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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 285

A Amazônia passa fome

Sua combalida agricultura, criminalizada e sem regularização fundiária, não produz alimentos suficientes para atender à população

Em 11 de julho de 1980, matéria da Agência Estado repercutiu evento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e anunciou: em 2010, a Amazônia será uma imensidão de areia. Quase meio século após a profecia, como em outros vaticínios ambientalóides, nada ocorreu. Ainda bem. Não se pode comer areia. Três coisas na Amazônia estão em pleno crescimento: a falta de alimentos, as doenças e a pobreza. Areais não. Sua combalida agricultura, criminalizada e sem regularização fundiária, não produz alimentos suficientes para atender à população. Na última década, políticas ambientalistas contra o mundo rural e a agropecuária agravaram a situação.

Cada vez mais, suprimentos de alimentos, sobretudo do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, abastecem a região: feijão e arroz, verduras e frutas, ovos e frangos, leite e laticínios. Tudo a preço elevado, tendo em vista a dificuldade de transportar até lá e o custo de distribuir alimentos naquela imensa região, sem infraestrutura viária ou portuária adequada. O povo da Amazônia paga no preço alto um “imposto” adicional injusto e de natureza “ambiental”. Quem não pode pagar, a maioria da população, come mal ou passa fome.

Estudo da Embrapa Territorial, em fase de conclusão, expõe a gravidade da insegurança alimentar nos municípios do bioma Amazônia. A pesquisa considerou a dimensão e a repartição territorial da produção local de alimentos básicos, como arroz, feijão, mandioca, banana, e de outros produtos, segundo dados anuais da pesquisa Produção Agrícola Municipal do IBGE. E permite comparar o bioma Amazônia com o resto do país.

Arroz. A produção anual média de arroz no Brasil entre 2021 e 2023 foi de cerca de 11 milhões de toneladas: uma disponibilidade de 51 kg por habitante/ano. No bioma Amazônia, no mesmo período, a produção média foi de 663 mil toneladas (6% da nacional) ou 22,1 kg por habitante/ano. Menos da metade da disponibilidade nacional. E está no norte do Mato Grosso 45% dessa produção. No Pará, anfitrião da COP30, a produção é pífia: 13,5 kg de arroz por habitante/ano, cerca de um quilo/mês. O arroz, para quem pode pagar, vem de fora da Amazônia.

Produção de arroz no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

Feijão. A média anual de produção de feijão no Brasil (2021 e 2023) foi de cerca de 2,9 milhões de toneladas: 10 kg por habitante/ano ou 290 g/dia. Na Amazônia, a produção foi de 195 mil toneladas (6,8% da nacional) ou 6,5 kg por habitante/ano, ou 0,5 kg/mês. Uma colher de sopa de feijão por dia. E 80% dessa produção também está no norte de Mato Grosso, em sistemas intensivos. O Pará produz 2,4 kg por habitante/ano, ou 6 g por dia. O feijão, para quem pode pagar, como o arroz, vem de fora da Amazônia.

Produção de feijão no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

Mandioca. A produção anual média de mandioca no Brasil, entre 2021 e 2023, foi de 18,2 milhões de toneladas de raízes. Na Amazônia, foram 6,3 milhões de toneladas (34% da produção nacional) ou 210 kg por habitante/ano. A disponibilidade de farinha de mandioca para consumo (1 kg de raiz = 350 g de farinha) é de 60 kg por habitante/ano. O Pará concentra cerca de 64% da produção amazônica. Na realidade, o Paraná é o maior produtor nacional, com mais de 60%.

Produção de mandioca no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

Banana. A produção anual média de banana no Brasil, entre 2021 e 2023, foi de cerca de 6,9 milhões de toneladas. Na Amazônia, ela foi de 915 mil toneladas (13,4% da nacional), 30 kg por habitante/ano ou dois cachos para cada amazônida. Dá para produzir num fundo de quintal. O Pará concentra cerca de 51% da produção. A região importa bananas até de São Paulo.

Produção de banana no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

O total da produção anual de arroz, feijão e mandioca na Amazônia é de 89 kg/habitante. Com a banana chega-se a 118 kg. O mínimo para atender às necessidades calóricas básicas de uma pessoa seria de 250 kg por ano. A Amazônia importa arroz, feijão, frutas, legumes, hortaliças, ovos, frangos e laticínios do resto do Brasil. Poderiam ser produzidos na região, a preços reduzidos, se a agricultura não fosse tratada como delito e perseguida.

O Valor da Produção Agrícola (VPA) do bioma Amazônia é da ordem 15% do nacional. Soja, milho e algodão (commodities) compõem 80% do VPA, concentrados no norte do Mato Grosso. Juntos, todos os outros produtos amazônicos (dendê, açaí, pimenta-do-reino, café, cacau, arroz, maracujá, castanhas, frutas, mandioca…) alcançam apenas 20% do VPA regional.

O total cultivado na Amazônia é de cerca de 9,7 milhões de hectares na primeira safra (e 3,3 milhões na segunda safra), ou 2,4% do bioma e 1,2% do Brasil. A concentração territorial do valor da produção está associada à agricultura moderna: 65% do VPA do bioma provém de municípios do norte do Mato Grosso. Os mapas da repartição do milho, da soja e do algodão, commodities, ilustram essa realidade da concentração territorial.

Produção de milho no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE
Produção de soja no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE
Produção de algodão no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

Produtos como dendê, açaí, cacau, pimenta-do-reino, mandioca, café, banana, abacaxi, arroz, feijão, castanhas e outros ocupam 14% da área cultivada. A produção está concentrada em poucos locais, com pouca viabilidade no conjunto dos municípios da região amazônica.

Os mapas gerados pela Embrapa Territorial ilustram a concentração da produção: dendê (cinco municípios reúnem 75% da produção); açaí (cinco municípios reúnem 50% da produção); pimenta-do-reino (99,5% da produção no Pará em 17 municípios) e abacaxi (sete municípios reúnem 75% da produção).

Produção de dendê no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE
Produção de açaí no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE
Produção de pimenta-do-reino no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE
Produção de abacaxi no bioma Amazônia | Fonte: Reprodução/PAM-SIDRA/IBGE

A Amazônia importa alimentos a preços elevados e a maioria da população não tem como pagar. Resultado: o Amazonas tem mais de metade de sua população vivendo em situação de insegurança alimentar. Cerca de 40% dos domicílios da Amazônia passam por insegurança alimentar. A média no Brasil é inferior a 28%. As dez cidades com a pior qualidade de vida do país estão todas na Amazônia, sendo sete no Pará da COP30: Jacareacanga; Bannach; Trairão; Pacajá; Portel; Cumaru do Norte e Uruará. Para isso, não há engajamento das ONGs ou de seus nomeados no Governo.

Baixa renda, condições penosas de trabalho, violência, exposição intensa e recorrente a agentes infecciosos, falta de acesso a habitação de qualidade e saneamento, acesso limitado a cuidados médicos e hospitalares estão na origem dos graves problemas de saúde das populações amazônicas. A Amazônia concentra 58% das cidades com os piores índices de saneamento básico do país. Pará, Rondônia e Amapá têm índices de coleta de esgoto extremamente baixos. Santarém apresenta a pior situação do país, seguida por Belém e Ananindeua, sempre no Pará. A situação é crítica nas capitais.

Miséria, ausência de desenvolvimento e falta de perspectivas, sobretudo para os jovens, contribuem ao aumento da criminalidade e são motores de ilegalidades. Pobreza e atraso são a causa de queimadas e desmatamentos e não o resultado, como sofismam ambientalistas (Revista Oeste, Edição 194). Não é o desmatamento que leva à pobreza e sim o contrário. Cresce o crime organizado. Amapá, o Estado mais florestal e preservado, se tornou o mais violento do Brasil, com 45,1 assassinatos por 100 mil habitantes.

A COP30 segue esvaziada de nações participantes e recursos financeiros, sobretudo com a saída dos EUA do Acordo de Paris (Revista Oeste, Edição 263). Parte da liderança do agronegócio nacional, alheia ao drama dos agricultores e à insegurança alimentar crescente da população amazônica, tentará mostrar sua sustentabilidade e contribuição à transição energética, praticada em terras distantes da Amazônia, na feira paralela da COP30. Arriscarão passos de carimbó para cativar a plateia? Usarão cocares?

Não há uma instância supraministerial para cuidar da Amazônia, nem um diagnóstico adequado ou plano estratégico de curto, médio e longo prazo. O mundo e o país não sabem qual o projeto nacional para a Amazônia. Não há insinuação de nenhuma perspectiva para o futuro, enquanto vigora a violência do eugenismo ambientalista contra a agropecuária e os produtores rurais (Revista Oeste, Edição 277). A isso não faltam recursos. A Amazônia serve para convescotes de chefes de Estado e é mina de ouro para ambientalistas e ONGs, nutridas governamentalmente pelo Fundo Amazônia.

No planejamento da COP30, qual lugar ou destaque foi dado pelos organizadores à segurança alimentar e ao bem-estar da população da Amazônia? Um manto de invisibilidade midiática e política tentará recobrir a Amazônia real e as razões dos piores indicadores nacionais de saúde, saneamento, educação, regularização fundiária e da expansão do crime organizado. Uma população sem alimentos, desnutrida e abandonada. Quanto ao futuro, haveria algo a esperar do evento da ONU? Como dizia o Barão de Itararé: De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.

A realização da COP30 em Belém, no Pará, tem sido um dos principais 'investimentos' do governo Lula | Foto: Ricardo Stuckert/PR
COP30 ignora segurança alimentar e bem-estar da população amazônica em meio a graves problemas sociais | Foto: Ricardo Stuckert/PR

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9 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Infelizmente a região ficou a mercê de figuras como a Marina Silva, em que seus negócios são discutir os problemas tomando cafezinho em Paris.

  2. Manfred Trennepohl
    Manfred Trennepohl

    A solução para a situação calamitosa da Amazônia começa com a expulsão de todas as ONG’s, retenção das riquezas acumuladas por seus “chefes” e, como segunda etapa, investigação séria dos políticos caciques, da quadrilhas/organizações criminosas e consequente sequestro dos bens e prisão. A etapa seguinte é promover ações emergenciais para resgatar a dignidade da população e posteriormente planos de desenvolvimento de curto, médio e longo prazos e a desregulamentação da legislação ambiental

  3. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Doutor Evaristo nos apresentando os fatos como eles são e contra fatos não há argumentos.
    Seu esclarecedor artigo fala em matéria de julho de 1980, mas lembro que nos meus tempos do antigo ginásio no início dos anos 1970 já havia a narrativa de que em 40 anos a Amazônia se transformaria em um imenso deserto.
    Nestas cinco décadas o que ocorreu foi o abandono do povo com os governantes seguindo as cartilhas do Rei na Noruega, das ONGs, Gretas, Di Caprios, “artistas” da Rouanet, etc.

  4. Joao Abib Mansur
    Joao Abib Mansur

    Infelizmente todos estes anos de PT destruísse não a Amazônia mas o povo amazonense , ali realmente o que sobrevive é a Floresta , interesses internacionais e ONGs muito bem pagas fustigam políticos todos os dias (Políticos de Esquerda) .

  5. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Evaristo, obrigado pela magnífica aula de agricultura, política, geografia, economia. Um primor.
    O MST sabe disso???Segundo “economistas”, de certo lado, quem alimenta a população brasileira são eles. È preciso juntá-los para explicar a situação. Evidentemente irão conta sua explicação, mas……

  6. Paulo Cesar
    Paulo Cesar

    Lembram-se da criação da Reserva Raposa Serra do Sol ? Havia, na epoca, grande produção de arroz que acabou ! Foi em um dos governos Lula.

  7. Letícia Mammana
    Letícia Mammana

    O prof. Evaristo mostra com dados e mapas a destruição e o atraso causados pelas propostas de “florestânia” na Amazônia. Hoje, a região tem indicadores sociais e econômicos bem piores do que os do sertão nordestino. E se depender do Governo, das Marinas da Silva e do ambientalismo internacionalista isso vai piorar. Onde está a defesa de nossa soberania na Amazônia e do direitos humanos do povo da região? Essa COP 30 é uma vergonha.

  8. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Pois é o PT é contra a fome mas também é FANATICAMENTE contra a produção de comida.

  9. Gustavo Amaral
    Gustavo Amaral

    Esté é daqueles artigos que ferem a alma do Brasil! O que estão fazendo com a nossa Amazônia? Malditos sejam os que fomentam essa miséria, e também os que, por conveniência ou descaso, escolhem fechar os olhos para as dores vividas por nossos irmãos amazônidas.

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