenas de Sófocles, evitava temas contemporâneos. Mas já vi casos de intolerância. As universidades norte-americanas são ainda piores.

Houve um momento em que essa patrulha ideológica se intensificou?

Um pouco antes da pandemia. As redes sociais tiveram papel central. Empobreceram a semântica, reduziram a linguagem a slogans. O Brasil importou esse vocabulário da esquerda norte-americana: politicamente correto, identitarismo, wokismo. Há dez anos isso não existia na universidade.

Quando o senhor estudou Filosofia na USP, era diferente?

Completamente. Fiz Filosofia entre 1987 e 1990. Tive aula com Marilena Chauí, que na época era secretária de Cultura. Nunca falou de política em sala, só de Baruch Spinoza. Os professores se concentravam no autor da disciplina. Havia barulho nas ciências sociais, mas na filosofia era tranquilo. Essa radicalização é recente.

A influência norte-americana é determinante?

Sim. A esquerda norte-americana, identitária, influenciou muito os brasileiros. O politicamente correto fechou a semântica. Paulo Francis e Nelson Rodrigues, por exemplo, não sobreviveriam hoje. Seriam demitidos, processados. A importação desse vocabulário empobreceu o debate no Brasil.

Isso afeta a pesquisa acadêmica?

Afeta. Alunos que querem estudar certos temas não encontram orientadores. Conheci gente que não conseguiu pesquisar Leo Strauss [teórico da contrarrevolução] porque não havia professor disposto. Isso fecha hipóteses de pesquisa. E o aluno precisa concluir o mestrado ou o doutorado para trabalhar.

Há espaço para debates abertos?

Cada vez menos. Já participei de muitos debates. Hoje não valem a pena. São certezas fechadas. O debate virou mito. Além disso, existe a cultura do processo. Qualquer frase pode gerar ação judicial, destruir carreiras. É o que chamei de “censura líquida”.

O senhor vê essa cultura do processo no caso da feminista Isabella Cêpa, que chamou Erika Hilton de “homem” e virou alvo de ação judicial?

Sim. Ela disse uma verdade biológica e virou alvo de processos. Teve de se exilar. Isso mostra a tendência canibalizadora dentro da própria esquerda. O autor Bruce Bawer já escreveu sobre esse assunto no livro The Victims’ Revolution, ao mostrar como grupos identitários passam a se atacar mutuamente.

Processo de Erika Hilton contra Isabella Cêpa teve início em 2020 | Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados/Divulgação/Arquivo pessoal
Erika Hilton e Isabella Cêpa | Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados/Divulgação/Arquivo pessoal

E a discussão atual sobre regular redes sociais?

O Brasil tem vocação para regular tudo, o que atrapalha processos criativos. Existe uma fúria regulatória. E uma cultura contenciosa: todo mundo quer processar todo mundo. Isso não vem só do governo, é mais amplo.

Assista também à entrevista de Luiz Felipe Pondé no Conversa com Augusto Nunes.

No programa Conversa com Augusto Nunes, o filósofo Luiz Felipe Pondé revisitou sua trajetória e compartilhou reflexões sobre filosofia, religião, política e cultura. Formado em Filosofia pela USP, doutor em Paris e pós-doutor em Tel-Aviv, Pondé contou como deixou a medicina no quinto ano, atraído pela psicanálise e pela leitura de Sigmund Freud. Tornou-se professor da FAAP e da PUC-SP, colunista do jornal Folha de S. Paulo e comentarista da TV Cultura.

Pondé definiu a filosofia como a tradição que nasceu na Grécia para explicar o mundo sem recorrer à religião. Para o professor, ser filósofo exige capacidade de espanto diante da vida e disciplina intensa de leitura. Inspirado por Paulo Francis e lapidado no jornalismo, aprendeu a escrever de forma clara e provocativa: “No jornalismo, você precisa lembrar que está escrevendo para alguém que vai ler”.

Sobre a felicidade, ponderou que não se trata de um estado constante, mas de momentos inesperados — seja no trabalho, no casamento ou na relação com os filhos. Quanto à religião, define-se como “ateu não praticante”, embora tenha se especializado em filosofia da religião.

Crítico do politicamente correto, disse que no Brasil a cultura woke se transformou em “juridicamente correta”, com risco de censura e processos. Segundo Pondé, a coragem é a virtude essencial. E, na política, rejeita a ideia moderna de progresso: prefere a visão dos antigos, segundo a qual a função da política é apenas evitar que o mundo piore.

Leia também “O gênero neutro é uma violência contra a língua portuguesa”

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8 comentários
  1. Dante Pazzanese Lanna
    Dante Pazzanese Lanna

    Excelente frase: a cultura woke se tornou “juridicamente correta”

  2. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Sou encantada pelo Pondé, pela coragem em se posicionar sobre todos os assuntos. Dá a cara a tapa. Dá gargalhadas a torto e a direito. Dosa com maestria ironia e sensibilidade, ceticismo e esperança, filosofia e ioga RSRSRS.
    Branca e Edilson foram inteligentes e perspicazes nas perguntas. Parabéns.
    Quanto ao Conversa com Augusto Nunes, repassei para um monte de gente.
    Por que não convidam o Pondé para trabalhar em Oeste?

  3. Marcos Marcioni
    Marcos Marcioni

    Vamos contratar o Pondè para a revista, lembro da vez que li sua coluna sobre o filme Contatos de Quarto Grau.

  4. Daniel BG
    Daniel BG

    Li o artigo por querer entender um pouco melhor ao Pondé, mas confesso não haver conseguido atingir minha intenção. Como a leitora Sandra bem lembrou em um de seus comentários, o Pondé defendeu Lula, condenado em 3ª instância. Naquela época fiquei com um pé atrás com referência ao Pondé. Depois de ler o artigo, chego a rever meu lado crítico a ele e a aceita-lo como mais uma alma perdida em busca de salvação.

  5. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    Em pesquisa na década 70 vi um trabalho sobre baixa Ocitoxina ( VIT C )N. YORK , leva pessoas a depressão ou acelerar processo de VICIOS quer em jogo, drogas ou ..Ao me dedicar sofre a matéria vi a importância do vício em cigarro e querer deixar . A vít C E BETERRABA como alimento tem nicotina!? Assim teste e experiência, nos leva a alimentação, boa ingesta de água ( em especial longas exposição ao sol ou ao ar condicionado pode gerar doenças). TEMOS AS MODERNIDADES E A CADA UMA TEMOS SAUDE OU DOENÇA , que muito interessa a indústria farmacêutica. Cura do câncer interessa a quem !?!? As vezes nem a paciente que a usa pra chantagem..

  6. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    Marlene CHAUI É A QUE DEFENDIA A EXTINÇÃO DA CLASSE MEDIA!?!? E PARECE QUE CONSEGUIU , SE NÃO DESTRUIU REDUZI-LA E, ASSIM RETIRA OPORTUNIDADE DE JOVENS CRESCER E ENTENDER PRA QUE CONHECIMENTO, DINHEIRO..
    FICO TRISTE QUANDO VEJO JOVENS SEM NENHUMA FORMAÇÃO SER CHAMADO DE INFLUENCER E CHAMADO A DEBATE TELEVISIVOS E MUITAS VEZES DEPOIS ESQUECIDO. É MODISMO O NOME DISSO!?!? POIS QI ALTO , NÃO SIGNIFICA SABER, MAIS MUITAS VEZES PRECISAM DE SOCORRO? MUITOS DIAGNÓSTICOS COMPORTAMENTAL QUE INVENTAM , MAIS QUE NÃO DÃO CONTA OU É PRA ISSO MESMO, NÃO DAREM CONTA !?!?HUMMMM

  7. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    Me preocupa muito, quem lê demais e vive de menos, mais precisamos ler pra ter a visão do que está ocorrendo hoje, mas mais do que ler é ter com quem trocar nossas ideias, alunos que aceitam debates fundamentado ou tentando entender e nossa melhor oportunidade se não nos fecharmos na caixa do saber.

  8. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    É, fui leitora do Ponde e gasto ou investimentos em seus livros e palestra. Mas me senti enganado quando o vi defendendo Lula, condenado na 3° instância, roubo do dinheiro é roubar de muitos jovens a esperança, quando na realidade pregava como ajuda, era simples manipulação. Criou o ele contra nós , indio contra homem branco ( num dos países de maior miscigenação ( negros, mulatos, moreno , brancos) ,negro contra branco, pobre contra rico e no fim gay contra heteros. Mais espero que um dia a sociedade hoje que chama CRIME DE ORGANIZADO, SE ORGANIZE E ACORDE, aliás já está ocorrendo.

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