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Ilustração: Júlia Xavier/Feito por IA
Edição 285

A casa da memória

O que fazer para não perder as chaves que levam às nossas lembranças?

Eu costumo me esquecer do que jantei na noite anterior. A lembrança foge da minha mente como um ladrão foge da polícia, sem deixar rastros. Ao mesmo tempo, não me esqueço jamais de que em Rin Tin Tin — uma série de 1954 que sumiu da TV — os co-protagonistas eram o tenente Rip Masters, o sargento O’Hara e o pequeno cabo Rusty. Acho que isso jamais vai sair da minha memória. Talvez seja a última coisa de que eu me lembrarei em vida. Masters, O’Hara, Rusty e Rin Tin Tin.

Por que isso acontece? Com todo o avanço da medicina e da ciência, a memória permanece cercada por uma névoa de mistério. Estamos aqui falando das cavernas mais profundas de nossas mentes. Lembranças se misturam com projeções de nossos desejos e com imagens editadas de nosso passado. O Natal com a família, o primeiro beijo, o enterro do pai, a primeira anestesia, o vexame numa festa, o rádio Spica. Tudo isso permanece intocado, como o cabo Rusty e Rin Tin Tin.

Mas a maioria de nossas experiências de vida desaparece, trancada em cômodos de nossas mentes. O que se foi, dificilmente vai voltar. Com a idade, as chaves para essas lembranças costumam sumir de vez.

Ilustração: Júlia Xavier/Feito por IA

O temido “alemão”

Tecnicamente, a memória é definida pela Encyclopedia Britannica como “a codificação, o armazenamento e a recuperação de experiências passadas na mente humana. (…) A memória é tanto um resultado quanto uma influência na percepção, na atenção e na aprendizagem”.

A memória tem múltiplas funções em nosso dia a dia, mais do que guardar bons e maus momentos. O ato de atravessar uma rua implica coordenar registros passados sobre cada procedimento — olhar para os lados, saber que devemos esperar o sinal verde, cruzar na faixa de pedestres. 

Tudo isso é memória usada em atividades corriqueiras. Precisamos dela para lembrar como preparar um risoto ou saber qual remédio devemos tomar quando acordamos. Não estou falando aqui do ator que decora uma imensa peça de William Shakespeare. É o dia a dia, apenas isso. E precisamos da memória a cada momento.

A memória é um patrimônio vital, como a nossa locomoção. Cuidar dela é preservar nossa capacidade de trabalho e viver bem. Um dos grandes fantasmas contemporâneos é a doença de Alzheimer, apelidada informalmente pelos brasileiros como “o alemão”, sendo que 90% dos casos acontecem após os 60 anos. A doença — descrita como o acúmulo de placas amiloides e emaranhados neurofibrilares no cérebro — pode atacar qualquer pessoa, sem predisposição genética. Não existe ainda uma cura definitiva, apenas tratamentos para que seja retardada ou atenuada.

Ilustração: Júlia Xavier/Feito por IA

Procurando Dory

O “alemão” não é o único inimigo de nossa memória. Existem vários tipos de amnésia, parcial ou total, temporária ou duradoura. Um trauma craniano pode ser o gatilho para um apagão. Uma das condições mais dramáticas é conhecida como a síndrome de Korsakoff, que atinge alcoólatras, pacientes de câncer ou com má nutrição crônica. O paciente pode viver num mundo de memória fraturada, incapaz de guardar uma lembrança por mais que poucos segundos. A animação Procurando Nemo, de 2003, deu um toque cômico a essa situação com a personagem Dory — que depois ganhou seu próprio filme.

Cirurgias como a de retirada de células que produzem epilepsia podem causar perda de memória. Pessoas com traumas podem sofrer de “estados de fuga”, quando esquecem de sua vida de tempos em tempos. Outra síndrome é a confabulação, quando a pessoa não esquece, mas cria uma memória fantasiosa.

Esses são casos mais extremos de distúrbio. Mas no nosso dia a dia confrontamos pequenas situações normais em que a memória nos falta — a dificuldade de lembrar de nomes, de fisionomias, de tarefas, de compromissos, de datas de aniversários, de guardar senhas.

Seis exercícios para a memória

A revista britânica BBC Science Focus listou algumas providências práticas para deixar nossa memória em forma. É uma espécie de fitness mental, em conjunto com o que já sabemos — boa saúde, boa alimentação e bom sono. O objetivo, segundo o autor do artigo, o neurocientista cognitivo Christian Jarrett, é “transferir informação do seu registro de curto prazo para o arquivo de longo prazo”. Em termos neurológicos, significa processar as lembranças no hipocampo antes que sejam distribuídas pelo neocórtex. Mas você não precisa se lembrar disso.

  1. Pratique a recordação — usar um caderninho para uma lista de compras é o caminho fácil. Tente decorar a lista. Teste sua capacidade de lembrar. “O ato de tentar recriar a informação ajuda a fortalecer os caminhos neurais relevantes no seu cérebro”, segundo o artigo da Science Focus
  2. Use o “palácio da mente” — a memória fica mais forte quando misturada com imagens. Se você precisa decorar uma série de itens, visualize mentalmente cada item num lugar de sua casa, ou do seu trabalho, ou de qualquer espaço que você conheça bem. Se você colocar cada elemento num lugar, vai facilitar sua vida caminhar mentalmente pelo lugar sabendo o que está guardado em cada ponto.
  3. Ria do que precisa decorar — o humor é um instrumento poderoso. Produz dopamina para os centros de prazer do cérebro. Se você ligar coisas que precisa decorar a piadas, ou imaginar desenhos caricaturais para cada elemento, eles vão surgir com força na sua memória por prazer.
  4. Dependa menos do Google Maps — a acomodação a aplicativos de localização vai atrofiando nossa memória espacial. Às vezes, eles são absolutamente necessários. Mas você precisa ligar o Waze cada vez que vai para casa? A boa notícia é que, com algum treino, a memória espacial se recupera com facilidade.
  5. Aprenda algo novo — todos nós temos uma “reserva cognitiva”. É uma capacidade natural de aprender coisas novas. Quando essa capacidade é abandonada, o cérebro funciona menos. E esse pouco funcionamento afeta naturalmente a memória. Aprender uma nova língua é a recomendação natural, mas existem infinitas formas de manter essa reforma cognitiva em permanente renovação. Seja curioso. 
  6. Socialize mais — dois grandes estudos recentes provaram que a socialização diminui o declínio mental, e com ele a memória. E quanto mais diversas foram essas socializações, melhor o efeito. Atividades sociais, cursos presenciais, trabalhos voluntários — tudo isso afasta a melancólica imagem do idoso que mora sozinho e passa seus dias vendo televisão enquanto perde as lembranças.

Querido diário

Essas são as recomendações da BBC Science Focus. Mas cada um pode inventar seus próprios exercícios para manter a memória em forma. Eu, por exemplo, me espanto com pessoas que lembram o que aconteceu na noite de 7 de agosto de 1984 ou qualquer outra data. 

Para suprir essa falha, eu encerro cada dia com um registro do que aconteceu. Não é o clássico “querido diário, hoje o dia amanheceu resplandecente e eu observei os pássaros chilreando nas árvores vizinhas”. Faço apenas um registro de itens, uma lista do que aconteceu no dia. 

Fazendo esse registro há décadas, consigo “lembrar” da minha vida, mesmo que minha memória não me permita abrir as chaves das lembranças. E assim posso “lembrar” que na noite de 7 de agosto de 1984 eu descobri que ia ser pai.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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4 comentários
  1. Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen
    Thais de MORAES Machado Suppo Bojlesen

    Ótimo artigo! A Idéia da lista ao final de cada dia, formidável.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Que bacana, Dagomir. Gosto de suas ideias.

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