Israel pôs em prática, pela segunda vez, uma importante mudança adotada em suas regras de atuação militar: em lugar da doutrina do “silêncio por silêncio” — em que todos os esforços eram válidos para evitar novos conflitos —, o país adotou a estratégia da “estabilidade e paz pela força”. A tática muitas vezes requer primeiro atacar preventiva e rapidamente para depois gerenciar as consequências diplomáticas.
Essa postura, adotada a partir do ataque do Hamas em outubro de 2023, foi percebida na incursão israelense contra o Irã em 13 de junho e explica em grande parte o que levou Israel a bombardear, na semana passada, posições em Sweida, província de maioria drusa, e também dois edifícios governamentais em Damasco, na Síria. Os ataques pegaram Donald Trump de surpresa, gerando uma resposta negativa por parte dele e também de outros países do mundo.
O bombardeio israelense foi realizado após as violentas investidas contra a comunidade drusa iniciadas em 13 de julho, orquestradas por grupos de jihadistas empoderados por anos de colapso governamental. Por causa da falta de comunicação e de acesso à região, é difícil estimar o número de vítimas: segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, 940 mortes foram confirmadas até o dia 21 de julho, além de milhares de feridos. A mídia local divulgou que centenas de pacientes hospitalizados no único hospital da cidade foram fuzilados em seus leitos.
Os agressores são militantes islamistas, gangues beduínas e membros do governo sírio ligados ao Hayat Tahrir al-Sham (THS) — o braço sírio da Al-Qaeda, de onde provém também o atual presidente, Ahmed al-Sharaa. “O Estado judeu busca garantir que sua fronteira norte esteja segura e livre de jihadistas, usando também a vantagem estratégica de contar com a presença dos drusos ali”, explica Dan Diker, presidente do Jerusalem Center for Security Affairs.

A parceria centenária entre israelenses e drusos
Sem estatísticas oficiais disponíveis, estima-se que existam cerca de 1 milhão de drusos no mundo, em sua maioria espalhados por Israel (152 mil), Líbano (250 mil) e Síria (600 mil). Sem aspirações nacionalistas, eles optam por viver em paz sob o governo do país em que habitam. “Não atacamos ninguém, mas defendemos a terra em que vivemos”, resume o historiador druso-israelense Jaber Abu Rukun.
A relação entre a comunidade drusa e a israelense remonta há séculos — o conhecido historiador espanhol Benjamin Tudela registrou, em 1165, a relação de respeito e parceria entre judeus e drusos na região do Levante. A parceria manteve-se também durante e depois de 1948, ano de criação do Estado moderno de Israel, com drusos lutando lado a lado com os judeus na sangrenta Guerra de Independência do país. Apesar de pequena — representam apenas 1,5% da população de Israel —, a comunidade drusa tem papel proeminente em diferentes setores, seja na academia, na política, seja nos negócios. No exército, são conhecidos como combatentes leais que alcançam altos rankings, e são respeitados por sua coragem e lealdade.
Os drusos têm também uma característica marcante como sociedade: mesmo vivendo em diferentes países, eles mantêm entre si fortes laços comunitários e familiares. Com uma religião própria e secreta, raros são os casamentos mistos e, por se verem como uma só comunidade, fronteiras não os separam. Em razão de todo esse histórico, o governo israelense atendeu aos apelos de sua comunidade drusa local quando esta lhe pediu ajuda para interromper o massacre em andamento em Sweida.
“Os drusos sabiam que isso iria acontecer: já em dezembro de 2024, logo após a fuga do ex-presidente Bashar al-Assad do país, líderes drusos da Síria pediram proteção a Israel. O exército do novo presidente, Ahmed al-Sharaa, é composto em grande parte de pessoas com ideologia similar à do Estado Islâmico, que se opõe violentamente a todas as minorias não muçulmanas, as quais consideram infiéis. Israel não poderia negar ajuda”, explica a Dra. Dina Lisnyansky, especialista em Oriente Médio do Moshe Dayan Center, na Universidade de Tel Aviv.
Violência desmedida
O nível de violência utilizada por grupos jihadistas raramente encontra equivalência no mundo ocidental, combinando humilhação e crueldade difíceis de serem descritas. Drusos, e também cristãos, estão sendo assassinados em suas casas, santuários são incendiados enquanto abrigam pessoas que buscam refúgio, centenas são sequestradas e vendidas como escravos (no caso das mulheres, escravas sexuais). É impossível ter precisão no número de mortos e feridos: sabe-se apenas que passam dos milhares. Os ataques continuam, mesmo que com pouca divulgação — a província está sem eletricidade e internet há semanas, e também sem provisão de água e alimentos. Há notícias de que Israel teve êxito na entrega de ajuda humanitária uma única vez, por causa do bloqueio do exército sírio na região.
O governo israelense e a administração Trump têm visões diferentes sobre o presente e o futuro de al-Sharaa, o qual deixou de lado a farda, a longa barba e o turbante para vestir terno e gravata: enquanto o primeiro acredita que “uma vez jihadista, sempre jihadista”, o segundo fez um movimento de alto risco ao suspender, em 30 de junho, as sanções econômicas à Síria e abraçar o presidente como parceiro regional. Sabe-se, no entanto, que o verdadeiro teste de al-Shaara não diz respeito a como ele se veste ou conduz reuniões em Washington, e sim a como ele tratará suas minorias — até o momento, ele falhou em provar suas boas intenções.
“É preciso lidar com esse monstro antes que ele controle o petróleo, o gás, aeroportos, portos etc”, alerta a ativista israelense drusa Rania Fadel, residente em Los Angeles. “Isso não só nos ameaça, mas a todo o mundo liberal que quer paz e igualdade. Recebo mensagens todos os dias de drusos sírios com descrições que me remetem aos capítulos mais escuros da história. Surpreendo-me ao perceber que a grande mídia, por acreditar que possa haver paz com pessoas como al-Sharaa, mantém o silêncio.”
Em entrevista a Oeste, Dina Lisnyansky acredita que “a Síria só pode ser governada por alguém que reconheça as minorias”. E tudo indica que a al-Sharaa é incapaz de fazê-lo. A seguir, a especialista detalha a ameaça jihadista e o papel do novo presidente sírio.

Quais são os reais objetivos de al-Sharaa?
Publicamente, ele afirma que seu objetivo é unificar a Síria. No entanto, sabemos que ele é um fundamentalista que segue a ideologia do Estado Islâmico, segundo a qual as minorias não sunitas são consideradas infiéis, e especialmente os drusos, considerados hereges. Para esses radicais, os drusos só têm duas opções: a conversão ou a morte.
Os drusos de Sweida são os únicos alvos dos fundamentalistas?
Não, e é importante ressaltar que este não é um conflito político que ocorre apenas nesse reduto druso, mas, sim, uma guerra teológica que está sendo travada contra esse povo em toda a Síria — também os drusos de Damasco estão sendo atacados. São ataques sistemáticos, e as ordens são provenientes do governo sírio. Também as vilas ao redor da cidade de Sweida foram destruídas e seus habitantes foram mortos das formas mais horrendas possível. A decapitação tem sido um método recorrente de extermínio, e a violência sexual é direcionada a todos: homens, mulheres idosas, meninas etc. É um avanço genocida que busca eliminar toda a comunidade, que é uma das menores na Síria [compreende cerca de 3% da população].
Qual é a situação humanitária no momento?
Terrível. Não há acesso a água nem a comida. Eles também não podem contar com seus vizinhos. Estamos observando a mesma violência e crueldade usadas pelo Hamas na invasão a Israel em 7 de outubro de 2023.
Por que esse tipo de ataque aos drusos não ocorria sob o presidente Assad?
Primeiro, porque se tratava de um governo secular. Além disso, Assad era alauita [outra minoria síria, que compreende cerca de 15% da população], que tem semelhanças com o povo druso. Tanto os alauitas quanto os drusos na Síria sabiam que haveria vingança e, de fato, os alauitas foram os primeiros a ser atacados. Agora chegou a vez dos drusos. Os cristãos, outra minoria síria, também estão sendo atacados com a mesma selvageria. Quem consegue abandona o país. Muitos estão sendo sequestrados, e seu destino é serem vendidos como escravos. Chegou até mim uma lista com nomes de famílias inteiras de sequestrados, enviada por uma ONG de mulheres drusas, uma das várias que estão implorando por ajuda.

Que tipo de governante al-Sharaa pretende ser?
Não há uma resposta clara. Tudo indica que ele esteja interessado em unificar a Síria, pois sabe que isso seria positivo para o país. Em contrapartida, ele também sabia que o que assistimos agora iria acontecer. Alguns agressores foram presos pelos drusos e interrogados: eles admitiram, em vídeo, o envolvimento de homens de al-Sharaa. Se ele quer construir um califado ou um regime democrático, ninguém sabe. Ele tem duas faces. Por vezes se comporta como islamista, com uma visão e um papel teológicos, muito embora na maior parte do tempo o vejamos na mídia ocidental como um líder pró-Ocidente. Ele sabe representar os dois papéis. E não sabemos o que ele quer. Sabemos apenas o que ele diz.
O que se pode esperar neste momento?
Tenho a impressão de que uma guerra civil está a caminho. Os curdos devem ser o próximo alvo, muito embora tenham selado uma trégua com o presidente [em março de 2025]. É possível dizer que estamos em uma encruzilhada e precisamos aguardar para saber que direção al-Sharaa tomará. Entrar em combate com os curdos traz um desafio diferente, porque eles têm mais experiência em combate. Além disso, eles militarizaram as mulheres e, para os islamistas, quem é morto por uma mulher não vai para o céu, e essa é uma mensagem que os curdos utilizam em sua campanha. As mulheres drusas não são treinadas. Caso fossem, teriam pelo menos a chance de se defender agora. Quem sabe isso mude daqui para a frente.
Poderemos testemunhar a divisão da Síria em cantões ou países?
Tudo pode acontecer. Embora esta seja uma possibilidade, é difícil saber quanto ela é viável.
Netanyahu ordenou um ataque à Síria e foi repreendido por Trump. Como isso se explica?
Eles têm perspectivas diferentes. Trump tem interesse em unir toda a região sob um único pacto, os Acordos de Abraão. Israel também o quer, e espera que outros países se juntem a eles. Ainda assim, Netanyahu não tem outra opção senão colocar a segurança de Israel em primeiro lugar. É isso que leva o exército israelense a manter indefinidamente tropas militares no sul da Síria de forma a isolar essa fronteira, criando uma área de segurança entre esses jihadistas e o norte do país.
Há vídeos mostrando os jihadistas gritando “hoje é Sweida; amanhã, Jerusalém”. Israel leva essa ameaça a sério e não tem outra escolha. Isso também é parte da estratégia que envolve a amizade e a segurança conjuntas — israelenses e drusos sabem disso.

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Excelente e esclarecedor esse artigo cujo teor a grande imprensa divulga pouco. Meu avô paterno era druso, agradeço a reportagem.