Depois dos Correios, da Infraero, da Engepron (ligada a projetos navais), da Serpro (processamento de dados do governo) e de várias outras, mais uma estatal brasileira começa a registrar números bastante preocupantes. Sinônimo de bons lucros até pouco tempo atrás, o Banco do Brasil apresentou nesta quinta-feira o balanço do segundo trimestre e registrou uma queda de 66% em relação ao mesmo período do ano passado. É a segunda baixa seguida. No primeiro trimestre, o lucro líquido do banco caiu 24% — os chamados “bancões” do setor privado (Itaú, Bradesco e Santander) aumentaram o lucro.
Para encontrar um resultado pior, é preciso voltar ao último trimestre de 2016, época em que a estatal ainda sofria com os efeitos desastrosos para a economia do governo Dilma Rousseff, quando a queda foi de 67%.

Agora, o problema está no agronegócio, um dos setores mais sólidos da economia. Desta vez, o erro não foi exatamente dos produtores, mas do próprio banco, que subestimou os riscos das operações e ampliou o volume de crédito sem garantias robustas. Resultado: o aumento da inadimplência chegou a 3,5% — pior marca desde o início da pandemia.
Em números totais, contudo, o montante envolvido é muito maior. Em março de 2020, a inadimplência somava R$ 6,5 bilhões. Hoje, são R$ 12,5 bilhões em parcelas atrasadas há mais de 90 dias. O mercado carimba esse dinheiro não pago como NPL, sigla para non-performing loan. Em português: empréstimos não produtivos. Ou seja, um dinheiro com alta probabilidade de não ser pago — e que, além do agro, abarca outros setores que também não vão bem.
A escalada preocupa porque o Banco do Brasil, ao contrário dos concorrentes privados, tem grande parte da carteira concentrada em linhas de crédito com retorno mais baixo e riscos mais altos, muitas vezes moldadas para atender políticas públicas. Essa característica, que no passado ajudou a expandir a base de clientes e a impulsionar setores estratégicos, agora se volta contra o próprio banco.
Em maio deste ano, quando divulgou os resultados do primeiro trimestre, as ações do Banco do Brasil (BBAS3) despencaram mais de 30% (fechando em R$ 19,85 nesta quinta-feira). Isso antes mesmo do balanço do segundo trimestre. Segundo reportagem de O Estado de S. Paulo, “analistas cortaram as projeções de lucro e colocaram a recomendação das ações do Banco do Brasil em revisão”.

“Enxergo um problema majoritariamente de gestão”, observa Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. “De qualquer forma, não deixa de ser uma oportunidade. No ano que vem teremos eleição e pode ser que seja indicada uma equipe ligada aos interesses dos acionistas”.
O agro responde por 30% das operações de crédito da instituição. No Itaú, no Bradesco e no Santander, por exemplo, esse índice é inferior a 10% dos empréstimos. Além disso, tornou-se prática do mercado fazer empréstimos para produtores rurais apenas quando eles se dispõem a colocar a terra como garantia. O Banco do Brasil age diferente: empresta aceitando a safra como caução, o que aumenta ainda mais o risco de não receber diante dos problemas enfrentados pelo setor.
Em entrevista ao Estadão, Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RFG, explicou que dar a terra como garantia (alienação fiduciária) é mais seguro para quem empresta dinheiro porque a dívida pode ser cobrada mesmo quando o produtor está em recuperação judicial. “Na alienação fiduciária, o crédito é automaticamente extraconcursal”, disse. Isso significa que o devedor não pode incluir essa dívida na recuperação e o credor pode tomar o bem dado em garantia.
Segundo o Serasa, a inadimplência do agro no primeiro trimestre chegou a 7,9%. Um ano antes, era de 7%. Os dados também mostram uma alta de 20% nos pedidos de recuperação judicial (RJ) do setor. Ao todo, 389 produtores optaram pela medida (alta de 21,5% em relação ao último trimestre de 2024). Metade deles são pessoas físicas. Um relatório do Itaú BBA alerta para um risco extra nesses pedidos, o moral.
“O processo agora é mais fácil para os produtores solicitarem recuperação judicial”, informa o relatório. “Combinado com um histórico recente de aumento de renegociações e prorrogações, pode ter criado um risco moral. Eles podem ter capacidade de pagar, mas sua disposição para fazê-lo pode ter diminuído.”

Os problemas de pagamento no Banco do Brasil não se limitam ao agronegócio. Hoje, a inadimplência acima de 90 dias, considerando toda a carteira, soma R$ 47 bilhões — o equivalente a 4,2% de todo o crédito concedido pelo banco, segundo a série histórica disponível no portal de relações com investidores. Se repetir o desempenho dos últimos trimestres, o calote deve continuar avançando. E os sinais já estão aí: a inadimplência acima de 30 dias também segue em alta.
No primeiro semestre de 2025, o banco já deu como perdidos quase R$ 20 bilhões da carteira de crédito. Nem mesmo no governo Dilma houve uma perda tão grande. Em fevereiro, a diretoria do Banco do Brasil previu um lucro líquido entre R$ 37 bilhões e R$ 41 bilhões para este ano. Com tantos números ruins, a previsão foi revisada para baixo. Agora é de no máximo R$ 25 bilhões. No mercado, há quem acredite em valores ainda mais baixos.
Analistas do mercado que preferiram não se identificar relataram que o resultado foi pior do que o esperado: “A expectativa era de um soco. Em vez disso, veio um nocaute”. Se ainda não caiu no ringue, é possível dizer que a estatal está nas cordas. Investir no Banco do Brasil sempre foi, para muitos, sinônimo de bons rendimentos. Mas a perspectiva de lucro para os acionistas em 2025 fica menor a cada novo trimestre — e não há sinais de que o próximo balanço trará um alívio significativo.
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Onde tem governo envolvido, dificilmente dará certo. Não existem políticas de longo prazo, pois o atual ocupante só pensa nos 4 anos de seu mandato. Ações de longo prazo, que efetivamente faz crescer a empresa, não são prioridades.
Bota os bandidos brasileiros pra gualtanamo