“Se o senhor estiver em um negócio,
e for se dando bem com ele, pensará
porventura em abandoná-lo? Pois é
exatamente o meu caso. Porque vou
me dando bem com este negócio,
ainda não pensei em abandoná-lo”
(Lampião, em entrevista publicada no jornal
O Ceará, ao ser perguntado se estava pensando
em parar, em 17 de março de 1926)
Na Gruta de Angicos, próxima às margens do Velho Chico, em Sergipe, uma emboscada levou à execução dramática de Lampião e seu bando de parceiros fora da lei que ali estavam acampados. O ataque aconteceu na alvorada do dia 28 de julho de 1938 e representou o fim simbólico do cangaço no Brasil.
“Livre o Nordeste do maior de seus bandoleiros. ‘Lampeão’ morreu lutando, e sua cabeça, com a de 9 companheiros, foi conduzida para Maceió. A façanha do tenente Bezerra — traços biographicos do popular agitador do Norte”, dizia a manchete.

Às 5 da manhã do dia 28 de julho, tenente João Bezerra da Silva, acompanhado por uma tropa de 48 policiais de Alagoas, cercaram silenciosamente os 34 cangaceiros presentes no acampamento e os metralharam durante cerca de 20 minutos. Onze morreram ali mesmo, entre eles o mais temido de todos: Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e sua companheira Maria Deia, a Maria Bonita. Alguns cangaceiros conseguiram escapar. Os policiais cortaram a cabeça dos mortos e apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as joias. Maria foi degolada viva. As cabeças foram salgadas e colocadas em latas de querosene contendo aguardente e cal. Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto para os urubus. Muitos bandos se desfizeram e alguns cangaceiros se entregaram com a notícia da morte de seu líder Lampião. O governo do presidente Getúlio Vargas ofertou anistia àqueles que se entregassem.


Na sequência se sucedeu um espetáculo mórbido: as cabeças decapitadas foram expostas na escadaria da prefeitura da cidade de Piranhas, Alagoas, junto com os apetrechos dos cangaceiros, como armas, cintos, chapéus e outros adereços típicos. O episódio rendeu uma das fotos mais emblemáticas do período. A autoria é desconhecida. As cabeças seguiram depois para diversas cidades do Nordeste. Chegaram a ficar em exposição pública por décadas em Salvador, Bahia, permanecendo primeiro na Faculdade de Odontologia da UFBA e depois no Museu Antropológico, localizado no prédio do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. Só foram sepultadas em fevereiro de 1969.

As ações do bando de Lampião ultrapassaram as divisas de Pernambuco, chegando aos estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e, posteriormente, Alagoas. Por onde passavam, os cangaceiros levavam destruição, paralisavam o comércio, roubavam, cometiam estupros e matavam. Em contrapartida, eram considerados agentes de um movimento para combater a desigualdade. Protegiam somente quando interessava, geralmente personalidades influentes, governadores, vaqueiros, habitantes comuns, entre outros. Uma parcela da população os enxergava como criminosos e assassinos; outra, como heróis populares. Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, em seu livro Apagando o Lampião: Vida e Morte do Rei do Cangaço, “Lampião vivia fora da lei, mas mantinha excelente relacionamento com os poderosos. Era protegido por coronéis e políticos. O governador de Sergipe, Eronildes Ferreira de Carvalho, tinha amizade com Lampião e lhe fornecia armamento e munição”. No entanto, em 1937, essa promiscuidade entre poder público e banditismo chegou ao fim com a instalação do Estado Novo. Uma das frentes da ditadura de Getúlio Vargas era a modernização do país, e nesse “novo Brasil” o cangaço era uma vergonha nacional.


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Excelente coluna.
Ô Giorno eu te amo literairamente, mas que coincidência, 11 morreu na hora do bando de Virgulino Ferreira Cabeça de Ovo Moraes da Silva