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Edição 283

Do profeta Elias

O povo que não consegue saber que é o patrão, é incapaz de cobrar de seu representante

Desembarcado em Brasília, entrei no banheiro do aeroporto e um homem de macacão, que lá deixava tudo limpo, me abordou:

— O senhor que está todos os dias ajudando a entender muita coisa, que me ouça também. Eu acho que tudo isso acontece porque eles conseguem enganar o povo, que não consegue perceber que está sendo usado, mas a mim não enganam, porque eu me informo de tudo. Como é que vão resolver isso, seu Alexandre?

Vi no crachá: Elias. 

— Você tem nome de profeta e está me dizendo que só vamos resolver quando o eleitor souber votar. Eles não querem escolas que estimulem o conhecimento, querem que o povo só se ocupe com futebol, como se o futebol trouxesse um melhor futuro para seus filhos e netos. A alienação dos temas políticos faz a festa dos demagogos, dos populistas, dos mentirosos.

Fui buscar minha bagagem e decidi pôr no papel as ideias que o profeta Elias do banheiro do aeroporto despertou. Em primeiro lugar, o desinteresse num ensino de verdade, que amplie o conhecimento que liberta e estimule a curiosidade que amplia o conhecimento que liberta. É o melhor antídoto para as mentiras que são pronunciadas quase todos os dias, por mentirosos contumazes. Lula chega a fazer a apologia da mentira, se gabando de enganar estrangeiros com números de meninos de rua do Brasil. Até envolve sua mãe, ao citar como conselho materno, que “a mentira voa e a verdade engatinha”. Diz que tem que mentir e demonstra: ao Jô Soares explica que o dedo foi decepado num torno da fábrica; aos pescadores nordestinos revela que foi numa captura de caranguejo. Quanto menos conhecimento a pessoa tem, mais ingênua é. Aí, nem duvida de gabolices.

Alunos da Escola Municipal Abílio Gomes, na capital pernambucana, usam livros didáticos que podem ser proibidos pela Câmara de Vereadores | Foto: Sumaia Vilela/Agência Brasil)

Os espertos, beneficiários de ilicitudes, lavadores de dinheiro, aproveitadores de função pública, formadores de máfias familiares, às vezes se descuidam e ficam com o rabo preso na Justiça. Buscam mandatos no poder político, porque ficam à mercê do Judiciário. Aí, não podem cumprir seus deveres com o patrão supremo, que é o povo, e freiam seus próprios pares para não contrariar a vontade política de quem acredita que o Judiciário seja um poder político, como vemos hoje nas duas casas do Congresso. O povo, que não consegue saber que é o patrão, é incapaz de cobrar de seu representante. Passa longe dele a noção de que é o mandante de um mandatário no Estado, já que o nomeia pelo voto e o sustenta pelos impostos. Nem sabe que paga imposto em tudo que compra.

Como pode o Brasil ter reeleito Lula mesmo depois do que foi exposto no Mensalão? Como pode ter eleito Dilma, candidata que Lula indicou? Como pode ter reeleito Dilma, depois do desmonte das contas públicas e do Produto Interno Bruto em seu desastroso governo? Acabou impedida, por pressão do povo na Avenida Paulista — mas se fosse por seu eleitor, nada aconteceria. 

A falta de conhecimento parece afetar a dignidade. A pessoa prefere a esmola do Bolsa Família ao trabalho. Vozes da Seca, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lembra que “uma esmola a um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão.” Votos se compram fácil de eleitores que não se importam com a política. Fica fácil enganar esse eleitor com promessas de benefícios no discurso populista eleitoral. Aí, são eleitos espertalhões.

Dilma Rousseff é a atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB)
Dilma Rousseff | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Se escolas ensinassem — bastaria que ensinassem —, o conhecimento ajudaria a blindar os enganados; se as TVs e os rádios que ainda chegam ao povo como entretenimento, levassem às suas casas algum despertar de interesse político como cidadãos; se o futebol lembrasse aos torcedores que a torcida de mais gols é para que o país não seja governado por aproveitadores, mas por pessoas capazes que queiram servir e não sorver; se essa grande maioria que nem sabe para que servem vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente, juízes e promotores; se soubessem que funcionário público é servidor do público — e não alguém que garantiu emprego com estabilidade sem precisar de produtividade, o Brasil seria maior, melhor e de mais bem-estar com menos insegurança de todos os matizes.

A verdade liberta. A ignorância escraviza.

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5 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Muitos brasileiros não tem essa noção. Acham que o estado que é nosso patrão, e nós devemos servi-los. Aqui perto de mim fica a sede do Tribunal de Contas de minha cidade, parece um palácio, onde os servidores aparecem só metade do dia, e isso quando vão…
    Enquanto os vizinhos, uma loja de tintas, e outra de motocicletas, de 08:00 às 18:00, e também aos sábados pela manhã, na luta para ter seu sustenta e também sustentar este palácio de vidro e seus servidores. Esta equação não tem como dá certo.

  2. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Excelente Alexandre. Você não consegue entrevistar FHC, TEMER, e outras celebridades tucanas e pmdebistas para nos dizer por que fizeram o “L” e ainda defendem Alexandre de Moraes como recentemente disse Temer que ele conseguiu salvar nossas eleições em 2022?
    O que Temer quis dizer? Qual o ódio de FHC à Bolsonaro e bolsonaristas, que seguramente são como eu tucanos arrependidos da tremenda enganação fossem da centro direita?.
    Certo esta Rodrigo Constantino, quando diz que tucano esta sempre em cima do muro e quando cai é sempre do lado esquerdo.

  3. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Alexandre, quando eu nasci você já era adolescente, mas em épocas com pouca diferença de tempo frequentamos a mesma escola.
    Nos anos 1960 morava em Curitiba e lá aprendi português e redação com o professor Laurindo, história com o professor Hamilton, Geografia com o professor Francisco, inglês com a professora Ada, francês com o professor Ivens, matemática com o professor Oswaldo… os professores de antigamente, tinham o dom de mudar uma vida para o resto da vida.
    Sempre utilizo como parâmetro educacional os modelos brasileiro e da Coréia do Sul. Há 60 anos a renda per capita brasileira era o dobro da coreana. Hoje a coreana é quase 5 vezes a brasileira. Milagre? Não, apenas planejamento e execução de longo prazo com investimento de 3% do PIB em pesquisa de desenvolvimento.
    Hoje consumimos no Brasil eletrônicos e automóveis coreanos, enquanto o Brasil continua sendo o país do futuro que nunca chega.

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Que prazer em ler seu artigo mestre .Me alegrou em um sábado sombrio em São Paulo,saudade enorme de meu irmão. Conhecimento de fato é libertador,é a chave contra mentiras, contra enganos que nos contam diariamente. Hoje no Brasil fico triste ao ver o índice de analfabetos e das crianças que não conseguem entender oque leem.Sim,você citou o empregado do aeroporto de Brasília, conheço muitos assim.Sabem o que não está correto, mas não possuem os instrumentos para agir.O voto é sagrado, se você quiser mudar algo é apenas saber escolher. Faço a mesma pergunta, porquê que o povo brasileiro votou novamente em Lula?Talvez porque nunca teve a possibilidade de saber que iria novamente fazer o que apenas fez em toda sua vida:mentir e roubar.

    1. Manfred Trennepohl
      Manfred Trennepohl

      Verdade. A preguiça mental de grande parte da população brasileira, seja por comodismo ou falta de conhecimento, permite a eleição de pessoas que não representam os interesses da nação mas deles próprios, e estes mantém no cabresto o eleitor.

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