O economista Adolfo Sachsida ganhou espaço no governo Jair Bolsonaro pela capacidade técnica e discrição nos bastidores do poder. No comando da Secretaria de Política Econômica e, depois, do Ministério de Minas e Energia, esteve por trás de medidas que modernizaram o ambiente de negócios no país, ampliaram o acesso ao crédito e atraíram investimentos bilionários para setores estratégicos.
Fora do Poder Executivo desde 2022, Sachsida mantém o tom analítico e não poupa críticas à gestão Lula 3. Para ele, o petista recebeu uma “herança bendita”, mas está desperdiçando um trabalhoso legado de reformas estruturantes ao insistir no aumento de gastos e tributos. “A economia brasileira está em marcha forçada”, alertou ele.
Em entrevista a Oeste, Sachsida faz um balanço de sua gestão e defende uma agenda de pacificação nacional, que passa pela anistia aos manifestantes do 8 de janeiro. “É preciso virar essa página quanto antes”, defende Sachsida.
Durante sua passagem pelo governo Bolsonaro, quais medidas destacaria como as mais relevantes?
Quando estive à frente da Secretaria de Política Econômica, trabalhei para modernizar os marcos legais dos mercados de crédito, seguros e garantias. Entre as principais medidas, destaco o saque-aniversário do FGTS, que devolveu R$ 110 bilhões aos trabalhadores entre 2019 e 2022. Trata-se do maior movimento de devolução de recursos desde a sua criação. Também atuamos na criação do Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, o Fiagro, que permite captar dinheiro de investidores por meio da venda de cotas na Bolsa. Outro avanço foi o novo marco de registros públicos. Antes, uma mãe precisava sair do hospital para registrar o filho em cartório. Com a modernização que conduzimos, esse registro pode ser feito pelo celular, sem burocracia. Já no Ministério de Minas e Energia, destaco o decreto que desburocratizou a exploração e a comercialização do lítio, responsável por atrair bilhões de dólares em investimentos para o Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do país. Também abrimos o mercado de energia elétrica de alta tensão, o que ajudou a expandir o mercado livre de energia. Quanto à Petrobras, sempre defendi a competição como o caminho do sucesso. Mais do que discutir privatização, é essencial garantir concorrência no setor, porque só a competição assegura preços melhores e, evidentemente, serviços de qualidade aos consumidores.

Como o senhor avalia o governo Lula 3?
Seis anos de reformas antecederam Lula e melhoraram a situação da economia, entre elas, a trabalhista e a previdenciária, além da autonomia do Banco Central e os novos marcos legais (ferroviário, saneamento e cabotagem), que favoreceram o investimento privado e aumentaram a segurança jurídica. Além disso, conseguimos manter a economia nos trilhos, durante a pandemia de covid-19. Tudo garantiu um fluxo forte de investimentos para os anos vindouros. Muitas pessoas disseram, no começo de 2023, que o “Brasil não ia crescer”. Na ocasião, escrevi um artigo afirmando o contrário, pois Lula recebeu de nós uma herança bendita, a qual ele, injustamente, chama de “maldita”. O Brasil teve crescimento em 2023, em 2024 e neste ano também. Agora, porém, estamos em um impasse, pois o combustível excedente que deixamos acabou. Além disso, o rumo da economia mudou. Temos, atualmente, um Estado que acha que é indutor da economia, ou seja, ao contrário da nossa mentalidade. Acreditávamos na iniciativa privada como força motriz do desenvolvimento. Hoje, a orientação do governo é aumentar cada vez mais a arrecadação. Só que, mesmo batendo recordes de receita, a dívida pública continua crescendo. Ou seja: a sociedade paga cada vez mais impostos e, ainda assim, o endividamento do país só aumenta. Esse é o principal freio da economia brasileira. Por isso, acredito que teremos um segundo semestre ruim. E, para 2026, minha projeção é de crescimento fraco, na ordem de 1% a 1,5%.

Qual deve ser o cenário que o próximo presidente vai herdar?
Se as coisas continuarem como estão, vai ser ruim. Penso, porém, que ainda é possível ajustar a economia brasileira em um ano ou um ano e meio. Apesar dos erros cometidos pelo atual governo, especialmente o aumento explosivo de gastos públicos e de tributos, uma equipe econômica experiente consegue colocar a casa em ordem nesse período. O problema é que o governo Lula vem dobrando a aposta na irresponsabilidade fiscal, o que torna cada vez mais difícil para o próximo presidente corrigir o rumo. Mas insisto: com uma equipe preparada, é plenamente viável retomar o caminho da prosperidade em pouco tempo. Antes, tínhamos o teto de gastos; depois, ele foi substituído pelo chamado arcabouço fiscal, esse nome feio que até hoje ninguém entendeu direito o que significa.
Como o senhor vê o arcabouço fiscal?
A síntese da mentalidade deste governo: o Estado é o indutor da economia e, para isso, tem de gastar como se não houvesse amanhã. O efeito no longo prazo, contudo, é bem negativo, como já estamos vendo. Nos dois primeiros anos, o governo conseguiu aprovar medidas para elevar tributos. Hoje, estamos no pico da carga tributária brasileira. A sociedade paga mais, todavia, a economia segue em “marcha forçada”. Lula recebeu uma economia em crescimento e respondeu com mais gasto público quando não havia necessidade, além de novos impostos. O resultado é que a despesa do país continua subindo, mas já não há espaço para ampliar mais a tributação. Lula insiste em dobrar a aposta. Voltamos às práticas de 2012, quando se tentava maquiar as contas com truques de contabilidade. Determinados gastos, como as medidas para ajudar o Rio Grande do Sul ou para mitigar os efeitos do tarifaço americano, ficam fora da contabilidade oficial, como se isso resolvesse algo. É o mesmo filme que vimos entre 2008 e 2014, e já sabemos bem como termina: em uma crise fiscal.
E a política do BC? O PT tem culpado a gestão passada, de Campos Neto, pela piora da economia.
O BC está fazendo o que é possível. Só que o problema do Brasil hoje não é monetário, e sim fiscal. Há pouco espaço para a autoridade monetária resolver a situação. Não se trata de culpa do BC, que tem buscado fazer o melhor dentro dos limites. O verdadeiro desafio está no lado fiscal.

A reforma tributária aprovada vai ser boa para o país?
Vejo-a como um erro. Em vez de simplificar, vai criar mais complexidade. Praticamente todos os que estavam no regime do lucro presumido ficarão em situação pior. Se a ideia era ajudar a indústria, havia soluções mais inteligentes. Um exemplo seria extinguir o IPI e repassar, anualmente, à Zona Franca de Manaus, o valor correspondente ao que ela depende desse imposto. Isso seria mais simples, mais transparente e mais eficaz para estimular a indústria e facilitar o sistema tributário. Infelizmente, não foi nessa direção que caminhamos. Por isso, pagaremos um preço alto.
Suponha-se que o senhor voltasse ao governo, com plenos poderes sobre a economia, o que você faria?
Defenderia a aprovação de uma lei simples com gatilhos automáticos para a dívida pública. Se a dívida bruta do governo em relação ao Produto Interno Bruto atingir determinado patamar, dispara o primeiro conjunto de medidas; se avançar mais, entra o segundo; e é proibido ultrapassar o limite máximo definido em lei. Isso daria clareza para a sociedade e previsibilidade para os agentes econômicos. Ao mesmo tempo, é essencial insistir em reformas microeconômicas que ampliem a segurança jurídica e a confiança para investir. Com uma agenda pró-mercado no campo micro e uma regra clara para a dívida pública, o Brasil teria condições de crescer muito.
Ex-membros do governo Bolsonaro defendem ainda hoje a reforma administrativa. O que o senhor pensa sobre ela?
Teve seu momento, entretanto, hoje perdeu o timing. A maior parte dos servidores públicos está perto da aposentadoria. Aprovar uma lei agora significaria enfrentar uma agenda legislativa duríssima no Congresso Nacional para surtir efeito só daqui a 15 anos. Com todo o respeito aos meus colegas, a verdadeira reforma administrativa tem outro nome: digitalização massiva dos serviços públicos. Esse é o futuro. Com a digitalização, você atende melhor a população e aumenta a eficiência do Estado. O próximo governo, seja quem for, precisa ter um compromisso: a pacificação nacional. Nada de grandes reformas que gerem embates intermináveis no Parlamento. O caminho é aprovar uma regra clara para a dívida pública, avançar na agenda microeconômica e passar quatro anos sem ruído político. A eleição de 2026 deve ser encarada como uma transição, Lula contra Bolsonaro — o maior líder da esquerda contra o maior líder da direita. Já em 2030, será a vez de uma nova geração assumir o protagonismo: Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Júnior, Eduardo Leite e, talvez, o governador de Pernambuco, além de nomes da esquerda como Fernando Haddad. Mas, para 2026, o grande tema deve ser apenas a pacificação nacional.

O ponto de partida dessa pacificação passa pelo quê?
Sem dúvida, a anistia aos presos do 8 de janeiro. Essa bandeira precisa ter o amplo apoio da sociedade e das instituições. A economia é importante, porém, a liberdade dos envolvidos no protesto de 2023, sem dúvidas, é mais ainda. São pais, mães e avós condenados a penas abusivas. Não faz sentido condenar uma cabeleireira a 14 anos de prisão, um caminhoneiro a 17 anos, ou manter uma mulher negra nordestina presa em Pedrinhas, no Maranhão, apenas porque foi ao ato para observar e escrever sobre o movimento. Isso é desproporcional. O povo brasileiro sempre foi marcado pela harmonia e pela convivência pacífica. De repente, estamos caminhando para a inflexão, para a divisão, em vez de avançarmos rumo à pacificação. Por isso, cabe ao Congresso Nacional aprovar o perdão e virar, definitivamente, essa página da história do Brasil.
As sanções dos Estados Unidos podem contribuir para o Brasil voltar à normalidade?
Quando Ronald Reagan assumiu a Presidência, a sua prioridade foi enfrentar o inimigo do Mundo Livre, que à época era a União Soviética. O presidente Donald Trump tem uma leitura semelhante. Ele enxerga a América como guardiã do mundo livre. Mas, no caso, a grande adversária seria a China. Essa é hoje a principal disputa geopolítica: Estados Unidos contra China. O que chama atenção é que, em vez de se alinhar aos EUA, o Brasil está se aproximando cada vez mais da China — e também de regimes como Irã, Cuba e Venezuela. Nesse contexto, vejo as sanções de Trump como um alerta. Elas não dizem respeito apenas ao Brasil, mas ao embate maior entre Washington e Pequim. O problema é que a política externa do governo Lula está colocando o país no lado errado dessa disputa, por escolhas como criticar o dólar, permitir que navios iranianos atraquem em portos brasileiros e adotar posições alinhadas a ditaduras. Isso é um erro de diplomacia descomunal.





Estaríamos em outro momento caso a dupla Adolfo e Paulo Guedes tivesse continuado, principalmente referente a privatização da Petrobras.
Cristyan Costa nos apresentando mais uma entrevista com uma personalidade da política nacional.
Quem ainda não sabia deve ter entendido em que uma equipe técnica difere de outra militante.
Bolsonaro assumia publicamente que não entendendo de determinado assunto deixava seus ministros a vontade para agirem pelo melhor caminho e a solução mais adequada.
Particularmente penso que os envolvidos nos atos de do 8 de janeiro que cometeram vandalismo devem ser processados, julgados e as penas determinadas pela instância adequada cabendo os recursos previstos em lei.
Aqueles cujo único “crime” foi estar na Praça dos Três Poderes naquela data, tenham seus processos cancelados e arquivados.
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Um espécime raro, até mesmo na direita: economista que defende a a anistia como um passo necessário inclusive para o avanço econômico. Fica estranho gritar “Volta Adolfo”. É difícil, mas melhor urrar “Volta Sachsida”.
Obrigado pelo carinho e confiança
Ótimo artigo Cristyan Costa, entrevista excelente. Bolsonaro deixou a economia e finanças públicas no azul,céu de brigadeiro. Em um ano de mandato Lula 3 já estava no vermelho. Pior governo, gastos nas alturas, cercado de ministros incompetentes, inflação alta,impostos caros e quem paga é sempre o povo.Fala que é aliado número um da China,que negociar a soja com os EUA. Pode haver cenário pior?
Abraços, Teresa. É sempre um prazer
Ótimo artigo Cristyan Costa, a entrevista excelente. Lula recebeu das mãos de Bolsonaro um país com contas controladas,no azul, céu de brigadeiro. Mas conseguiu tanforma-la em vermelho logo no primeiro ano de seu mandato, sempre com críticas ao antecessor. Pior governo que o Brasil já teve só cria discórdias,gastos abusivos, diplomacia que apenas colocou o Brasil como um pária diplomático.Nao prima pelo conhecimento, cercou-se de péssimos ministros, enquanto acha que a China é seu maior aliado, ela negociar a soja com os EUA. A China não tem parceiros, apenas interesses .É o caos de Lula.3.
Que honra, obrigado.